Argentina

O político de ouro

Soa até engraçado. Para a eleição do novo técnico da Argentina, Grondona e Bilardo recorreram à formação de um comitê composto por outros cincos cartolas. Todos eles vindos dos seguintes clubes: Colón, Godoy Cruz, Argentinos, Arsenal, Boca e River. Algumas piadas surgiram a partir daí. Coisas do tipo: “nem metade deles apontaria Sergio Batista para o comando dos seus clubes”.

É, mas não passou disso. Já estava na cara. Checho acabou mesmo sendo o escolhido para liderar a seleção até a Copa de 2014. Uma vitória do político de ouro, diriam seus adversários. Alguém que, em seus meses de interino, fez de tudo para agradar os superiores e também os atletas, além de revelar como grande carta de apresentação a medalha conquistada nos Jogos de Pequim, em 2008.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Batista conservou a posição de técnico dos juniores, atuou por trás das cortinas e conseguiu o que queria. Das principais figuras na transição após o fim da era Pekerman, carrega uma imagem algo ilusória – provocada, sobretudo, pelo desempenho nas Olimpíadas – de ser o homem certo para conduzir a tal renovação que o país urge por ver colocada em prática. Bom, que não se animem muito, ela pode demora a chegar.

O treinador nunca foi um cara da base. Chegou lá impulsionado pela baboseira da geração 86 que tão retumbamente fracassou em Ezeiza. Batista quer saber mesmo da Copa América, a ser disputada dentro de casa, no ano que vem. Assinou com a Afa até 2014, mas tem consciência de que sua sequência no cargo depende muito do resultado no torneio, de tantas decepções recentes para o time. Por conta disso, já deu o recado, que não esperem mudanças súbitas no grupo que vinha sendo convocado após o Mundial e que se assemelha bastante àquele de Maradona – com a diferença marcada pelo retorno de gente que já não é tão nova assim como Cambiasso e Zanetti, alijados por Dieguito.

De alguma forma, pode-se dizer que Batista, o político de ouro, segue numa condição interina mental. Talvez se apóie num pensamento que tanto temia, mas que agora pode lhe ser favorável, vindo de seu chefe, Carlos Bilardo. Vez por outra, Salvador, o carente (reler colunas anteriores), sustentava seu jogo de paciência na eleição do futuro do país citando o seu próprio caso, de alguém que, em dois anos, conseguiu fazer da Argentina bicampeã mundial.

Checho não precisa esperar tanto tempo assim. Apenas mais alguns meses, até a Copa América. Até lá, ainda veremos gente como Pareja e Biglia sendo chamada para o time principal. Coisas difíceis de entender e que nem de longe sugerem uma renovação em andamento – sobretudo, quando se tem um Burrito Martínez da vida, por exemplo, pedindo passagem.

Mas tenho fé de que os Burritos e outras espécies terão a sua oportunidade. Batista já anunciou que pretende levar adiante a ideia dos selecionados locais. Mais do que isso: em entrevista, citou nomes de jovens com potencial para chegar até o time de cima. Representa algum alento, ainda que não seja nada além do que já se esperaria de um profissional que veio das camadas de baixo.

Melhor não reclamar muito, no entanto. Mais do que a renovação, o técnico tem um objetivo claro nesse desafio. Recuperar a mística argentina, buscar a identidade perdida. Apontam a Espanha como caminho. Ele esnoba. Não acha que precisa se mover até a Europa para tanto. Sabe que a Argentina tem vida própria. E nisso, por mais restrições que tenha em relação a seu nome, está certo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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