Argentina

Os canhotos argentinos

Não lembro com exatidão quem falou aquilo. Comentarista da Band, acho. Era jogo do Campeonato Paulista. São Paulo versus não sei quem. Presa fácil, salvo engano. O tricolor paulista ganhou bem, sem maiores dificuldades. 3 ou 4 a 0. Um dos gols foi marcado por Fabiano, o mesmo que hoje joga pelo Atlético-MG. Está longe de ser um dos jogadores mais graciosos. Tem uma passada lenta que, para alguns, se confunde com algo clássico. Não é bem assim.

Naquele dia, porém, o meia assinou uma obra-prima. OK, certo exagero meu aqui, mas para sempre guardei aquele gol e aquelas palavras. Entrada da área, Fabiano recebe a bola e chuta. O comentarista, então, me corrige. Não chuta, coloca. Pois foi isso que ele fez. Escolheu um lugar e ali mirou. Na caixa.

Há jogadores que conseguem isso. São poucos. Para a sorte dos argentinos, alguns estão lá, ao seu lado. São todos canhotos. Três, a bem da verdade. Estiveram em destaque ao longo dessa semana. Naturalmente, já gozam de tal condição. Jogam com a perna esquerda, algo que, não há como resistir, já lhes confere uma aura especial, digna daqueles atletas que pareciam andar pelos campos a cruzar bolas na década de 70 e que hoje muita gente relembra com nostalgia.

Não é preciso ser nenhum gênio para saber que um dos membros desse trio é Lionel Messi. De participação decisiva na vitória da Argentina sobre o Brasil, na quarta-feira, e que finalmente parece colocar para trás a discussão em torno de seu patriotismo. Convenhamos: bobagem levá-la adiante por tanto tempo. Só mesmo no país, publicou nesta semana o jornal “La Nación”, o craque do Barcelona é discutido.

Não que precise deixar de sê-lo. Mas que o debate tome outro rumo. Quem sabe pautando-se pelo golaço marcado em Abu Dhabi. Messi correu com a bola por não sei quantos metros até chegar na meia-lua da área brasileira e escolher o canto. Colocação – e não chute – marota, de quem sabia o que estava fazendo. 1 a 0 e festa argentina no Catar.

Para parte dos platinos, os festejos haviam começado no dia anterior. Cortesia de Erik Lamela, garoto de 18 anos que já está por aí, no noticiário, desde os 13 e que parece confirmar nesta temporada o que já se falava de seu futebol desde a sua pré-adolescência. No Monumental de Núñez, onde se forjou, e na Catalunha, para onde queriam levá-lo.

Foi o responsável por colocar a bola na cabeça de Jonathan Maidana, em cobrança de escanteio que originou o gol da vitória do River no Superclássico contra o Boca Juniors, na terça. Elegante, dono de passadas largas e com a cabeça sempre em riste, o meia lembra muito Paulo Henrique Ganso, vem um pouco mais de trás, organizando o jogo e direcionando seus passes de um lado para o outro. Desmerecimento meu, vão falar, mas também me recorda um pouco também Matías Abelairas, jogador igualmente canhoto e que pelos lados millonarios nunca alcançou o devido reconhecimento.

Com Lamela, me parece, será diferente. É um dos pilares desse River que vem tentando fugir do rebaixamento. Aqui, cortesia dessa vez de gente como Lucas Mareque, revelado pelo clube e que por lá passou durante um período de vacas magras, que está no berço dessa crise que ele hoje enfrenta. Não deu sorte. Tinha qualidade, sempre deixou isso claro. Ontem, mais uma vez. Em uma descida pela esquerda, o lateral poliglota trocou de perna e acertou o ângulo do goleiro equatoriano. 3 a 2 LDU sobre o Independiente, fora de casa, e mantida a esperança na Copa Sul-Americana.

O sonho da Libertadores segue vivo para o Rei de Copas. Assim como a busca por dias melhores persiste para River e Argentinos. Pode colocar na conta desses caras que manobram tão bem a perna esquerda, portadores de um ar superior e pertencentes a uma linhagem especial de jogadores.

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Equipe Trivela

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