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A história de Boca x River no Século XX, recontada através de gols icônicos e/ou grandes ídolos

A grandeza do clássico entre Boca Juniors e River Plate não se mensura apenas por títulos importantes, pelas massas fanáticas ou pela tradição das instituições. A história se constrói passo a passo, jogo a jogo, tecendo uma narrativa singular. E é nisso que se concentra a memória coletiva: nas partidas importantes, nos gols decisivos, nos ídolos deslumbrantes. Em mais de um século, o superclássico está recheado destes episódios. Assim, diante do duelo mais pesado de todos, a superfinal da Libertadores, aproveitamos para abrir este livro de uma maneira diferente: focando em gols icônicos e/ou em grandes craques. Uma maneira de redescobrir essa riqueza. São 13 jogadores de cada equipe, embora nem todas as lendas tenham sido contempladas – e a lista dos que acabaram de fora é longa. Para valorizar o que ocorreu realmente no passado, fizemos o recorte até 2000.

Roberto Cherro, 1928

Baixinho e um tanto quanto atarracado, Roberto Cherro era daqueles atacantes que sabiam marcar gols de todas as formas. Não possuía técnica tão refinada, mas, quando necessário, estava na área para concluir. O Cabecita de Oro acumulou 218 tentos pelo Boca Juniors, marca superada apenas por Martín Palermo. Por três vezes foi artilheiro do Campeonato Argentino e também acumulou participações internacionais com a seleção. Uma de suas noites mais felizes foi justamente a que rendeu a maior goleada do Superclássico. Os 6 a 0 aplicados em La Boca foram circunstanciais. Em uma época na qual ainda não existiam substituições, dois jogadores do River Plate se lesionaram juntos após um choque e precisaram deixar o campo. Um terceiro millonario ainda desfalcaria a equipe durante o dérbi. Assim, ficou fácil para os boquenses maltratarem. Cherro tratou de anotar os dois últimos tentos, o quinto e o sexto. Caberia mais, mas os visitantes solicitaram ao árbitro que encerrasse a peleja antes dos 90 minutos e, aos 83, o apito final já soava.

Francisco Varallo, 1932

Em 1931, Cherro ganhou uma excelente companhia ao ataque do Boca Juniors: Francisco Varallo, seu companheiro de seleção, que conquistara o título nacional com o Gimnasia em 1929. Juntos, formaram uma das duplas mais prolíficas da história do futebol sul-americano. Não à toa, Pancho é o terceiro maior artilheiro dos xeneizes em todos os tempos, além de ter sido o máximo goleador do Campeonato Argentino em 1934. Muito rápido e dono de um chute fortíssimo, que rendeu o apelido de Cañoncito, o matador anotou o primeiro gol boquense em um clássico na era profissional – em jogo que não terminou, justamente pelos protestos dos rivais ao reclamarem de uma falta sobre o goleiro. Sua atuação mais memorável, entretanto, aconteceu meses depois, em janeiro de 1932. O clássico aconteceu pela última rodada da liga, conquistada pelos xeneizes na semana anterior. Os visitantes venceram por 3 a 0, com um gol do craque para fechar a conta, e deram a volta olímpica em Recoleta, a casa dos alvirrubros na época.

Bernabé Ferreyra, 1933

A década de 1930 certamente foi a mais prolífica ao Campeonato Argentino em termos de artilheiros. O River Plate também tinha suas lendas. E a principal delas atendia pelo nome de Bernabé Ferreyra. Contratado junto ao Tigre, o Mortero de Rufino se transformou na maior transferência da história quando o negócio se concretizou. Compensou cada centavo: além dos 187 gols marcados, dos 43 tentos logo em seu primeiro campeonato ou dos títulos acumulados, o matador ajudou o clube alvirrubro a se tornar popular. Multidões iam ver seus chutaços e seu ímpeto em Recoleta, o que gerou bastante dinheiro à agremiação e permitiu a construção do Monumental. Pois em novembro de 1933, cinco anos antes da mudança, ele sustentou sua fama de carrasco no Superclássico. O jogo valia pela última rodada do Campeonato Argentino e o Boca ainda tinha chances de ser campeão. Viu seu chope ser aguado com o triunfo por 3 a 1 dos millonarios, com dois gols de Ferreyra. O San Lorenzo ficou com o troféu.

