Em 1º congresso acadêmico sobre Maradona, Argentina celebra, com orgulho, o jogador e a lenda
Diego Armando Maradona foi muito mais que um ídolo ao povo argentino e virou tema de congresso na capital Buenos Aires
BUENOS AIRES – “O mais humano dos deuses”. Essa frase foi escutada e repetida como um mantra durante todo o período em que a reportagem da Trivela esteve presente no primeiro Congresso Maradoniano da história, em homenagem ao craque Diego Maradona. Quase 40 trabalhos acadêmicos apresentados, 19 mesas de debate, seis eventos de apresentação de livros, além da exposição de filmes e documentários.
Em Buenos Aires, capital da Argentina, a Universidade de Buenos Aires (UBA) recebeu nos dias 6, 7 e 8 de novembro o primeiro congresso totalmente dedicado à vida e história de Maradona. Expositores, pesquisadores e apaixonados pelo futebol — e também pelo jogador — estiveram presentes para exaltar e manter vivo a história de um dos maiores ídolos do futebol.
Falecido em novembro de 2020, Maradona não foi apenas um jogador para a sociedade argentina. O ídolo se converteu em herói nacional e até mesmo em um deus — para alguns. Isso explica a “Igreja Maradoniana”, criada em sua homenagem, tal qual uma bíblia própria dedicada ao craque e também altares espalhadas por todo o país.
Dolores Rodriguez, fotógrafa e pesquisadora, foi uma das que apresentou seu objeto de estudo no congresso. A profissional registrou durante meses os altares feitos pelo povo ao eterno camisa 10 argentino, além de apresentar a “Bíblia Maradoniana”, composta por histórias e trechos de momentos compartilhados com o ídolo.
— Quando comecei a estudar o tema, havia vários altares espalhados, não só na Argentina, mas pelo mundo. O que mais me surpreendeu foi o contato de um jovem alemão, de Berlim, que mantinha um altar para Maradona e todos os dias acendia uma vela para ele — contou a fotógrafa ao apresentar seu trabalho no evento.

Maradona, um Deus idolatrado também no Brasil
A idolatria de Maradona vai além do país hermano, como demonstrado pelo altar alemão. No vizinho Brasil, não seria diferente.
Os pesquisadores brasileiros Lucas Félix e Wilson Marques, representantes das faculdades 9 de julho e Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), estiveram no congresso para apresentação de dois trabalhos do evento.
“Quis unir as questões que eu já costumo estudar de psicanálise, do comportamento humano e o amor pelo futebol. E falar sobre o futebol é inevitavelmente falar sobre Maradona”, disse Lucas Félix, autor do artigo “D10S incondicional: uma análise psicanalítica da devoção de Maradona em Napoli e seu contraste com a idolatria no Brasil.
— No meu estudo tentei, fazer uma comparação com a maneira que nós brasileiros idolatramos e as diferenças que existem entre as maneiras que lidamos com nossos ídolos e como os argentinos lidam com os deles — conta Félix.

Já Wilson, fã de Maradona desde a infância, focou no aspecto da fé e analisou como o craque virou deus para muitos argentinos e torcedores do Napoli, onde fez história, antes mesmo de sua morte em 2020. Ele foi autor da pesquisa “Diego Nosso que estás no céu. Religião e futebol na América Latina”.
— Me chamou a atenção essa adoração, com o religioso, que não só os argentinos, mas também os napolitanos possuem com ele. Tentei trazer aspectos da sociologia e da antropologia para estudar esse fenômeno religioso em torno da figura dele. Acho que essa adoração também nasce de um aspecto típico da América Latina, que tem essa vertente religiosa muito forte, santos venerados em torno da sua imagem. Toda a vida do Maradona se constrói nessa visão de martírio, sofrimento, relação com os mais necessitados, tudo isso faz crescer essa adoração religiosa com ele — .

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“Maradona é a pátria”
Ídolo nacional, Maradona é exaltado por todos os argentinos. Os históricos gols marcados contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, ganharam contornos ainda mais heroicos, principalmente no contexto sociopolítico da época.
Ambos os gols, fundamentais na campanha do segundo título mundial da seleção argentina, foram eternizados com uma carga simbólica elevadíssima. Um valor sentimental para a alma de um povo que havia sofrido com as mazelas de uma guerra, justamente contra os ingleses, pelas Ilhas Malvinas.

Maradona ali se convertia em um Deus, um herói, em um jogador responsável por “vingar” todo um país através do futebol.
Na mesa de debate “D10S, Patria y Maradona”, quatro acadêmicos de diferentes áreas conversaram sobre essa imagem devota do ídolo do futebol com seu povo.
— Maradona é a pátria, não há dúvidas — disse o sociólogo e professor Pablo Alabarces.
Livros, desenhos e obras de arte representam Diego
Além das apresentações de pesquisas e debates, o congresso também reuniu artistas de diversas áreas para mostrarem seu trabalho envolvendo Maradona.
Nos corredores da UBA era possível encontrar grafites, telas e pinturas, todas dedicadas ao astro do futebol. Fotografias inéditas e conhecidas também mostravam aos visitantes detalhes da vida pessoal e profissional do ídolo argentino.

Muitos artistas também aproveitavam para vender seus trabalhos: Adesivos, cartões postais feitos à mão, alfajores personalizados com fotos do D10S, livros e camisetas eram comercializadas em uma espécie de feira para os presentes no congresso.
A figura de Maradona estava em cada pedacinho da universidade. Conforme a reportagem explorava os locais, ficava mais evidente como Diego é amado no país e como é representado pelo seu povo.
O congresso foi marco — histórico e acadêmico — da representação de como Diego Armando Maradona transcendeu de um ídolo do futebol local a um herói inalcançável e até um símbolo religioso.




