Argentina

iGracias, Dieguito!

O 52º Cumpleaños de Diego Armando Maradona foi nesta terça-feira, mas eu não poderia deixar de homenageá-lo neste espaço. Não porque ele é “D10s” como acreditam os argentinos, ou porque ele é “o segundo melhor jogador do mundo” como afirmam os brasileiros, mas porque ele foi sensacional quando futebolista.

Aliás, das perguntas-clichês, que considero mais inúteis, elejo com ampla margem “quem é melhor Maradona ou Pelé?” Respondo-vos: não faço a minha questão em saber. Gostaria, na verdade, de um dia perceber que a qualidade de um não diminui a do outro.

Lembro-me da minha primeira Copa do Mundo. Foi em 1994. Parentes, amigos e até desconhecidos se juntavam na casa da minha avó para assistir aos jogos da seleção brasileira. Quase todas as partidas foram assistidas lá. Eu tinha um lugar reservado: em cima do muro.

Eu sempre vestido com o segundo padrão da seleção brasileira, a camisa azul com o número 10 nas costas, que era constantemente associado ao padrão da seleção argentina. Para me “zoarem”, é claro. Fato que nunca me incomodou.

Enquanto todos nós assistíamos aos jogos da canarinha unidos regados a cervejas [para os adultos] e churrasco, eu também não perdia, mesmo que solitariamente, as partidas da Argentina. Para estas, a bebida pouco importava, mas o aperitivo eram as unhas.

Na Argentina, havia um cara chamado Maradona, que eu vira pela primeira vez meses antes e me encantara rapidamente. Ele estava em decadência. Diziam-me que ele era o vilão da trupe. Soube também que na Copa anterior ele, junto a um tal de Caniggia, fizera o Brasil chorar. Mas isso também não me incomodava.

Ali inconscientemente a semente Albiceleste já estava plantada. Sou descendente de argentino, mas não escapei de ouvir que eles eram “nossos inimigos”, tampouco deixei de refletir sobre tal falácia. Talvez eu fosse o único a lembrar da descendência.

Mas não tardou para os sorrisos se tornarem lágrimas. Logo, na segunda partida, a Albiceleste vencera a Nigéria, mas aquela triste imagem de Dieguito saindo de campo acompanhado da enfermeira para fazer um tal exame embargou a voz e perdurou por dias na minha cabeça. O tal exame chamava-se antidoping e deu positivo para efedrina, o que para mim era indiferente, diga-se. Enfim, metade daquele Mundial se fora junto com ele.

Nossos hermanos foram eliminados uma semana depois numa partida sensacional, ante a Romênia, de Hagi. Mas nem a vitória sem aquele gordinho, baixinho e marrento teria o mesmo significado para um garoto de 7 anos. Mas a dor pelo ocorrido anteriormente ainda fazia-se presente. Me “zoaram” novamente.

Percebi algo irônico naquele dia. Os brasileiros comemoraram a derrota dos portenhos como uma vitória da “nossa Seleção”. E apesar de saber que eles eram “do mal”, demorei a entender o porquê de tamanha animação. Afinal, a Celeste y Blanco perdera, mas a seleção brasileira não havia derrotado eles.

Ao contrário, no dia seguinte, sofrera para derrotar os Estados Unidos e a imagem que ficou na minha cabeça foi a narigada que o americano deu no cotovelo de Leonardo. Ah, mas os maldosos eram os argentinos. Cansei de ouvir isso. Pena que ouço até hoje como se fosse um axioma.

Na partida seguinte quebramos a corrente – o Brasil venceu a Holanda, com aquele gol antológico de Branco -, mas tínhamos de recompor. Aquela seleção tinha tudo para ser campeã [principalmente, Romário]. Mas não encantava como o “cabeludo de azul e branco”. Mas ainda assim torci, e muito.

O resumo da obra vocês já conhecem: o Brasil foi tetracampeão. Eu comemorei. Mas… nunca deixei de refleti. Talvez a camisa azul e o ato ficar em cima do muro quando trata-se de Brasil e Argentina tenham representado bem mais do que casualidades. Estava cedo, mas anos mais tarde quando fui apresentado às teorias freudianas não foi difícil entender o que ele queria dizer sobre “Alter ego”…

…E Maradona foi o protagonista do momento mais sublime de todo amante de futebol, sua primeira Copa do Mundo. Aquela inocente, cheia de curiosidades e descobertas. Posteriormente, el Pibe voltou a jogar pelo Boquita e estancou um pouco da tristeza. Mas hoje eu percebo que aquele Mundial transformou a minha vida.

Gracias, Dieguito!

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