Argentina

Os dois lados de Rosario

Rosario, em Santa Fé,  aquela cidade onde o Lionel Messi nasceu, é uma cidade dividida por dois clubes: Newell’s Old Boys e Rosario Central, que atualmente vivem nos extremos. A célebre máxima do copo meio cheio ou meio vazio se aplicaria muito bem aos torcedores das duas principais equipes rosarina. Só para constar na cidade há outros dois clubes: Tiro Federal, na B Nacional [equivalente a segunda divisão], e Central Córdoba, na Primera B [equivalente a terceira divisão].

Por muitos anos, o Central foi a equipe de maior destaque da cidade. O clube conseguiu alguns títulos nacionais e até internacional – a extinta Conmebol de 1995 -, mas nos últimos cinco anos passou maus bocados, com más gestões, até ser rebaixado a B Nacional em 2010. Na última temporada, a equipe foi bastante irregular e não conseguiu o retorno à elite tão desejado pelos torcedores. Logo, esta temporada seria decisiva para as pretensões do clube, afinal, se acostumar a Segunda Divisão é um fracasso tão grande quanto o próprio descenso.

Como se a questão politico-administrativa não fossem suficientes, o clube sofreu duas importantes baixas – futebolísticas e símbolicas – Kily González e Lucho Figueroa deixaram o clube. O técnico Juan Antonio Pizzi foi demitido, o manager Gonzalo Belloso renunciou, após os maus resultados e diversos incidentes com torcedores. Chegaram o técnico Miguel Angel Russo, o arqueiro Maurício Caranta, ex-Boca Juniors e Lanús, o zagueiro e lateral Paulo Ferrari, ex-River Plate, e Héctor Bracamonte, ex-Boca e Rostov, da Rússia, lateral e meia, Javier Yacuzzi, ex-Huracán e Arsenal. No plantel, já havia Jorge Broun e Jesús Mendéz, Germán Rivarola.

A equipe, na minha concepção, possui um plantel digno para a disputa da Segundona – Mauricio Caranta; Paulo Ferrari, Nahuel Valentini (Franco Peppino), Carlos Casteglione e Javier Yacuzzi; Hernán Encima, Jesus Méndez, Nery Domínguez e Diego Lagos; Antonio Medina e Javier Toledo -, porém a falta de paciência dos hinchas Canallas, além de pressionar nas arquibancadas, agrediram jogadores no estacionamento e os assaltaram próximos ao Gigante de Arroyito. Logo, o psicológico hoje influencia mais do que os demais fatores, sem excluí-los, é claro. Atualmente, a equipe Auriazul tem 13 pontos em 13 partidas e está na 17a posição, com 14 pontos a menos do que o líder Olimpo. O clube não está ameaçado pelo rebaixamento, mas a situação é complicada. O pessismismo tomou conta.

Do lado Rojinegro de Rosario, as coisas estão completamente diferente. Após o fiasco na temporada passada, o Ñuls apostou numa receita “simples”: trazer de volta pessoas que possuíam ligações com o clube. Foi assim com o técnico Gerardo Martino e com o atacante Ignacio Scocco, o zagueiro Gabriel Heinze, ex-Roma, ManUtd e Real Madrid,  e o meia-atacante Maxi Rodriguez, ex-Atlético de Madrid e Liverpool, que se juntaram aos meias Lucas Bernardi e Maurício Sperdutti.

Tata Martino armou uma equipe compacta, consertou as deficiências, sobretudo, defensivas e encontrou o homem de referência. Além disso, é a equipe que, entre os que retornaram e os que já estavam, mais utilizou jogadores da sua cantera (18 dos 24). A equipe base é Nahuel Guzmán; Marcos Cáceres, Santiago Vergini, Gabriel Heinze e Leonel Vangioni; Pablo Pérez, Hernan Villalba, Lucas Bernardi; Martín Tonso, Maxi Rodriguez e Ignacio Scocco. Dando sequência a política do clube: a mira está voltada ao volante Pablo Guiñazu e ao zagueiro Walter Samuel.

Pode-se dizer também que o Newell’s Old Boys do Torneo Inicial é o Tigre do Clausura passado: uma equipe que brigava contra o descenso e se fez protagonista, apresentando um bom futebol. O NOB é o líder do Torneo Inicial, com 27 pontos em 13 jogos, um a mais do que Vélez Sarsfield. Segue invicto, com sete vitórias e seis empates. É também a equipe menos vazada, com seis tentos, e possui o artilheiro do campeonato: Scocco, com nove gols. Sobra otimismo.

O Central pode conseguir o acesso e os Leprosos podem não conseguir o título, mas é difícil descobrir o prisma que cada torcedor vai observar o copo. A metade de Rojinegra de Rosario certamente verá o copo meio vazio. Enquanto a Auriazul não há dúvida de que verá o copo meio cheio. Afinal, se de um lado há motivos para sorrir, o outro tem de sobra para chorar.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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