José Manuel Moreno, 1941

Dono de uma potência física assombrosa e de muita qualidade técnica, Moreno é considerado por alguns como o mais talentoso de La Máquina do River Plate. O chamado “jogador total”, que fazia de tudo um pouco, e tudo com uma excelência indiscutível, mesmo sendo um boêmio inveterado. Sua ascensão no clube teve a benção do próprio Bernabé Ferreyra. E seria ele o símbolo de algumas das maiores goleadas sobre o Boca Juniors – curiosamente, o seu clube na infância. O maior passeio aconteceu em outubro de 1941, quando o craque balançou as redes uma vez nos 5 a 1 no Monumental, eleito o melhor em campo na ocasião. Labruna, Pedernera e Deambrosi foram ótimas companhias no placar. Ainda hoje aquele atropelamento permanece como a vitória mais elástica dos millonarios no superclássico. Um ano depois, também deixaria o seu nos 4 a 0 aplicados também no Monumental. Os massacres serviram para sustentar a fama daquele esquadrão alvirrubro, bicampeão nacional em 1941 e 1942.

Adolfo Pedernera, 1942

Fato é que, se Moreno não é o craque indiscutível de La Máquina, isso acontece porque muita gente boa estava ao seu lado. A exemplo de Adolfo Pedernera, outra lenda, ídolos de grandes ídolos do River Plate. O atacante era o cérebro daquele time, atuando centralizado para fazer o carrossel girar com sua visão de jogo. Mas que também anotava os seus gols. O bicampeonato em 1942, inclusive, aconteceu apenas graças à sua qualidade. Os millonarios estavam à beira do título, mas precisavam se impor na Bombonera antes disso, pela antepenúltima rodada. E o Boca Juniors parecia disposto a adiar a festa, ao abrir dois tentos de vantagem, graças a Bernardo Gandulla. No segundo tempo, El Maestro comandou a reação. Anotou dois gols e garantiu o empate por 2 a 2. A volta olímpica aconteceu dentro de La Boca.

Severino Varela, 1943

Por mais que o River Plate tenha dominado o Campeonato Argentino na década de 1940 e sustente a fama, o Boca Juniors também possuía uma equipe bastante competitiva. Não exibia um futebol tão refinado, mas a postura aguerrida determinava o sucesso dos xeneizes. Foram também bicampeões nacionais em 1943 e 1944. O primeiro título, com um gosto especial, por se encaminhar com uma vitória histórica no Monumental durante a 20ª rodada. Os millonarios saíram em vantagem com Loustau, mas Severino Varela balançou as redes duas vezes para decretar a virada por 2 a 1. Ficou marcada a “palomita” (o peixinho) do atacante na pequena área, num lance de pura coragem que rendera o empate. Nascido no Uruguai, La Boina Fantasma também fez sucesso com a seleção de seu país e com o Peñarol. Ainda assim, o reconhecimento em La Boca é enorme, também anotando o gol da vitória no dérbi durante a campanha do bicampeonato em 1944.

Ángel Labruna, 1954

Um dos principais responsáveis por alimentar a rivalidade entre River Plate e Boca Juniors foi Ángel Labruna. Quando já era técnico dos millonarios, ficou famoso pelo gesto de tapar o nariz, referência ao mau cheiro dos “bosteros”. Mas também judiou bastante dos rivais em seus tempos como jogador. Nenhum outro marcou mais gols no dérbi do que El Feo, autor de 16 tentos em 35 partidas oficiais. O primeiro veio em 1939, numa situação curiosa: durante uma greve dos jogadores, o River precisou escalar os garotos da base na reta final do Campeonato Argentino. Pois o prodígio, vestindo a 10 de Moreno, daria a vitória de virada por 2 a 1, na qual Varallo fez seu último gol no superclássico. O atacante também marcou nas goleadas do início dos anos 1940 e em várias vitórias da supremacia ao final da década. Mas os episódios mais lembrados aconteceram em outra geração prodigiosa, a dos anos 1950. Em 1954, o Monumental recebeu o maior público da história do futebol argentino. O Boca poderia ser campeão no Monumental, mas foi despachado com a derrota por 3 a 0 – dois gols de Labruna, além de uma assistência. Já no ano seguinte, o River chegou já com a faixa no peito à Bombonera e se impôs: venceu de virada por 2 a 1, com o veterano dando o empate. “Eu sempre vivi do Boca. Graças a eles, fiquei famoso”, dizia.

