Argentina

Mascherano: “Jogo futebol porque tenho paixão por aquilo que faço, não pela fama”

Javier Mascherano é um personagem peculiar no futebol. Alheio aos holofotes, mesmo sendo referência no Barcelona e um dos protagonistas da seleção argentina. Muitas vezes taxado como violento, apesar do grande trabalho que costuma fazer como volante. Não à toa, foi um dos melhores da última Copa do Mundo jogando na posição. Se a Albiceleste chegou até a final, dependeu bastante da garra de seu cão de guarda. Raça simbolizada principalmente na semifinal, quando um carrinho heroico impediu o gol de Robben que parecia certo e deu sobrevida aos argentinos na competição.

Pois o que representa em campo Mascherano costuma ser fora dele. Em entrevista à revista Panenka, o veterano fala sobre as suas visões sobre o futebol. De quem ama o que faz, embora não goste da maneira como é tratado. Algumas declarações do argentino podem soar como hipócritas, dias depois de ser acusado pela justiça espanhola por evasão fiscal. O que não tira o peso da maioria de suas palavras. Da realidade que os jogadores de futebol lidam no dia a dia, e que lhes é tirada de maneira abrupta ao final da carreira.

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“Eu jogo futebol porque eu gosto de jogar, porque minha paixão é realmente o que faço. Mas não pelos efeitos secundários. Não jogo para ter fama, por tudo o que o futebol te dá. Porque eu realmente renego tudo o que o futebol me dá. Não gosto de ser famoso. Se tenho que parar e tirar uma foto ou dar um autógrafo eu faço, porque é algo que preciso como jogador. Mas não aproveito quando vou ao shopping com minhas filhas ou em qualquer lugar comum. Muitas vezes tenho que ficar em casa, e não gosto disso, obviamente”, afirmou.

“Eu vivo de certa maneira e renego certas coisas. Por exemplo, renego muito o que é o sistema, porque o que me apaixona é jogar, treinar e tentar ser cada dia melhor no que posso. Aí se acabou, para mim morreu o futebol. Não vai mais adiante. Não gosto de cortar a fila para pagar algo ou ir em um restaurante que deixou uma mesa preparada para mim. Tento não passar por isso, porque sei que termina um dia. E quando termina eu volto a ser igual aos demais. Porque já vi campeões do mundo andarem pela rua e não lhe reconhecerem. Seguramente, neste sentido, sofrerei menos que outro. Sofrerei por não poder treinar ou jogar, porque eu digo que os jogadores de futebol nunca deixam de ser jogadores de futebol. O problema é que chega um momento que não te colocam mais e não te deixam jogar mais”, complementou.

Além disso, Mascherano afirmou que não sente prazer durante as partidas. Está lá para vencer o jogo e cumprir o seu trabalho, ao contrário do que muitos afirmam sobre aproveitar o ambiente: “Eu sofro com o futebol, não desfruto. Não sou daqueles que se divertem. Não, pelo contrário. Durante os 90 minutos, há certo sofrimento, por causa da concentração, para não errar, para estar atento ao que faço e ao que meus companheiros fazem. Não encontro esse sentido que muitos dizem de entrar em campo e curtir. Eu não faço isso. Eu gosto de treinar, de aprender. Mas, durante os 90 minutos, eu não desfruto a partida”.

Por fim, o argentino também comentou sobre a vontade de, um dia, voltar a jogar fixamente como volante. Embora não acredite que isso acontecerá no Barcelona, diante da dura concorrência de Busquets: “Tenho muito mais liberdade quando jogo no meio. Sofro mais quando estou na zaga, não é a minha posição. Obviamente, já jogo na defesa há cinco anos e dizer que sou um zagueiro reconvertido seria uma desculpa da minha parte. Eu já me sinto um central. Mas, quando jogo no meio, tomo como um prêmio. E aproveito”. Certamente, não só ele, mas também quem aprecia o seu estilo aguerrido.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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