Argentina

O futebol respira por causa de gols como o do acesso do Brown de Adrogué à segundona argentina

Problemas de corrupção na alta cúpula da Fifa, escândalos de manipulação de resultados em diferentes cantos do mundo, atletas que largam clubes tradicionais em que são idolatrados para fazer um pé de meia em times sem tradição alguma… Os motivos são diversos para perdermos parte da empolgação com o futebol, mas eles nunca conseguem triunfar. Não conseguem porque frequentemente o futebol respira firme, pulsa de maneira pura em algum rincão do planeta; o esporte transforma a vida de alguém; uma narrativa incrível, quase coisa de ficção, é escrita a partir do que acontece dentro de um espaço delimitado por quatro linhas. O gol do acesso do Brown de Adrogué à segunda divisão argentina e do título da terceirona se encaixa nesta última categoria.

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O time da província de Buenos Aires chegou à última rodada da terceira divisão com 78 pontos, um a menos que o líder Estudiantes Caseros, que enfrentaria o Defensores de Belgrano, terceiro colocado e que também tinha 78 pontos. Ao fim da fase de pontos corridos, apenas o campeão da terceira divisão argentina tem acesso garantido à segundona, portanto a motivação para o Brown era extra. Se ficasse apenas no empate com o Deportivo Morón, veria a chance do título escapar e ainda teria que passar por uma repescagem, em que os times entre a segunda e a nona colocações se enfrentam para definir as quatro equipes restantes a subir.

O duelo entre Estudiantes Caseros e Defensores de Belgrano, uma espécie de final – já que quem vencesse ficaria com o título –, não saiu do zero, e o próprio Brown de Adrogué empatava em 1 a 1 com o Deportivo Morón, indo apenas a 79 pontos, ficando na segunda colocação e vendo o Estudiantes Caseros ficar com a taça. Até que, aos 49 minutos do segundo tempo, no último lance da partida, Guillermo Sanchez cobrou escanteio, um jogador do Brown subiu de cabeça, e Juan Manuel García, esperto na segunda trave, completou para fazer o gol da vitória: 2 a 1.

A vibração de García, a explosão nas arquibancadas, a correria de jogadores e comissão técnica em campo e o grito ensandecido da narração argentina após o gol no último suspiro, que reviveu um time que parecia já fadado a ver outra equipe campeã, é uma pequena demonstração do que se trata o futebol. A feliz coincidência de que o autor do gol do título fosse aniversariante no dia e começara a partida no banco de reservas, frustrado com a decisão do treinador, apenas acrescenta elementos para tornar o lance derradeiro tão memorável.

Este foi apenas o segundo título do pequeno Brown de Adrogué em sua história, que começou em 1945. A primeira conquista, a Primera D de 1980, já completou 35 anos. Uma geração inteira de torcedores devotos a um time apenas acostumado às divisões inferiores nacionais viu na cabeçada de Juan Manuel García a primeira oportunidade de gritar “campeão”.

Essa tentativa de descrever o significado do lance aos 49 minutos do segundo tempo nunca apreenderá o momento em sua totalidade. O máximo que podemos fazer é nos lembrar das comemorações daquele gol tardio, daquela vitória sofrida, daquele título inimaginável, daquela reviravolta em que talvez nem os próprios jogadores envolvidos imaginavam. Isso nos aproxima mais da festa do Brown. Ver o emocionante vídeo abaixo também ajuda.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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