Argentina

Maxi Rodríguez se despede do futebol como símbolo da seleção, mas ainda maior por seu amor ao Newell’s

Decisivo em três Copas pela Argentina, Maxi Rodríguez voltou ao Newell's para cumprir seus sonhos no clube do coração e se eternizar como lenda

Ao grande público, a primeira lembrança será do gol arrebatador. O nome de Maxi Rodríguez, afinal, logo rememora um relâmpago que ganhou os céus da Alemanha em plena Copa do Mundo – seu golaço nas oitavas contra o México, que valeu a classificação na prorrogação. E a relação com a seleção argentina certamente oferece uma página brilhante na carreira do veterano, com três Mundiais, bem como a expressiva marca de 16 gols anotados em 57 partidas. Na semana em que La Fiera se despediu dos gramados, porém, é difícil vislumbrar alguém que tenha uma imagem tão verdadeira do ponta quanto o torcedor do Newell’s Old Boys – qualquer torcedor do Newell’s. A trajetória guardou seus altos e baixos, suas brigas. Ainda assim, a camisa 11 será sinônimo do prata da casa que voltou para viver alguns dos melhores anos de sua carreira junto aos seus. E que, aos 40 anos, pode descansar tranquilo, porque a história leprosa tratará de lembrá-lo para sempre.

Nascido em Rosario, Maxi Rodríguez absorveu a paixão pelo Newell’s Old Boys ainda no berço, filho de uma torcedora fanática que o levava para as arquibancadas numa prolífica época sob as ordens de Marcelo Bielsa. O menino cresceu nas categorias de base do Ñuls a partir dos oito anos e tornou-se um filho querido. Virou também uma esperança ao futuro, que estreou na equipe principal ainda com 18 anos, em novembro de 1999.

Maxi Rodríguez logo ganhou destaque com a camisa rubro-negra e transpassava uma certeza de que grandes sucessos atravessariam seu caminho. Não com o Newell’s neste primeiro momento, contudo. Foram apenas três temporadas da promessa pelos leprosos, quando já despontava pelas seleções menores. Um ano depois de conquistar o Mundial Sub-20 de 2001 ao lado de uma mítica geração treinada por José Pekerman, com direito a gol na final e tudo, o rosarino faria suas malas para atuar na Europa.

A carreira de Maxi Rodríguez por clubes europeus não é exatamente inesquecível, mas tem seus momentos importantes. Foi sua consolidação em alto nível, afinal, que abriu de vez as portas da seleção principal dirigida pelo velho mestre Pekerman. Emplacou como uma estrela do Espanyol, fez temporadas de destaque num Atlético de Madrid em reconstrução, teve seus brilhos num Liverpool que buscava seus rumos. Seriam dez temporadas de seu auge físico vividas na Europa, que manteriam uma relação próxima do ponta com as redes e também sustentariam seu nome em clubes tradicionais. Entretanto, era na seleção que Maxi virava maior.

Maxi Rodríguez, do Newell’s (Foto: Newell’s)

A primeira convocação aconteceu com Marcelo Bielsa, aquele que admirava nas arquibancadas do Coloso, mas que não chegou a levá-lo para as Olimpíadas de 2004. Maxi Rodríguez virou um jogador de confiança mesmo com Pekerman, que deu continuidade a ele nas convocações e também entre os titulares. O meia não tinha o renome de outros companheiros, mas quase sempre entregava tudo em campo, em dedicação e também talento. O encanto que o time provocou na Copa de 2006 se deve um bocado ao meio-campista, que dava agressividade pelo lado direito e contribuía decisivamente. Foram dois gols no passeio contra Sérvia e Montenegro, além daquela inesquecível pancada que evitou temores contra o México. Saiu como um dos personagens da Albiceleste no Mundial, mesmo com a derrota para a Alemanha nos pênaltis.

A Argentina passaria por trocas de comando, mas não perderia a segurança em Maxi Rodríguez, mesmo com lesões que atrapalharam seu momento por clubes – e que o tiraram da Copa América de 2007. Marcaria na estreia sob as ordens de Maradona e preservou a titularidade durante a Copa do Mundo de 2010. Seguiu como um nome importante da Albiceleste, embora impotente na goleada sofrida para a Alemanha nas quartas de final. A campanha brilhante do ponta na África do Sul seria reconhecida, ao menos, com sua eleição para o elenco ideal da competição. Apesar disso, e de seu melhor momento com a camisa do Liverpool, deixaria de ser convocado por Sergio Batista e não jogaria a Copa América em 2011.

Em 2011/12, Maxi Rodríguez virou reserva no Liverpool. Aos 31 anos, ainda assim, tinha um longo caminho em alto nível. E quando sua fama internacional poderia fazê-lo buscar outro destino na Europa, ele preferiu voltar para casa. Não era apenas que poderia contribuir ao Newell’s Old Boys, mas Maxi também via certa necessidade de resgatar o clube de seus amores. Os leprosos viviam um momento bastante ruim, ameaçados inclusive de rebaixamento. O ponta, então, rescindiu seu contrato com os Reds e retornou a Rosario sem custos. Iniciaria o renascimento do Ñuls.

