Argentina

Como a eleição presidencial da Argentina reflete na disputa à presidência do Boca Juniors

Craque do passado, Riquelme tentará ser presidente do Boca e enfrenta o ex-presidente da Argentina do outro lado, em uma disputa que tem paralelos com a eleição presidencial do país

A Argentina vive seus últimos dias de campanha para a eleição a presidente do país. Atual ministro da economia, Sergio Massa (Unión por la Patria) tenta se eleger presidente e é o candidato da centro-esquerda no país. Do outro lado, Javier Milei (Partido Libertario), de extrema direita, que é o favorito no momento. A eleição presidencial tem um paralelo muito forte em um dos clubes mais populares do país: o Boca Juniors, que também terá disputa pela presidência com candidatos que estão em lados opostos da política nacional argentina.

Dois nomes são os mais fortes na eleição à presidência do Boca: Juan Román Riquelme de um lado e o ex-presidente da Argentina e do próprio Boca, Mauricio Macri, do outro, mas como vice-presidente. Os dois lados têm também os seus apoios opostos na eleição presidencial, com lados opostos. A disputa pela Casa Rosada, sede do governo argentino, terá influência também na Casa Amarilla, do Boca Juniors.

Riquelme e a construção de alianças

Depois de muitas conversas, Juan Román Riquelme foi confirmado como candidato a presidente do Boca Juniors na madrugada desta quarta-feira (15). Ele terá um nome forte da política do clube ao seu lado como candidato a vice-presidente: Jorge Amor Ameal, que é o atual presidente e quem levou Riquelme para a vice-presidência, que foi um trunfo político importante para se eleger.

A definição da chapa que será encabeçada por Riquelme foi fruto de muita negociação. A ideia inicial era que Ameal não estivesse nela, mas o atual presidente não quis ceder o seu espaço. Isso fez com que as negociações fossem muito mais difíceis. Riquelme quer se cercar de nomes tradicionais da política do Boca para se fortalecer para uma eleição que tem tudo para ser duríssima.

Curiosamente, a relação entre Ameal e Riquelme não tem sido boa nos últimos meses. Embora Ameal seja o presidente, quem tem realmente exercido o poder é Riquelme. E a ideia de tirar Ameal da chapa passava também por isso. Só que o atual presidente tem influência política e aliados e, diante da possibilidade de perda de poder, ameaçou sair como candidato e dividir os votos que seriam de Riquelme. Assim, o ex-camisa 10 precisou ceder para ter Ameal ao seu lado não porque quer, mas porque precisa.

Além de receber o apoio de Riquelme nas eleições presidenciais, Sergio Massa tem uma proposta que afeta diretamente o futebol: ele quer que o futebol do país volte a ter torcida visitante. Massa também tem uma outra ligação com Riquelme: ambos são da região de Tigre. Masa inclusive é torcedor do Tigre e seu cunhado, Martín Galmarini, foi ídolo do clube.

Em outubro, quando o Boca se classificou à final da Libertadores, Sergio Massa afirmou publicamente que ficaria feliz com a vitória do clube na competição continental porque é o sonho de Riquelme, seu apoiador.

“Com Riquelme construí uma relação muito boa. Nos juntamos para comer churrasco com a banda de Don Torcuato; e nasceu o mito dos companheiros de madrugada porque uma noite ele me ligou para passar na minha casa depois do jantar e, por volta das quatro da manhã, minha filha desce para beber água, nos encontra tomando mate e diz: ‘Ei, que hora aleatória para se reunirem para tomar mate’”, contou Masa no programa Método Rebord, no Youtube.

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Macri e o plano de trazer outro ídolo do Boca se vencer

Do outro lado do pleito, outros nomes conhecidos não só do futebol, mas da política argentina: Andrés Ibarra será o candidato a presidente, mas o seu vice é quem chama mais a atenção: Mauricio Macri, ex-presidente do Boca e da Argentina.

Ele fará uso da sua influência para tentar voltar a ter poder no clube que o alçou no cenário político argentino. O seu partido, PRO, decidiu apoiar Milei nas eleições presidenciais. Além disso, o nome que encabeça a sua chapa, Andrés Ibarra, é outro membro do PRO, que foi Ministro de Modernização da Argentina durante o governo Macri.

Uma das cartas na manga da candidatura Ibarra-Macri é a aposta em um ídolo histórico: Martín Palermo. A chapa promete trazer o ex-atacante para ser o técnico da equipe em 2024, se vencer a eleição. Além disso, o projeto dos opositores inclui a remodelação do estádio da Bombonera. Palermo publicamente apoiará Macri, o que será um trunfo usado pelos opositores. É algo que apela ao torcedor e aos sócios: se de um lado Riquelme pode apelas às boas lembranças do passado, Macri também pode, pela sua gestão, que foi vitoriosa, e também com Palermo, que é um símbolo da era vitoriosa do clube.

Palermo tem contrato com o Platense até o fim de 2023 e os dirigentes do clube querem a sua permanência para 2024. Só que a oferta da chapa Ibarra-Macri faz com que Palermo possa ter um papel importante no Boca para 2024. O ex-atacante tem o sonho de ser treinador do Boca e isso se cumpriria com a chapa de oposição. É algo que afeta Riquelme porque era um nome que ele trabalhava para 2024, mas que agora certamente não será mais considerado — ou ao menos ficará muito difícil convencer o ex-companheiro a assumir, caso vença a eleição.

A divisão entre as duas chapas à presidência do Boca é refletida na eleição argentina. Riquelme é apoiador de Sergio Massa, com quem tem uma relação mais próxima. Seu apoio é público e gerou críticas de opositores dentro da política boquense — mais ainda depois da derrota do Boca na final da Libertadores para o Fluminense. Já se sabia que Riquelme tinha ambições políticas de se tornar presidente dos xeneizes.

Milei, inclusive, já se manifestou publicamente apoiando a candidatura de Andrés Ibarra e Mauricio Macri, como era esperado. Em entrevista à rádio Continental, Milei inclusive disse que estará à disposição para ajudar o aliado Macri se for eleito presidente da Argentina: “Se o engenheiro Macri considera que posso ser útil para recuperar a grandeza e o brilho que o Boca teve durante a sua gestão, não tenho problemas em ajudá-lo, obviamente”.

Milei era torcedor do Boca. E digo era porque o próprio chegou a dizer que se desencantou com o time na região de Daniel Angeleci, que tomou medidas consideradas populistas peo atual candidato à presidência argentina. Mais ainda: chegou a dizer que torceria para o River Plate depois disso. Apesar dessas falas que são extremamente controversas (e essa não é a mais absurda delas), ele promete tentar ajudar Macri se for eleito e se o seu aliado ganhar o pleito no Boca.

Quando serão as eleições no Boca?

A decisão para a eleição do Boca Junior será depois da eleição da Argentina. Enquanto os argentinos decidirão quem será seu presidente nos próximos quatro anos no dia 19 de novembro, próximo domingo, a eleição no Boca acontecerá no dia 2 de dezembro. Inevitavelmente, uma terá reflexo na outra.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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