Argentina

Ortega e o próximo raiar do sol

Em Núñez, parecia ser apenas mais uma quinta-feira. Mais calma, talvez. Não chovia como no dia anterior. A tormenta, porém, ainda estava por lá. Juan José López trataria de desvelá-la. Não carregava a cara de Mickey, tampouco de Pateta. As lembranças da viagem para a Orlando, para a Disney se restringiam apenas ao seu novo visual, um rasta forjado nos States e com o qual se apresentava naquela manhã. Atrasado mais uma vez. Coisa de um dia.

O suficiente, no entanto, para que Negro López tomasse uma decisão que o deixará marcado nos livros de história do River Plate. Num capítulo em que terá a companhia de gente como Diego Simeone, Leonardo Astrada, Daniel Passarella. Este, agora na posição de cartola, ainda tentará ser demovido daquilo que, nesta altura, já parece irreversível. Ariel Ortega, último grande ídolo millonario, viveu ontem o seu derradeiro dia como jogador do clube.

Retornará a Núñez. Muito provavelmente apenas para acertar a papelada e buscar suas coisas. Bancado por Passarella, Jota Jota López, que se auto-proclama soldado do presidente, não deverá voltar a vê-lo por lá. É o fim das caminhadas do jogador sob aquele sol que por tantas vezes tornou suas manhãs mais indigestas.

Ele parecia curti-lo nesta quinta. Como se soubesse que aquela poderia ser a sua última vez. Chegara cedo ao treino, algo em torno de 7 e 20 da manhã, tomava um mate com os roupeiros para em seguida se vestir e ir a campo. Ali, algum tempo depois, encontraria o treinador e suas palavras firmes, incontornáveis. Era diferente. Pediu uma chance. Não queria deixar o River. No passado, já quis. Sentia-se perseguido, vigiado por todos os cantos, em todas as suas ações. Acreditava não ter mais idade para aquilo. Não faz tanto tempo assim. Dois anos apenas. Não teve jeito.

Um menino. Ainda que seu rosto negue, sempre foi assim. Um menino com alguns problemas sérios, de gente grande. Virou exemplo para muitos. Na Argentina, no Brasil, não importa o lugar. Para o bem e para o mal, fez a diferença. Ontem, após um incômodo gerado pelo fast-food acumulado da viagem, dizia sentir-se como um fenômeno, duvidava de qualquer punição. Alguém que confiava demais, talvez. Nas pessoas e também em seu futebol.

Dessas, esperava sempre mais, maior compreensão, mais carinho, proteção. Não dá pra dizer que não teve nada disso. Teve. Do futebol, também. Ainda que seja impossível negar, poderia ter chegado mais longe. Mais um a cumprir a triste sina dos herdeiros de Maradona. Daquele 1991 até 1996, passando pela conquistas dos Aperturas, dos Clausuras, da Libertadores, parecia no caminho certo. Até que veio a Europa, a sombra de Verón por onde pisava, o Fenerbahce e o problema com as bebidas. A confiança, ainda assim, se manteve.

Sabia que, em casa, as pessoas o adoravam e poderia fazer a diferença. Nunca teve dúvida disso. Por diversas vezes, justificou decisões algo impensadas recorrendo a tal argumentação. Coisa pequena, de quem nem sempre pensou tão bem com a cabeça como pensava com as pernas. Exímio driblador? Considerando o que se vê por aí, não. Um tanto previsível, embora nem sempre “atingível”, ressaltarão os zagueiros. Jogava para a direita para puxar com a esquerda e dali escapar. Não é uma arte que os argentinos dominem com perfeição. D’Alessandro e seu elástico pra dentro podem corroborar. Não são tão afeitos a muita firula.

Mesmo assim, Ortega parecia carregar algo diferente, capaz de cativar, inclusive, os rivais. Não se sabe bem o quê. Talvez a coragem. Que tanto lhe falta para encarar aquele que se desenha como o próximo grande desafio de sua vida. Onde quer que o sol venha a raiar.

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Equipe Trivela

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