O ano em que Racing e Boca Juniors fizeram cinco duelos por competições continentais

Boca Juniors e Racing iniciam nesta quarta-feira o confronto direto por uma vaga nas semifinais da Copa Libertadores. Os gigantes argentinos possuem alguns grandes duelos no passado e ídolos em comum, mas nunca haviam se encontrado num mata-mata da competição. Ainda assim, dá para dizer que o ano de 1989 está na memória dos torcedores, pela maneira como reuniu jogos de relevo entre racinguistas e boquenses além das fronteiras. Os dois times se encararam primeiro na fase de grupos da Libertadores, precisando realizar até um jogo-desempate para definir quem passava na primeira colocação. Meses depois, ainda se pegaram pelas quartas de final da antiga Supercopa – que reunia os antigos campeões da Libertadores. Houve uma passagem de bastão, com o então campeão Racing sendo eliminado pelo Boca, que ficaria com a taça na segunda edição do torneio.
Não era o momento mais abastado em Avellaneda ou La Boca, cabe dizer. O Racing tinha acabado de voltar da segunda divisão e passava por um período de reconstrução. A conquista da Supercopa em 1988 teve grande importância neste processo, em temporada na qual os albicelestes também terminaram na terceira colocação do Campeonato Argentino. Já a vaga na Libertadores veio através da primeira posição no Apertura de 1988/89, em tempos nos quais a metade da competição não dava o título de campeão. Era o retorno da Academia ao torneio continental após um hiato de 21 anos, desde 1968.
O Boca Juniors, por sua vez, atravessava um período de seca desde 1981. Os xeneizes enfrentavam uma crise financeira e isso se refletia em elencos pouco competitivos. Tanto é que um dos símbolos neste período de baixa aconteceu justamente contra o Racing, em goleada por 6 a 0 aplicada por La Academia em 1987. A recuperação começava a se desenhar justamente naquela virada de década, e o segundo lugar no Apertura de 1988/89 levou os boquenses à Libertadores. A Supercopa, além do mais, teria uma representatividade grande na Bombonera por retomar as glórias ao clube.
Em tempos nos quais os clubes do mesmo país figuravam no mesmo grupo durante a primeira fase da Libertadores, Boca Juniors e Racing compunham a chave onde também apareciam Universitario e Sporting Cristal. O primeiro duelo entre argentinos aconteceu durante a primeira rodada. Não passariam do empate por 0 a 0 no Monumental de Núñez – onde aconteceriam os dois duelos. Dirigido por José Omar Pastoriza, campeão continental à frente do Independiente, o Boca tinha entre seus jogadores nomes como Navarro Montoya, José Luis Cucciuffo, Juan Simon, Jorge Coman e um jovem Diego Latorre. Já o Racing estava sob a batuta de Alfio Basile, membro da geração mais vitoriosa do clube nos tempos de jogador e responsável pela recuperação como técnico. Ubaldo Fillol, Julio Olarticoechea, Néstor Fabbri, Rubén Paz e Ramón Medina Bello eram figuras importantes entre os albicelestes.
As viagens ao Peru não foram tão fáceis a Boca Juniors e Racing. Os xeneizes perderam seus dois jogos, enquanto os racinguistas também sucumbiram ao Universitario e derrotaram apenas o Sporting Cristal. Por isso mesmo, o reencontro pela quarta rodada se tornaria importante, com uma vitória podendo ser decisiva à classificação. O Boca deu a volta por cima, saindo do Monumental com o triunfo por 3 a 2. Jorge Comas anotou os dois primeiros gols boquenses em dez minutos. Aproveitou uma bobeira da zaga no primeiro e fez fila no segundo. Na volta ao segundo tempo, Rubén Paz liderou a reação da Academia. O uruguaio deu o passe para Medina Bello descontar e empatou com um golaço cobrando falta. Porém, a reação do Boca não tardaria. Aos 20, Carlos Tapia pegaria em cheio a sobra de um escanteio e daria o triunfo aos boquenses.
No fim das contas, Boca e Racing venceram todos os jogos contra os peruanos na Argentina. As duas equipes terminaram igualadas com sete pontos e, por isso, precisaram disputar um jogo extra para ver quem ficaria com a primeira colocação – mesmo com ambos classificados. O Boca provou-se melhor e ganhou de novo, agora por 3 a 1. Latorre marcou um lindo gol de fora da área, mas o nome da noite foi Luis Abramovich, que fez o segundo e sofreu o pênalti ao terceiro, convertido por Ivar Stafuza. Do lado racinguista, Ortega Sánchez descontou.
O Racing cruzaria com o Atlético Nacional nas oitavas e seria eliminado. Os racinguistas perderam por 2 a 0 em Medellín, tornando os 2 a 1 da Argentina insuficientes. Já o Boca Juniors caiu na mesma fase. Perdeu para o Olimpia em Assunção por 2 a 0 e, sem gol qualificado, forçou os pênaltis numa insana vitória por 5 a 3. Contudo, os xeneizes acabariam superados na marca da cal. Curiosamente, Atlético Nacional e Olimpia fizeram a decisão daquela Libertadores, com o triunfo dos colombianos nos penais. A consolação para racinguistas e boquenses ficaria mesmo à Supercopa no segundo semestre.
Por conta do número de times, Boca Juniors e Racing foram sorteados diretamente nas quartas de final da Supercopa. Os xeneizes tinham mudado de comando, agora dirigidos por Carlos Daniel Aimar, enquanto Coco Basile tinha rumado ao Vélez e foi substituído no banco albiceleste por Pedro Marchetta. E, mesmo com as trocas, os boquenses não perderiam a supremacia sobre os racinguistas naquele momento. O empate por 0 a 0 na primeira partida, dentro da Bombonera, parecia facilitar à Academia para o reencontro em Avellaneda. Todavia, o Boca conquistou a vitória por 2 a 1 em pleno Cilindro.
Logo aos cinco minutos, o Boca Juniors ganhou um pênalti a seu favor. O goleiro Alberto Vivalda derrubou Alfredo Graciani no limite da grande área e o árbitro apontou a marca da cal. José Daniel Ponce converteu. O Racing não demorou a reagir, com uma bola no travessão, até o empate de Fabbri aos 14, aproveitando uma bobeira da marcação após cobrança de falta. A partida seguia aberta e os dois goleiros tinham trabalho. Contudo, a vitória seria mesmo xeneize, graças a Cucciuffo. Depois de uma cobrança de escanteio, o camisa 3 emendou de cabeça às redes. O Boca seria campeão da Supercopa, eliminando o Grêmio na semifinal e levando a taça nos pênaltis, em decisão contra o Independiente.



