Argentina

Os DVDs vão a campo

Capa da edição de abril da revista El Gráfico, Teófilo Gutiérrez teria dito “graças a Deus”, segundo a reportagem, 20 vezes ao longo do papo que bateu com a publicação. Muito disso, e é algo bem explorado na matéria, justificado por sua infância difícil na Colômbia e a dificuldade que enfrentou para deslanchar no futebol. Não há nenhuma fonte que assegure isso, mas um novo “graças a Deus” deve ter sido ouvido da boca do jogador do Racing recentemente.

Explico: o “TJD argentino” resolveu anular nesta semana um cartão amarelo que Gutiérrez recebeu em jogo contra o Argentinos Juniors. O resultado disso é que ele está agora liberado para atuar contra o River Plate, amanhã. Na própria Academia, admitem, a situação não é das mais confortáveis. O técnico Miguel Ángel Russo falou sobre o assunto em sua última coletiva.

“Os árbitros podem se equivocar a favor ou contra. A favor não foi o nosso caso, mas são apenas circunstâncias de jogo. Não encaro como algo contra o Racing. Mas sinto que agora (após a anulação do cartão) nos miram permanentemente por conta desta decisão”.

Como se vê, Russo adota em seu discurso uma postura diretamente oposta à empregada, por assim dizer, por José Mourinho. Um tom pacifista, de quem entende que os juízes podem errar e acertar e vê nisso algo natural. Mas que talvez esteja distante do movimento que vem acontecendo no futebol argentino. Um momento histórico, afirmam os jornais. Os momentos em que as arbitragens deixaram de dar a última palavra.

A decisão do tal “TJD argentino” não chega a ser nova. Vem na sequência de uma outra atitude similar, que premiou na ocasião o meio-campista do Tigre, Martín Galmarini – em ambos casos, parece ser o consenso, de forma correta –, e que retoma um hábito aparentemente perdido – entre 1999 e 2002, Riquelme, Saviola e Marcelo Delgado tiveram, por exemplo, punições reduzidas após o uso de DVDs por advogados de seus clubes. O que provoca polêmica na Argentina é que os juízes passem a não ter mais seus posicionamentos respeitados em campo.

Não é um ponto abordado pela imprensa, e neste caso não parece ser o caso, uma suposta tentativa do Tribunal – lá chamado de “Tribunal de Disciplina da AFA” – de meramente aparecer. São dois casos isolados que chamam mais a atenção pela coincidência de terem acontecido dentro de um mesmo campeonato e que suscitam o debate – aquele velho debate – em torno das novas tecnologias no esporte. Nos gramados argentinos, já se tem a presença de cinco profissionais da arbitragem. Por que não levar o vídeo de uma vez por todas para campo, já que vem sendo usado com tal frequência por jogadores e advogados?, é o que propõem.

Há aí algumas situações em aberto: 1) a exposição que o Racing e o jogador terão que encarar daqui pra frente, 2) a fragilidade do juiz e 3) até que ponto os tribunais devem se envolver nas decisões tomadas pelos homens do apito. Sou contra a tecnologia no futebol, conservador, romântico talvez. Não parece haver motivo para tamanha preocupação – neste torneio, já foram penalizados 560 jogadores, por exemplo. Mas é preciso ficar de olho, sempre.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo