Argentina

Outra vez, a violência

O futebol perdeu, mais uma vez. O Clássico rosarino – entre Rosário Central e Newell’s Old Boys -, que desde abril de 2010 não era disputado, não teve o hiato findado. Incidentes antes da partida, no último domingo, entre torcedores Leprosos e a Polícia de Santa Fé, a suspendeu 40 minutos antes de começar. Detalhe: a partida seria disputada sem torcida visitante, neste caso a da Lepra. Ademais, a outra partida que seria jogada no próximo domingo foi cancelada.

O Clássico, que é considerado por alguns como o mais violento da Argentina, novamente apresentou os motivos os quais lhe credenciou a tal classificação. Infame. Os dias que antecederam ao encontro foram bastante conturbados, com nove registros de confusão – dentre eles, atentado a subsede do Central, incêndio a uma loja oficial do NOB e tentativa de roubo em um dos prédios Rojinegro. Por causa disso, foi formado um operativo com 700 policiais – 500 no Gigante e adjacências e 200 em outras zonas da cidade -, além de helicópteros. Não foram suficientes.

Mais de 30 mil torcedores Canallas dentro de casa, no Gigante de Arroyito, quando a confusão começou. Houve tiros nas ruas e no interior do estádio do NOB, Marcelo Bielsa. Duas pessoas ficaram feridas – uma delas, o policial, em estado grave, mas se recupera bem, a outra: um torcedor, que já foi liberado -, oito foram detidos, mas já estão em liberdade. As imagens das câmeras de segurança, surpreendentemente, foram apagadas.

O presidente do Central, Noberto Speciale, resolveu incorporar-se a uma das frases célebres de Jean-Paul Sartre e esbravejou, em outras palavras, “o inferno são os outros”. Então, a equipe Canallas, que estava preparada para disputar uma partida teve a brilhante ideia: realizar um treino aberto ao público que já estava no campo, exaltado, diga-se. Resumo: foram roubados. Isso, mesmo. Os torcedores invadiram o gramado e levaram as indumentárias dos futebolistas, que precisaram de escolta para retornar ao vestiário. Speciale pagou a língua.

Desde então dirigentes dos dois clubes trocam acusações típicas de quem não quer resolver ou arcar com as consequências. Entretanto, eles não são os únicos culpados, alguns jogadores, torcedores, polícia e políticos possuem suas parcelas de culpa. Mas a violência não é exclusividade argentina, tampouco rosarina. Pior: a justificativa de alguns é tão vazia quanto as atitudes: o “folclore”. Irônico.

Falta de decisões políticas, que culmina na falta de justiça, brigas entre barras bravas, tráfico de drogas, baderneiros infiltrados, segurança ineficaz e ineficiente… Tão vagos quanto procurar os culpados neste momento é fingir que eles não existem. Neste momento, as perguntas vêm a tona.

Onde estava o efetivo policial? Cadê as imagens das câmeras de segurança? Até quando vão realizar partidas de torcida única? O que pretendem fazer para mudar este panorama? Quantas vezes mais o futebol terá de ser refém da violência? Até quando o silêncio será a única resposta?

Sem atitudes, aumentarão as perguntas, o medo e a violência, que segue sendo a maior vitoriosa. Aguardemos até os próximos tristes capítulos.

Outro episódio

Em comemoração ao centenário, o Independiente de Rivadavia de Mendoza, da B Nacional, convidou o rival Gimnasia y Esgrima, que milita no Argentino B [Quarta Divisão], para um amistoso, nesta terça-feira. Mas a violência deu o tom da “festa”. Os torcedores rivais promoveram um distúrbio, que resultou em cerca de 100 feridos, alguns detidos, balas de borracha, gás lacrimogênio e uma partida suspensa pouco depois do início. Outra derrota do futebol…

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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