Argentina

Lisandro López se despede do Racing como o ídolo que voltou ao clube do coração e o liderou para ser campeão

O Racing encerrou um capítulo importante de sua história nesta terça-feira. Lisandro López, um dos maiores ídolos recentes do clube, pôs fim à sua segunda passagem pela Academia. Muito identificado com os racinguistas, o atacante retornou para mais cinco anos no clube que o formou. E o período no Cilindro foi exitoso, especialmente pela conquista do Campeonato Argentino em 2018/19. O atacante protagonizou a campanha com uma coleção de gols e também com sua notável liderança, ganhando o direito de erguer a taça por ser capitão. Permanecerá lembrado como um gigante em Avellaneda, que voltou para conquistar o título que não havia conseguido no início da carreira e cumpriu sua promessa.

O retorno de Lisandro aconteceu em 2016. Após explodir no Cilindro durante o início dos anos 2000, o centroavante tinha jogado por bons anos na Europa, brilhando no Porto e no Lyon. Todavia, sua carreira parecia entrar em declínio, com passagens mornas por Al Gharrafa e Internacional. O Racing abria as portas não apenas a um prata da casa querido, que chegou a ser artilheiro do Campeonato Argentino em 2004, mas também a um novo mentor para o elenco. Licha contribuiria não apenas com seu rendimento em campo, mas também por sua mentalidade e por sua enorme entrega a cada jogo. Assim, caiu ainda mais nas graças dos torcedores racinguistas.

Olhando aos números, a passagem de Lisandro López teve altos e baixos. Não houve um impacto tão grande durante os primeiros anos, por mais que o Racing se mantivesse nas competições continentais. Licha compartilhou a linha de frente com Diego Milito e Gustavo Bou, mas em seus primeiros meses era mais uma opção no banco. Entretanto, logo daria provas do que poderia fazer, com o primeiro gol vindo numa bicicleta diante do rival Independiente, para empatar o clássico aos 45 do segundo tempo. Também se tornaria herdeiro direto de Milito, após a despedida do Príncipe no meio de 2016.

Lisandro desempenhava o papel de definidor, mas fazia mais, especialmente por seu empenho ao abrir espaços e ajudar na construção do jogo. Contudo, nem todos no clube apreciavam seu futebol. O técnico Diego Cocca chegou a barrar o veterano em 2017 e encarou a oposição não apenas dos jogadores, mas também de dirigentes que interferiram em sua escalação. O comandante logo deixaria o cargo, abrindo caminho para Eduardo Coudet, que depositaria toda a sua confiança no futebol do veterano.

E nada se compara ao que fez Licha durante o Campeonato Argentino de 2018/19. O atacante atingiu um nível próximo ao experimentado em seus melhores tempos de Europa, com gols frequentes e atuações decisivas. Foram 17 tentos em 24 aparições, essenciais à conquista, preenchendo as lacunas deixadas pelo pupilo Lautaro Martínez antes da competição. Além disso, seu espírito de luta e a contribuição aos companheiros era evidente. Um momento especial? Outro clássico diante do Independiente, com gol e assistência na vitória albiceleste por 3 a 1. O veterano completou o sonho de ser campeão com o clube do coração e reconquistou a artilharia 15 anos depois. Ainda foi eleito o melhor jogador da liga.

“Este Lisandro é mais completo que o de 2004. Quando eu era mais novo, só entrava em campo e corria por todos os lados. Hoje eu curto os jogos mais do que antes, mesmo me permitindo desfrutar pouco. Eu vivo o antes, o durante e o depois de cada partida, coisa que não fazia quando era jovem”, afirmou o próprio Licha, na época. “Nesta idade, o principal é chegar bem fisicamente. No mental não muda nada, encaro cada semana da mesma maneira. Quando você não está no nível que se pretende, isso afeta a confiança e se sente no rendimento. São momentos. O mental não mudou, enquanto quero estar em bom nível e ajudar a equipe”.

Durante os últimos meses, Lisandro López não repetiu o mesmo patamar. Ainda assim, experimentou momentos memoráveis. Estava no time que conquistou a histórica vitória sobre o Independiente (quem mais?) no clássico de fevereiro de 2020, com dois homens a menos. Também fez parte da caminhada às quartas de final da Copa Libertadores, convertendo o primeiro pênalti da classificação contra o Flamengo. Todavia, deixava claro como não estava mais naquela forma do ano anterior. A eliminação diante do Boca Juniors anteciparia a despedida, com direito a 25 partidas consecutivas sem marcar. A seca acabou exatamente no último jogo, durante o adeus dos albicelestes na Copa Diego Armando Maradona.

“É um momento muito especial. Estou aqui para anunciar minha saída do clube e colocar fim à minha segunda passagem. Foram cinco anos maravilhosos, com momentos bons e também ruins. Mas estou orgulhoso por tudo o que dei e quero agradecer. Sinto que este é o momento. Tenho um cansaço e um esgotamento físico, mas, sobretudo, um cansaço mental. E sempre fui um jogador que entregou e entrega tudo. Aos torcedores, não posso fazer mais que agradecer. Sempre tratei de falar com eles em campo, mas só tenho palavras de gratidão”, disse Licha.

“Não descarto que no futuro posso estar em outra posição no clube. Tomara que aconteça. Para mim, não é um dia triste. Vou com tranquilidade e felicidade porque sempre deixei tudo e porque pude voltar aqui para cumprir meu sonho. Este clube me deu tudo. Sempre disse que não voltei para me aposentar, mas para competir e dar meu melhor. Meu balanço é super positivo, ao ver como o Racing cresceu ao longo desses anos. Não tenho dúvidas que, com o passar do tempo, o clube continuará encontrando jogadores com senso de pertencimento. Os que hoje triunfam no exterior vão voltar e as alegrias vão continuar”, completou.

Aos 37 anos, Lisandro López não vai pendurar as chuteiras. Deverá se tornar a nova referência do Atlanta United, em legião argentina dirigida por Gabriel Heinze. Todavia, independentemente do que ainda fizer em campo, sua idolatria no Racing está gravada. E qualquer racinguista é grato por aquilo que Licha ofereceu nos últimos cinco anos. Voltou não para fazer figuração, mas para vencer. Honrou a camisa e vai permanecer na memória por muito tempo, com um título que referendou a braçadeira e também sua capacidade goleadora.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.