Argentina

O lado mais íntimo sobre Messi: uma conversa sobre sua infância, sua identidade, sua construção como jogador

Ao Olé, Messi falou sobre a trajetória como atleta e como pessoa até chegar ao topo

O diário Olé completou 25 anos e, para comemorar suas Bodas de Prata, preparou uma entrevista especial com Lionel Messi. A conversa, entretanto, passou longe de sua permanência no Barcelona ou do fracasso do clube ao final de La Liga. O assunto principal foi a vida de Messi: sua relação com o futebol desde a infância, sua vida em família, os gostos além da bola, a ligação com a Argentina. Um papo leve que serve para apresentar um pouco mais o craque, indo além de suas mágicas dentro de campo e da incerteza sobre seu futuro.

Abaixo, destacamos alguns dos principais pontos. A conversa completa pode ser conferida neste link.

A relação antiga com a bola

“Eu me lembro que desde os quatro ou cinco anos eu já andava com a bola, desde que comecei a caminhar. Eu me lembro das minhas primeiras partidas em campo. Tenho irmãos mais velhos, primos mais velhos e sempre nos juntávamos para jogar. Da primeira bola exatamente eu não me lembro, mas desde muito pequeno andava com a bola e aos quatro anos comecei no clube, estava na rua o tempo todo”.

A insistência da avó

“Eu estava jogando com um dos meus irmãos ou primos, que são de diferentes idades e categorias. Jogava com os nascidos em 1986 ou alguma categoria mais velha. Faltava um menino e minha avó começou a dizer para o técnico, que ela já conhecia, para ‘colocar este’. ‘Não, olha como é pequeno, você está louca, vão fazer mal para ele’, e ela dizia para colocar. No fim eu entrei, fiz um par de coisas e a partir daí… Minha avó voltou e disse: ‘Compra as chuteiras, que na próxima semana o levo para treinar’. E aí começamos. Foi uma época espetacular porque a família ia sempre ao clube nos finais de semana, ficávamos todo o final de semana no clube. Foi uma época muito bonita da minha infância”.

A final de máscara

“Estava com 14 ou 15 anos. Num fim de semana, numa partida contra o Espanyol, me acertaram uma cotovelada e fraturei a maçã do rosto. No fim de semana seguinte jogávamos a final da Copa Catalunha e era um torneio importantíssimo. Puyol tinha passado o mesmo e tinha jogado com uma máscara. Então, pediram para que eu também jogasse de máscara. Treinei algumas vezes assim, mas quando comecei a jogar era impossível, ficava grande no meu rosto, se mexia demais. Tirei na hora. Joguei bem, fiz dois gols e ganhamos por 3 a 0. E me substituíram aos 30 minutos. Meu pai estava gritando para que eu não jogasse sem máscara, que me tirassem e no fim fizeram isso. Mas eu não me dava conta do perigo, queria jogar como fosse. A máscara me atrapalhava, abaixava a cabeça e não via a bola, tirei e segui jogando”.

O tratamento que fez para seu crescimento

“O tratamento não foi só pelo futebol, mas era algo que ia me servir para a vida. Nesse sentido, sou muito responsável. Quando tenho que fazer algo, quando me proponho algo, tento levar ao máximo, para conseguir e lutar pelo que quero. […] São coisas que tinha que fazer e nesse sentido nunca tive nenhum problema. Eu cuidava das injeções e era responsável com cada coisa que precisava fazer”.

A mudança para Barcelona

“Bom, a verdade é que tomar essa decisão foi difícil, mas ao mesmo tempo foi rápido. Eu nem hesitei, sem pensar. Por ali não entendia bem o que significava deixar meu país, meu povo, meus amigos e começar outra vida em outro lugar, tão longe. E no começo foi difícil. Foi difícil porque quando eu cheguei não pude jogar por causa de uma questão de documentação, aí eu comecei e me machuquei. Fiquei quase um ano sem poder competir. Eu só treinei, o que não era a mesma coisa. E aí eu tive sorte que a partir de então foi tudo muito rápido. Eu estava avançando muito rápido, subia e jogava com meninos mais velhos. E cada vez que eu via que estava mais perto, que era possível, aí me dava vontade de ficar mais aqui, de tentar, de continuar lutando. Tive muita sorte porque, apesar das dificuldades, tudo aconteceu muito rápido”.