Obviamente, Maxi Rodríguez não fez a transformação sozinho. Tata Martino também voltou para comandar o Newell’s, enquanto Gabriel Heinze e Ignacio Scocco eram outros antigos pratas da casa que retornavam aos leprosos. A alma dos rosarinos, de qualquer forma, estava transfigurada através do camisa 11. Maxi foi o líder e o craque que, em pouco tempo, renovou as alegrias no Parque Independência. O ano de 2013 seria mágico, com a conquista do Campeonato Argentino depois de nove anos e a campanha até as semifinais da Libertadores. O NOB apresentava um futebol condizente à empolgação, com muita qualidade dentro de campo. Na ponta esquerda, um ídolo se confirmava como razão daqueles antigos sonhos.

As conquistas do Newell’s não se ampliariam. Mas não cessariam os momentos de destaque e os gols de Maxi Rodríguez. Não à toa, ele retornou à seleção argentina sob as ordens de Alejandro Sabella. Teria boas atuações nas Eliminatórias e chegou à Copa de 2014 até com o status de titular. Acabaria perdendo espaço para que Lucas Biglia desse mais equilíbrio ao time, mas esteve em campo durante duas partidas daquele Mundial, incluindo a semifinal contra a Holanda. Converteu o pênalti que colocou a Albiceleste na final do Maracanã, ainda que não tenha saído do banco em nova frustração diante da Alemanha.

Mesmo sendo um velho conhecido de Tata Martino, aos 33 anos, Maxi Rodríguez logo deixaria as convocações da seleção após a Copa. Sua carreira se concentraria no Newell’s, onde continuava rendendo em altíssimo nível. No segundo semestre de 2014, por exemplo, terminou o Campeonato Argentino como um dos artilheiros. Entretanto, com a adoração também veio o desgaste. La Fiera também teria seus embates com os barras. A casa dos avós de Maxi, fundamentais em sua criação na ausência do pai, chegou a ser pichada e alvejada por tiros às vésperas de um clássico contra o Rosario Central. Como nome de maior relevo do elenco, era também ele quem comprava brigas com a diretoria e mantinha relações corroídas num clube em crise financeira.

Em 2017, o que parecia impensável um tempo antes aconteceu: Maxi Rodríguez resolveu dar um passo para trás. “Por sua saúde mental”, como justificou na época, deixou o Newell’s Old Boys. Naquele momento, entretanto, parecia mais um até logo do que um adeus. Recusou o River Plate de Marcelo Gallardo, prometendo não jogar por outro clube argentino, e assinou com o Peñarol.

Pois a passagem pelo Uruguai renovou a lista de glórias de Maxi Rodríguez. O ponta seria bicampeão uruguaio, com papel de destaque e gols decisivos entre os aurinegros. Por lá também virou ídolo, em um ano e meio que rendeu cinco troféus – incluindo também dois do Clausura e um da Supercopa. A ausência em Rosario, no entanto, mostrou como tanto Maxi quanto Newell’s precisavam um do outro. A terceira passagem pelos leprosos começou em 2019.

A idade poderia indicar um final de carreira silencioso a Maxi Rodríguez. O craque nunca foi disso e retornou com um golaço diante do Boca Juniors. Seu rendimento seria mais baixo que em outros tempos e o capitão acabaria no banco de reservas durante os últimos meses. Mas, aos 40 anos, o camisa 11 permanecia como uma lenda viva dos leprosos e marcou gol importante numa campanha claudicante. Balançou as redes o suficiente para pendurar as chuteiras como segundo maior artilheiro da história dos rosarinos. Brindou mais testemunhas nas arquibancadas com seu talento, ampliou sua lenda no Coloso Marcelo Bielsa. Até que a despedida acontecesse nesta segunda-feira, no duelo contra o Banfield pelo Campeonato Argentino.

O empate por 0 a 0 não é muito digno de nota, assim como o 19° lugar do Newell’s. O que fica na memória são os últimos 58 minutos de Maxi Rodríguez em campo como jogador profissional. No momento em que foi substituído, La Fiera recebeu a ovação dos torcedores e o abraço de todos os companheiros. Fogos de artificio queimaram no Parque Independência, adornado por várias faixas e cartazes em homenagem ao craque. As filhas e o restante da família ampliavam a reverência. Maxi aplaudiu a todos de volta, bateu no coração, ajoelhou-se para beijar o gramado, secou as lágrimas na própria camisa. O adeus do tamanho da lenda que é, e que renderia outros momentos de festa após o apito final, com o ídolo jogado no alto pelos outros jogadores.

“Eu me esvaziei por completo. Já não tenho mais nada para dar. Vou tranquilo, dei tudo. Estou agradecido ao futebol em geral”, afirmou Maxi. “A verdade é que é um momento muito difícil para falar. Muitas coisas vêm à cabeça, quando eu comecei, todo o esforço e meu sacrifício. Quero agradecer à minha família, que sempre me apoiou. Passamos momentos duros e eles estiveram sempre ao meu lado, queriam que eu cumprisse o sonho de jogar na primeira divisão. Depois, agradeço toda essa gente maravilhosa. Isso é único, vou com essa imagem que nunca me esquecerei”.

A dimensão de Maxi Rodríguez como ídolo estará presente no Coloso Marcelo Bielsa. Uma das tribunas do estádio foi batizada com o nome de La Fiera. Um reconhecimento enorme de sua grandeza para o Newell’s, que sequer aguardou sua despedida para consumar a homenagem. O camisa 11 é daquelas lendas que terão as portas abertas na casa de qualquer torcedor, que receberá aplausos pelo resto da vida. Além do talento evidente, protagonizou uma fidelidade e uma dedicação raras de se ver no futebol contemporâneo, que os leprosos terão orgulho de recontar por muito tempo. Foi uma honra, afinal, ter Maxi como um dos seus.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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