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O preço da saudade e as razões que levam Tevez a trocar o Boca pela China

Quanto custa a saudade? É algo difícil de mensurar. Sentir saudade de um lugar, de pessoas e até de um tempo que já passou é uma sensação que nos permeia em alguns momentos da vida. Carlos Tevez sempre teve saudade da Argentina, do seu bairro em Buenos Aires, Apache, desde que deixou o Boca Juniors pela primeira vez, em 2005. O Brasil era logo ali, mas a saudade bateu. O acompanhou em Londres, no West Ham, em Manchester, nos rivais United e City, e em Turim, na Juventus.

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A volta em 2015 para o clube do coração era, em tese, para acabar com a saudade. Aos 31 anos, parecia ser o seu último clube. Um ano e meio depois, ele deixa o Boca rumo à China. Abre mão do seu bairro, da sua gente, do seu clube. Quanto custa sentir saudade de tudo isso? Para Tevez, € 38 milhões por ano. É o salário do astro no Shanghai Shenhua, que o contratou por um valor astronômico: € 84 milhões, segundo o Guardian.

Foi só o dinheiro que levou Tevez à China? Não, seria simplista dizer isso. Há mais motivos, dentro e fora de campo. A situação de quando Tevez chegou, em julho de 2015, vindo de uma temporada como destaque na Europa com o vice europeu com a Juventus, para este dezembro de 2016, a situação se tornou totalmente diferente.

Tevez se tornou o centro de tudo ao chegar ao Boca, naquele julho de 2015. Os 40 mil que o recepcionaram na Bombonera viram o ídolo voltar para casa ainda com alguns bons anos pela frente na carreira. O presidente, Daniel Angeleci, precisava se reeleger. Fez todas as vontades de Tevez. Algumas que foram positivas para o clube, como a melhora dos equipamentos de treinamento para ter um CT à altura do clube mais vencedor da América do Sul. O técnico era Vasco Arruabarrena. A preparação física do time foi aprender em Turim como era feito por lá para reproduzir o que fosse necessário para Tevez ter o seu melhor na Argentina.

A reeleição de Angeleci e a saída do técnico Arruabarrena mudaram a relação de Tevez com o Boca. Carlitos queria Jorge Sampaoli para o lugar do antigo treinador. Não veio. O argentino, ex-técnico da seleção chilena, foi para o Sevilla. Chegou Guilhermo Barros Schelotto, um antigo ídolo do clube. Sem um centroavante, Tevez elogiou publicamente Ramón Wanchope Ábila, que deixou o Huracán, mas vestiu outra camisa azul: a do Cruzeiro no Brasil. Era uma queda de braço entre Tevez, um jogador, e a diretoria do Boca. Ele, insatisfeito com a diretoria. A diretoria insatisfeita com ele.

Não quer dizer que em campo ele não teve sucesso. Não jogou aquele futebol do seu último ano na Juventus, mas ganhou títulos: o Campeonato Argentino de transição de 30 clubes, no segundo semestre de 2015, e a Copa Argentina no mesmo ano. Na Libertadores, o sucesso não foi o mesmo. O time ficou fora da Copa Libertadores de 2017. Em campo, o time teve alguns grandes momentos, como a virada sobre o River Plate em pleno Monumental de Núñez com atuação magnífica do camisa 10. O time briga pela liderança do atual Campeonato Argentino.

“As últimas partidas foram brilhantes, mas este é o melhor que podia fazer. Agora o Boca se esquecerá de Tevez e vai ser realmente uma equipe”, disse uma fonte do vestiário do Boca Juniors ao jornal argentino La Nación.

O questionamento sobre a liderança de Tevez e o seu papel no elenco se tornaram constantes. Internamente, o ambiente piorou. Para encaixar Tevez, o esquema tático era o 4-2-3-1, para ter Tevez centralizado, participando muito do jogo. Sem ele, o time deve mudar: vai para um 4-3-3, com um meio-campo mais consistente e um ataque mais veloz.

Foram 17 meses e 11 dias de retorno de Tevez ao Boca Juniors. Certamente não era o que os torcedores, dirigentes e nem ele mesmo imaginavam quando foi ovacionado pelos 40 mil na Bombonera. Com tudo isso, a saudade de casa, que não tinha preço, passou a ter. Os € 38 milhões de salário por ano se tornaram irresistíveis. E é bom dizer: não só para Tevez, mas para o Boca. O clube certamente fica satisfeito com a bolada que recebe e passa a não ter um rei no seu elenco. A sensação parece ser que esta foi a melhor solução para todos os envolvidos.

Assista ao vídeo de despedida preparado pelo Boca Juniors para Tevez, #HastaProntoCarlitos:

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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