Argentina

O eterno inverno do Boca

Qualquer que fosse a circunstância, o resultado surpreenderia. Estreia do Boca no Torneio Clausura e, em plena La Bombonera, goleada de 4 a 1 para o Godoy Cruz. Tempos de inverno, brincava o diário Olé no dia seguinte – a manchete era bem essa ou algo parecido. Referência, clara, a uma mudança de estação, por assim dizer, na vida do time xeneize.

No verão, nos chamados torneios de verão, cabe lembrar, o Boca havia se saído muito bem, conquistando dois títulos e deixando um gostinho de que poderia, enfim, deslanchar. Era a equipe da moda, a que melhor futebol apresentava. Mas, cabe lembrar, ali não estavam alguns históricos, caso de Riquelme, Battaglia e ainda o principal reforço do clube, Walter Erviti, roubado do Banfield após uma longa briga. Pedido do novo técnico, Julio César Falcioni.

Há algum tempo já, o Boca parece viver nesse eterno inverno. Claro, vez ou outra, o tempo abre. Mas isso anda cada vez mais raro – não surpreende, portanto, a ausência do time na Libertadores desta temporada. A impressão que se tem, e isso é algo mais pessoal, é a de que, com Riquelme, o Boca está sempre no inverno.

Algo reforçado seja pelo estilo do jogador, em campo ou fora dele, mais frio, avesso à badalação, aos jornalistas, indiferente a tudo e a todos. E aí, não seria exagero afirmar, também à instituição boquense. Nos últimos dois anos, jogou praticamente metade dos jogos da equipe – 44 em 84. Não consegue mais fazer a diferença como antes e, se diz estar 100%, como afirmou recentemente, é sinal de que a coisa é mais preocupante do que se imaginava. Porque o futebol, aquele futebol de outros anos, bem, esse anda distante.

É quase que um consenso na Argentina, abraçado por Falcioni já nesse início de trabalho seu com o clube. Durou apenas dois jogos a paciência do treinador com o camisa 10. Para a partida contra o All Boys, no fim de semana, Riquelme foi deixado de fora, inclusive, do banco de reservas. Numa decisão que, como tudo que envolve o meia, gerou o maior burburinho. Corajosa, mas que, acreditam, põe em risco a passagem do ex-comandante do Banfield pela Bombonera.

Ele parece não se importar. Quer fazer valer o apelido de Imperador, o desafio que lhe foi imposto, o maior de sua carreira, e o esforço feito pelos dirigentes para, assim como no caso de Erviti, buscá-lo no Banfield. Esses mesmos cartolas veem Riquelme como uma espécie de dono do clube. Não assumem, mas veem. Caso contrário, não teriam renovado com o jogador em junho passado nas condições em que renovaram – por US$ 5 milhões em quatro anos, num negócio em que, segundo comentários da época, só faltou entregar ao veterano a chave da Bombonera.

Esses tempos ainda persistem por lá. Há quem tente ir contra eles, caso de Falcioni, satisfeito com o desempenho do time no verão, com uma formação tática avessa e que não contava com Roman – posteriormente, o armador viria a afirmar que a equipe poderia crescer ainda mais com ele. Não é bem isso que vem acontecendo, Falcioni tem consciência. Um sonhador, alguém que ainda se encontra embalado pelos sonhos de verão? Só o tempo dirá. Não se trata, porém, do maior admirador do inverno, está claro.  

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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