Argentina

Na semana em que perdeu a esposa para a COVID, Falcioni viveu uma emocionante cena na classificação do Independiente

Treinador do Independiente se despediu da esposa na quarta-feira e, no sábado, dirigiu o Rojo à classificação na Copa da Liga

Numa trajetória que se estende por quase 50 anos, Júlio César Falcioni viveu grandes momentos no futebol. Como goleiro, foi uma das principais figuras no América de Cali que perdeu três finais da Libertadores nos anos 1980. Como treinador, chegou a ser campeão nacional com o Banfield, além de dirigir o Boca Juniors na decisão continental de 2012. Porém, é a história de vida do “Imperador” que diz mais. Falcioni chegou a superar um câncer de laringe no fim de 2017 e nem assim se afastou da labuta, chegando a trabalhar com um megafone durante os jogos, por conta das limitações na voz. Já neste sábado, o veterano protagonizou um tocante episódio: na mesma semana em que perdeu a esposa para a COVID-19, ele comandou o Independiente rumo às semifinais da Copa da Liga Argentina. A classificação foi dramática, nos pênaltis, e ao final o treinador não conteve as lágrimas na comemoração. Uma cena forte, um dia antes da homenagem do gremista Ricardinho ao pai e ao avô, também vítimas da COVID-19, depois do Gre-Nal.

Durante o início da pandemia, Falcioni tinha sido importante para a paralisação do futebol na Argentina. O treinador se indignou publicamente, ao questionar a necessidade de seguir trabalhando diante do cenário de medo. “Sou um paciente de risco. Tive pneumonia, câncer, passei por quimioterapia. E, na sexta, precisei trabalhar igual. Saímos para jogar porque nos disseram que, se não fizéssemos isso, perderíamos os pontos”, apontou o técnico, em entrevista à TyC Sports. “O médico disse que eu não deveria estar treinando. E aqui estou. O secretário-geral dos técnicos eu não vejo por lugar nenhum. E quem os jogadores designaram para representá-los deve ouvir a opinião deles”.

O futebol voltou depois da pausa, as medidas de proteção não se mostram totalmente eficientes e Falcioni pegou COVID-19 no início de abril, em meio a uma série de casos no elenco do Independiente. Havia preocupação por conta do estado de saúde do treinador, mas ele teve apenas sintomas leves e se recuperou dentro de duas semanas. Palka Ada Adela, esposa de Falcioni, também foi infectada em abril. Enfrentando um câncer, ela não se recuperaria como o marido. A partir do fim de abril, Falcioni se ausentou das atividades do Independiente por algumas semanas, para acompanhar a companheira no hospital. Na última quarta-feira, no entanto, Palka faleceu em decorrência do coronavírus.

A notícia gerou grande comoção no futebol argentino e uma onda enorme de apoio a Falcioni. Os jogadores do Independiente chamavam o técnico de “exemplo de vida” e prometiam doar até a última gota de suor em campo. O treinador, porém, preferiu não guardar luto por tanto tempo e quis ocupar a mente com o trabalho. No sábado, estava à beira do campo para dirigir o Independiente contra o Estudiantes pelas quartas de final da Copa da Liga.

Segundo os relatos da imprensa argentina, Falcioni já deu uma emotiva preleção aos seus atletas antes que o duelo decisivo começasse. Já na entrada em campo, os jogadores do Estudiantes vieram cumprimentá-lo e também os árbitros, enquanto o abraço no treinador adversário (e seu amigo) Ricardo Zielinski provocou as primeiras lágrimas. O Independiente precisou lutar bastante durante os 90 minutos em La Plata, com uma expulsão injusta que deixou o time com um a menos ainda no início do segundo tempo. O empate por 0 a 0 prevaleceu e, na disputa por pênaltis, Sebastián Sosa pegou duas cobranças para garantir a vitória do clube de Avellaneda por 4 a 1.

Então, Falcioni vivenciou um momento bastante simbólico, ao olhar para os céus e erguer os braços durante a comemoração. Às lágrimas, o treinador era o mais festejado por seus colegas de comissão técnica. Se a decisão do Imperador em ir para o jogo já tinha emocionado muita gente, demonstrando sua força, o resultado tinha um simbolismo ainda mais forte diante de toda a dor. O semblante de Falcioni desfigurado pelo choro transmitia muito por si, e a classificação aumentava o significado de sua presença. No Twitter, sua filha Laila escreveu: “Estou orgulhosa de você”. Já o capitão Silvio Romero apontaria: “Julio tem colhões tremendos. Veio nos acompanhar, apesar do momento que está vivendo. Esta vitória é para ele, para suas filhas e para seus netos”.

O Independiente avança às semifinais da Copa da Liga Argentina, encarando o Colón. Há a chance até mesmo de uma final contra o Racing, que pegará o Boca Juniors na outra chave. Com ou sem o título, Falcioni será uma das grandes histórias. Mas fica também o questionamento sobre o protocolo do futebol, que em suas falhas coloca em risco seus personagens e seus familiares. Ainda em março, naquele jogo no início da pandemia contra o Gimnasia de La Plata, então dirigido por Diego Maradona, Falcioni chegou a declarar para o velho companheiro de seleção que o “futebol nos dá vida”. Mas também tem uma parte de sua vida que se foi com sua esposa e que o futebol, por mais força que ofereça, não vai recuperar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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