Argentina

Os aplausos a Dalma Maradona na Bombonera ofereceram a maior emoção numa rodada repleta de tributos a Diego na Argentina

A retomada do futebol argentino neste final de semana, com os primeiros jogos desde o adeus a Maradona, contou com uma partida bastante simbólica à história de Diego. Boca Juniors e Newell’s Old Boys se enfrentaram na Bombonera. Obviamente, a emoção tomaria conta do ambiente, assim como os dois clubes preparariam uma série de homenagens ao ídolo. Os gestos mais bonitos aconteceram em direção ao camarote de Maradona no estádio, onde esteve presente Dalma, sua filha mais velha. Um carinho a Diego, através de uma das pessoas que representam melhor o amor oferecido pelo craque ao longo de sua vida.

As arquibancadas da Bombonera foram adornadas para Maradona. “O povo não se esquece de quem o fez feliz. Obrigado, Diego”, dizia uma faixa. Além disso, vários bandeirões foram estendidos ao redor das tribunas para relembrar o gênio. As principais imagens de Diego apareceram no setor onde ficam os camarotes, próximas de seu lugar cativo. Antes da partida, torcedores do Boca se reuniram no tradicional ponto de encontro nas proximidades do estádio, cantando músicas dedicadas a Diego.

O Boca Juniors vestiu uma camisa com o nome de Maradona às costas, além de uma imagem do craque sobre o peito. O Newell’s levou a campo a camisa 10 dos tempos em que Diego atuou no clube, trazida por Maxi Rodríguez. Técnico xeneize e ex-companheiro do Diez nos tempos de seleção, Miguel Ángel Russo usava a camisa do clube e uma braçadeira negra. Já a ausência sentida era de Carlos Tevez. Segundo o Olé, o capitão foi poupado, muito abalado pela morte do ídolo e também cuidando da saúde de seu pai, em estado delicado.

Durante a entrada dos times, o telão do estádio trouxe uma imagem de Maradona. As duas equipes vestiam camisetas estilizadas da seleção, com o 10 nas costas e uma ilustração com a imagem de Diego na frente, parte das ações que acontecem em todos os jogos da primeira divisão. Além disso, um quadro com a imagem do gênio na Copa de 1986 seria levado ao centro do gramado. No círculo central, uma enorme fotografia do rosto de Maradona cobria o campo, com as cores boquenses.

O minuto de silêncio foi transformado em minuto de aplausos, com os jogadores das duas equipes reunidos ao redor da imagem de Maradona no círculo central. Neste momento, um balão tomou os céus no formato de bola, carregando uma pipa (barrilete) com as cores da seleção e o número 10. Nos alto-falantes, soava a música “La mano de Dios”, dedicada à lenda. Já a bola introduzida no jogo era do mesmo modelo com a qual Maradona conquistou o Metropolitano de 1981, seu único título pelo Boca Juniors.

O Boca venceu a partida por 2 a 0, em dois tentos dignos de Maradona. O primeiro gol saiu aos 12 minutos, com Edwin Cardona cobrando uma falta no canto do goleiro. Durante a comemoração, os jogadores xeneizes se reuniram diante do camarote, estenderam a camisa 10 da seleção no gramado e aplaudiram Dalma, que estava acompanhada por seu marido. A filha de Diego, visivelmente esgotada pelos últimos dias, foi às lágrimas. Cardona ampliou o placar oito minutos depois, com outra pintura, deixando um marcador no chão e finalizando por entre as pernas do goleiro. Na celebração, apontou aos céus e à imagem de Maradona que carregava no peito.

Durante o intervalo, o Boca Juniors repetiu o gesto de apagar todas as luzes do estádio, exceto a do camarote de Maradona, que iluminava o restante do ambiente. Ao final da partida, os jogadores voltaram a aplaudir Dalma. “Foi uma partida muito difícil de dirigir, sabia que ia ser custoso. Mas a melhor homenagem para Diego era que o Boca jogasse bem e ganhasse. Era a única maneira. Foram dias difíceis para nós, para o Boca. Vivemos situações adversas, mas hoje as evitamos. São partidas atípicas. A rodada do futebol argentino foi coberta por um manto do que foi Maradona como pessoa”, declarou Miguel Ángel Russo, depois do compromisso.

Os gestos a Maradona aconteceram durante toda a rodada, em outras partidas do Campeonato Argentino – que readequou seu calendário com uma copa, agora levando o nome de Diego. O final de semana também contou com um duelo entre rivais do craque, Rosario Central e River Plate. No círculo central do Gigante de Arroyito, durante o minuto de aplausos, os jogadores se posicionaram formando o número 10 no gramado. Marcelo Gallardo vestiu um agasalho celeste. Já o técnico dos canallas, o veterano Killy González, foi às lágrimas durante o tributo. Capitão millonario, Leo Ponzio usou uma braçadeira em referência a Maradona.

O Lanús criou um vídeo especial do craque e exibiu a camisa 10 grená com seu nome, relembrando o carinho oferecido por Maradona ao clube, por ter nascido em um hospital da região. O Racing tocou a música ‘Life is Life’ nos alto-falantes do Cilindro, rememorando o lendário aquecimento de Maradona. O Independiente exibiu uma camisa 10 com o nome do gênio em sua tradicional saudação e, durante o cara ou coroa, o capitão Silvio Romero escolheu a face que não tinha o símbolo da Fifa “porque Diego não gostava dela”. O Huracán deixou no gramado o trono oferecido a Maradona em sua visita como treinador do Gimnasia de La Plata. Já o Banfield tocou nos alto-falantes de seu estádio a narração do fantástico gol contra a Inglaterra, no consagrado relato de Víctor Hugo Morales sobre o ‘barrilete cósmico’.

Ainda assim, uma emoção especial aconteceria no Vélez Sarsfield e Gimnasia de La Plata. Os jogadores comandados por Maradona no último ano foram os mais tocados pelo minuto de silêncio – em especial o meio-campista Víctor Ayala, aos prantos. O Gimnasia vestiu uma camisa preta, em luto, com o rosto de Maradona sobre o peito. Lucas Licht usou chuteiras dadas por Maradona, enquanto Lucas Barrios vestiu uma camisa da seleção argentina autografada pelo ex-técnico. Já o goleiro Jorge Braun pintou o cabelo com uma mecha loira, referência ao penteado de Diego em seus tempos de Boca Juniors. No círculo central do Fortín, as duas equipes soltaram balões brancos.

O Gimnasia venceu a partida por 1 a 0, gol de Maximiliano Coronel com assistência de Víctor Ayala. A equipe soma oito pontos neste início de Copa Diego Armando Maradona e ocupa a zona de classificação, na segunda posição de sua chave. Nos vestiários, houve uma grande festa dos jogadores, cantando a música ‘La Mano de Dios’. Uma celebração digna daquelas feitas por Diego. A rodada continua nesta segunda, incluindo o compromisso do Argentinos Juniors, onde Maradona começou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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