As voltas para Rosario

“Eu estava sempre chorando, não queria ficar, mas ao mesmo tempo queria. Eu queria vir aqui para o Barcelona para continuar jogando, mas ao mesmo tempo era difícil deixar tudo que eu tinha lá em Rosário. Eu sabia que levaria seis meses para estar lá novamente, para compartilhar todas aquelas coisa. Perdi muitos amigos, a comunicação era muito difícil. Hoje qualquer menino de 13 ou 14 anos anda com um telefone e naquela época não acontecia. E na Argentina era muito difícil. Você vai perdendo tudo isso, deixei de falar com muita gente”.

Os amigos de infância

“Eu tenho alguns amigos da vizinhança com quem pude manter um contato. Estão no dia a dia. Do futebol também. Tenho alguns amigos que conheci quando criança, com outros retomei o contato e falei novamente depois de muitos anos. Também é bom reencontrar pessoas depois de tanto tempo. Minha infância na Argentina foi espetacular. Foi outra época também, vivíamos diferente. O menino da Argentina também vivia de forma diferente, diferente do que acontece hoje. E a verdade é que aproveitei muito”.

A relação com as dificuldades do cotidiano na Argentina e na Espanha

“Obviamente fico mal quando sei dos problemas das pessoas, mais ainda quando são gente que você ama e são amigos. Não gosto do que acontece não só com meus amigos, mas em toda parte. Há muita pobreza, principalmente nós que viemos de um país onde há muitas pessoas passando por momentos difíceis. Eu vi, vi de perto, eu sei, eu sei do que se trata, não é que eu sempre estive na posição que estou hoje. Mas sempre é difícil dar uma opinião deste lado porque as pessoas podem dizer, ou alguém vai dizer: ‘Você fala, claro, porque você não sabe o que é’, não é fácil. E eu sei, estou ciente de tudo o que acontece tanto na Argentina quanto na Espanha, que é o país onde moro, e não gosto do que vejo. E eu sofro. Assim como as pessoas sofrem. Mas o que eu digo a vocês, eu tenho que falar de outra posição e é mais difícil dar uma opinião nessa posição”.

A relação com a Argentina

“Por mais que tenha vindo para a Espanha tão novo, não deixei a Argentina tampouco. Sempre o que me passava estava relacionado com a Argentina, minha família e amigos sempre estiveram lá. Não sei explicar o que mais gosto. Adoro ir a Rosário, estar com minha gente. Por ali reencontro amigos, família, como churrasco com eles, fico junto. Não sei, talvez o fato de sair tão jovem e não ter desfrutado de tudo como gostaria, do país ou dos meus amigos, me dê vontade de voltar, querer estar lá. Também é verdade que cada vez que vou é muito pouco tempo e passa muito rápido”.

O carinho das pessoas

“Digo sempre o mesmo às pessoas, agradeço a forma como sempre me trataram, sei que o argentino também me ama muito apesar de termos vivido muitos anos difíceis. Sei que estamos passando por um momento difícil, também por causa da questão do vírus, que atinge o mundo todo e está nos atingindo com força. Esperamos que possamos seguir em frente como sempre fazemos e que todos possamos continuar a construir nosso país juntos, e também em nível de Seleção”.

O espírito competitivo após ganhar a Copa do Rei

“Sempre que compito, compito para ganhar e tentar conseguir todos os objetivos. Conseguir títulos. A verdade é que a última Copa do Rei foi especial pelo momento em que estávamos também, o clube vem de um par de anos nos quais fomos mal por diferentes resultados e competições perdidas. É um vestiário muito jovem, com muita gente nova e a Copa do Rei para o vestiário foi um ponto de inflexão muito importante. Além disso, gosto de ganhar títulos. Quanto mais, melhor”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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