Argentina

Rifa-se prestígio

“Clássico é clássico e vice-versa”, diria o outro. Quando se trata de Argentina e Brasil, então, a partida ganha outras proporções, ou deveria. Afinal, trata-se não apenas do “Superclássico das Américas”, mas, arrisco-me a dizer que, do Superclássico do mundo.

Mas antes vale saber que nem sempre este dérbi foi o mais importante. Por questões históricas, Argentina e Uruguai faziam o grande clássico sul-americano, quiçá, mundial. Certamente, o mais antigo, com 110 anos. Aqui, deve-se ressaltar questões políticas, economias e diplomáticas, por causa do Rio da Prata, e do próprio esporte, com as Olimpíadas de 1924 e de 1928, além da primeira final de Copa do Mundo, em 1930.

Após um hiato de decadência, entre a década de 70 até 2010, a Seleção uruguaia tem retomado seu prestígio. Contudo, neste entretempo, a rivalidade entre portenhos e brasileiros cresceu por causa dos embates e da mídia e tornou-se o maior clássico do continente americano. Alguns amigos periodistas confessam que os confrontos contra os brasileños já superaram em expectativa e atmosfera, os jogos contra os uruguaios.

Como brasileiro, não tenho dúvida que o clássico da Canarinha é contra a Albiceleste. Como jornalista, sei que essa grandiosa rivalidade deve-se também a mídia. O que dizer sobre: “Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor”? Ou: “Todo argentino é catimbeiro, violento e arrogante”? Poderia escrever uma dissertação sobre os discursos muitas vezes falaciosos que exaltam a rivalidade não apenas entre Seleções, mas entre povos.

A história talvez absolva. Mas numa partida como esta, deveria ser inadmissível uma Seleção entrar em campo “meia boca”. Pode-se dizer que é uma afronta à mística que a partida carrega e, sobretudo, ao adversário. No entanto, nos últimos confrontos, o conceito mudou e as equipes já não se enfrentam como a partida exige. Aos que indagarão “o que a partida exige?” Respondo-vos: “Respeito”. Não que as demais não mereçam, mas este clássico se adentra em outra esfera.

Deixando de lado a finada Copa Roca, por favor. Os tempos são outros. Quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Associação de Futebol Argentino (AFA) decidiram ressuscitar a Copa Dr. Nicolas Leoz, com o nome de “Superclássico das Américas” decerto não pensaram em nem um minuto sequer na história e no futebol. Apenas no retorno financeiro. Como explicar uma partida entre duas Seleções de prestígios que só podem levar a campo um combinado de jogadores locais, fora de uma data oficial, em meio a campeonatos importantes e para disputar partidas irrelevantes?

Afinal, as partidas quebram, para ambos os lados, o ritmo de convocações e a base do grupo. Ademais, os jogos não são levados em consideração por nenhum dos selecionadores em convocações posteriores. E, com o acordo entre as duas entidades, é inevitável os jogadores desfalcarem seus clubes. Logo, não se justifica. O que falta de Messi sobra de Funes Mori e Jadson… Sensacional.

O resumo da obra é simples e patética: na tentativa de aumentar a receita, CBF e AFA têm se esforçado ao máximo para rifar o prestígio que o maior clássico do mundo ainda nutre e, desta forma, semeia a mediocrização.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo