Argentina

Personagem histórico da Libertadores, Bauza encerra sua respeitável carreira como treinador

Patón conquistou a Libertadores por dois clubes diferentes e protagonizou outros feitos no Rosario Central

Edgardo Bauza possui um lugar de destaque na história da Libertadores. Patón é um dos únicos quatro treinadores que conseguiram conquistar o título por dois clubes diferentes. Porém, as dimensões do feito do argentino são bem distintas das registradas por Carlos Bianchi, Felipão ou Paulo Autuori. Primeiro, ele levou a taça pela primeira vez para o Equador, com a LDU Quito em 2008. Já em 2014, encerraria décadas de chacota na Argentina ao findar o tabu do San Lorenzo. Se não foi o treinador mais arrojado, ele conseguiu formar times bastante competitivos e escreveu seu nome nos livros. Assim encerra sua condecorada carreira à beira do campo, com a confirmação de sua despedida das pranchetas nesta semana, aos 63 anos.

Bauza tinha sido um zagueiro importante em seus tempos como jogador. Chegou a defender a seleção da Argentina em poucas oportunidades, o suficiente para ser reserva na Copa do Mundo de 1990, e permanece como uma das maiores lendas do Rosario Central, campeão em diferentes passagens. Após pendurar as chuteiras, foram exatamente os canallas que concederam as primeiras oportunidades como técnico. Dirigiu as categorias de base, até ganhar uma chance à frente do primeiro time em 1998. Seria vice-campeão do Apertura em 1999 e levou os rosarinos à semifinal da Libertadores em 2001, fazendo que muitos notassem seu talento na casamata.

Bauza rodou por outros clubes como o Vélez e o Sporting Cristal, até ser contratado pela Liga de Quito em 2006. Seria uma longa jornada, que incluiu o título do Campeonato Equatoriano em 2007 e a histórica Libertadores em 2008. Naquela campanha, os Albos contavam com um ótimo sistema defensivo e a força em seus domínios para construir os resultados. Na decisão contra o Fluminense, brilhou o goleiro José Francisco Cevallos. Apesar do crescimento do clube desde a virada do século, aquela conquista surpreendia pela maneira como catapultava o status da LDU. Bauza gravaria seu nome, ainda dando trabalho ao Manchester United no Mundial de Clubes.

Diante da fama internacional, Bauza treinou brevemente o Al-Nassr, antes de retornar à Liga de Quito em 2010. Conseguiu conquistar logo de cara a Recopa, após o título da Copa Sul-Americana com Jorge Fossati. Levou mais um troféu do Campeonato Equatoriano e ainda alcançou a final da Copa Sul-Americana em 2011, derrotado na final para a Universidad de Chile. A fama construída no Equador abriu as portas novamente na Argentina, para dirigir o San Lorenzo a partir de 2013. Foi quando tocou a Libertadores pela segunda vez, em 2014, no tão esperado título azulgrana. Mais uma vez, o Ciclón se caracterizava como um time pragmático e que contou com inspiradas atuações do goleiro Sebastián Torrico. Valeu a taça, numa edição cheia de zebras no torneio continental.

Bauza ficou no Nuevo Gasómetro até 2015. Acabou contratado pelo São Paulo e levou o Tricolor à semifinal da Libertadores em 2016. Era um trabalho irregular, mas ainda assim Patón virou solução de crise para a seleção da Argentina em 2016, após a derrota na final da Copa América Centenário. Até conseguiu convencer Lionel Messi a retornar à Albiceleste, após sua brevíssima despedida, mas os maus resultados nas Eliminatórias culminariam em sua demissão após oito jogos. A bagunça generalizada imperava na AFA e, mesmo sem demonstrar tantos recursos no aspecto tático, Bauza também pagou pela falta de estabilidade ao redor do time. A grande chance de sua carreira se esvaiu.

A partir de então, Bauza teria curtas passagens pelas seleções de Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, sem sequer ter tempo para desenvolver um trabalho com os sauditas às vésperas da Copa do Mundo de 2018, demitido após dois meses. Isso até retornar ao Rosario Central em 2018. Na velha casa, o ex-zagueiro aumentou sua idolatria ao liderar a conquista da Copa Argentina, encerrando uma seca dos canallas que durou 23 anos. Ficaria no Gigante de Arroyito até fevereiro de 2019.

Naquele momento, Bauza já admitia que o Rosario Central poderia ser o último clube de sua carreira. Todavia, no final de 2019 ele assumiu um posto diretivo na LDU. Mesmo após deixar o clube, seguiria morando no Equador. Já nesta semana, durante visita à Argentina, seus representantes confirmaram à imprensa local que Patón não continuará seu caminho como treinador. Questões de saúde motivaram a sua decisão. O veterano se vai com uma história consolidada e um par de feitos que valem muito mais que a breve frustração na seleção. Para a Libertadores, Bauza é daqueles que negaram o improvável e o impensado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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