Argentina

O Independiente reage sob as ordens de Tevez e provoca a demissão de Gago no Racing

Fernando Gago vinha pressionado pelas eliminações recentes e não resistiu à derrota no clássico dentro do Cilindro, em meio à recuperação do Independiente sob as ordens de Tevez

A Copa da Liga Argentina atravessa um final de semana repleto de clássicos. E o clima em Avellaneda seria bastante distinto entre seus dois principais rivais, depois do Racing 0x2 Independiente dentro do Cilindro. O Rojo reage com o triunfo. Ameaçado pelo rebaixamento e numa longa crise, a equipe soma três pontos cruciais para se sustentar na primeira divisão. O momento recente oferece um respiro, com uma sequência invicta de sete partidas desde que Carlos Tevez assumiu o comando do time. Já a Academia se funde, numa série de decepções que inclui as eliminações na Libertadores e na Copa Argentina. Mesmo com o time na liderança de seu grupo na Copa da Liga, Fernando Gago pediu demissão.

Gago permaneceu por quase dois anos no comando do Racing. O trabalho do treinador seria marcado por um futebol atrativo em diversos momentos, chamado carinhosamente de “Gagoneta”. Entretanto, isso não significou grandes feitos à equipe. Pelo contrário, a Academia passou a falhar repetidamente nos momentos decisivos. Em 2022, a lista de frustrações incluiu a queda contra o Boca Juniors nas semifinais da Copa da Liga e o troféu do Campeonato Argentino também perdido para os xeneizes na dramática rodada final. A equipe ainda deu vexames contra o Agropecuário na Copa Argentina e contra o River Plate de Montevidéu na Copa Sul-Americana, eliminada pelo Melgar na fase de grupos.

Já em 2023, os grandes baques foram mais recentes, com a eliminação diante do Boca Juniors (de novo) na Libertadores e do Huracán na Copa Argentina. A pressão sobre Gago era enorme, pela maneira como as expectativas de um título relevante nunca foram cumpridas. No máximo, o Racing ganhou duas supercopas no período. E a derrota para um Independiente em crise, em pleno Cilindro de Avellaneda, culminou em sua queda. A própria torcida cantava nas arquibancadas pela demissão.

O recebimento no Cilindro foi lindíssimo, mas o Racing tomou um duro golpe logo de cara. O Independiente abriu o placar aos quatro minutos, num cruzamento de Braian Martínez para Alexis Canelo guardar. A partir de então, pesou a conhecida dificuldade da Gagoneta em reagir a situações desfavoráveis. Gonzalo Piovi cabeceou uma bola no travessão ainda no primeiro tempo, mas os racinguistas não conseguiram empatar e ainda ficaram expostos aos contragolpes. Mesmo a lesão de Federico Mancuello não atrapalhou o Independiente. A pressão improdutiva dos albicelestes se ampliou na segunda etapa, enquanto o Rojo era bem mais perigoso. Martínez também carimbou o travessão, antes de definir o placar num pênalti convertido aos 41 minutos.

Os atritos de Gago com a torcida do Racing eram crescentes, não apenas pelas eliminações recentes, mas também por suas respostas ásperas nas coletivas de imprensa e pelas decisões contestáveis na casamata. As vaias se tornaram comuns nos últimos jogos. E a formação tática escolhida pelo treinador não auxiliou no clássico, com mudanças posteriores que surtiram poucos efeitos e ainda geraram insatisfação – especialmente ao sacar Juan Fernando Quintero na volta do intervalo. Antes do fim, os protestos contra Gago tomaram a atmosfera do Cilindro. O comandante ainda tinha uma proposta para renovar seu contrato, mas comunicou os jogadores ainda nos vestiários que entregaria seu cargo. Por mais que os atletas tenham tentado fazê-lo mudar de ideia, o veterano tinha batido seu martelo. Também não participou de coletiva de imprensa.

O Independiente lidera o Grupo A da Copa da Liga Argentina, com 14 pontos em sete rodadas. É um desempenho bastante surpreendente da equipe, que ainda está ameaçada pelo rebaixamento na tabela anual do Campeonato Argentino (que contabiliza os pontos da Copa da Liga), e garante um respiro importante. Tevez é um dos principais responsáveis pela guinada vivida pelo Rojo, diante da forma como conseguiu emendar bons resultados em sua chegada à casamata, no seu segundo trabalho como treinador. Caiu nos pênaltis pela Copa Argentina, mas vai cumprindo a missão principal.

Já o Racing lidera provisoriamente o Grupo B, mesmo com a derrota, com 12 pontos. Gago preferiu pedir o boné entre o muito que não deu certo em seu trabalho pelo clube. É um bom treinador, que conseguiu montar uma equipe entrosada em certos momentos, mas impressionou a quantidade de vezes em que faltou capacidade de decisão. Uma renovação de ares fará bem ao ex-volante e também aos racinguistas, diante das relações rompidas. A Copa da Liga segue como um objetivo ao alcance, o último da temporada, com os quatro primeiros de cada grupo avançando aos mata-matas.

Outros clássicos do sábado

A Copa da Liga Argentina teve outros dois clássicos de mais relevo neste sábado. No Gigante de Arroyito, o Rosario Central fez a alegria de sua torcida e derrotou o Newell's Old Boys por 1 a 0. Os leprosos tiveram mais finalizações e mais posse de bola, mas os canalhas definiram o placar de maneira brilhante, aos 41 do segundo tempo. O gol saiu numa cobrança de falta perfeita de Ignacio Malcorra, que mandou a bola de canhota na gaveta e deixou atônito o goleiro Lucas Hoyos. Malcorra merece o destaque também por ser um personagem peculiar, camisa 10 de estilo clássico e mullets. O veterano de 36 anos chegou do Lanús, mas possui sua carreira mais reconhecida no México – onde defendeu Tijuana, Pumas UNAM e Atlas.

O clássico rosarino também teve sua dose de confusão, especialmente quando um rolo de papel higiênico atirado pela torcida do Rosario Central atingiu Leonel Vangioni, capitão do Newell's. Já fora do estádio, a nota lamentável ficou para a morte de uma torcedora auriazul, atingida por uma pedra enquanto estava com uma camisa do Central numa moto. Dirigido por Miguel Ángel Russo, o Rosario Central é apenas o 11° colocado no Grupo A da Copa da Liga, com oito pontos. O NOB treinado por Gabriel Heinze também tem oito pontos e é o oitavo do Grupo B.

Mais um clássico bastante movimentado ocorreu no Nuevo Gasómetro, com o empate por 1 a 1 entre San Lorenzo e Huracán. O primeiro tempo já foi complicado aos azulgranas, com um pênalti anulado para a equipe após revisão no VAR e uma bola que o Globo acertou no travessão, com Matías Cóccaro. A vida do San Lorenzo se tornou ainda mais difícil depois que Gastón Hernández recebeu o segundo amarelo no início do segundo tempo. E o gol do Huracán saiu na sequência, num bonito chute de Ignacio Pussetto da meia-lua. Com um a menos, os cuervos tiveram que lutar até os 53, quando Adam Bareiro permitiu o empate de pênalti.

O Huracán está na zona de classificação da Copa da Liga Argentina. Soma 13 pontos, na segunda colocação do Grupo A. Já o San Lorenzo está invicto, mas com seis empates em sete rodadas. São nove pontos para os azulgranas, na quinta posição do Grupo B.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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