Paulinho Valentim, 1962

O River Plate aturou uma dura seca de títulos a partir do fim dos anos 1950. E consequentemente, passou a sofrer bastante durante os clássicos. De 1958 a 1965, os millonarios venceram apenas um dérbi. Penaram principalmente diante dos gols de Paulinho Valentim pelo Boca Juniors. O antigo ídolo do Botafogo mostrou suas virtudes ao longo dos cinco anos em que permaneceu na Bombonera. Sobretudo, tinha um prazer especial em fazer os rivais sofrerem. Anotou 10 gols em sete confrontos pelo Campeonato Argentino, o mais notável em 1962. O duelo aconteceu em dezembro, pela penúltima rodada da liga. Os dois times estavam igualados na tabela. O brasileiro abriu o placar aos 14 minutos do primeiro tempo, cobrando pênalti e superando o idolatrado Amadeo Carrizo. Já o lance célebre daquele embate aconteceu a cinco minutos do fim, quando o árbitro assinalou outro penal, desta vez aos visitantes em La Boca. O também brasileiro Delém buscou o canto, mas o goleiro Antonio Roma pegou (se adiantando um bocado, é verdade) e garantiu o triunfo por 1 a 0.  Valeu o título aos boquenses, confirmado na rodada seguinte.

Norberto Menéndez, 1965

Cria da base do River Plate, Norberto Menéndez fez muito sucesso na era vitoriosa do clube durante a metade final dos anos 1950. Deixou Núñez para se juntar ao Huracán e, a partir de 1962, se transformou em uma das referências em La Boca. O atacante ajudaria o Boca Juniors a conquistar três títulos do Campeonato Argentino, nenhum deles mais saboroso do que o faturado em 1965. Na antepenúltima rodada, mais uma vez, o clássico teria peso decisivo ao título. Os rivais somavam 45 pontos e quem vencesse na Bombonera botaria a mão na taça. Luis Artime abriu o placar durante o primeiro tempo e, no início do segundo, Oscar Pianetti empatou aos xeneizes. O heroísmo de Beto aconteceu aos 42 do segundo tempo. Uma bomba de canhota balançou as redes e encaminhou o título aos bosteros.

Oscar Más, 1966

A presença de Oscar Más nesta lista poderia se dar por um gol que não fez. Quando tinha dez anos, o garoto foi fazer um teste no Boca Juniors. Um pênalti favorável foi marcado à sua equipe e ele partiu para a cobrança. Errou. De propósito. Torcedor fanático do River Plate, declarou que não poderia anotar um tento pelos xeneizes. E assim se tornaria uma das pérolas das categorias de base millonarias, durante os anos de seca de títulos. De títulos, cabe frisar, não de vitórias no superclássico. A situação contra os rivais começou a virar a partir de abril de 1966. Pela quinta rodada do Campeonato Argentino, o River venceu por 3 a 1 na Bombonera, onde não celebrava uma vitória desde o famoso jogo de 1955. Pinino, um atacante incisivo e insinuante, anotou dois gols. Ao longo da carreira, seriam 12 tentos, atrás apenas de Labruna entre os maiores artilheiros do dérbi. Depois de uma passagem pelo Real Madrid, voltaria para integrar os times campeões no fim dos anos 1970.

Norberto Madurga, 1969

Substituto do ídolo Antonio Rattin, Norberto Madurga foi uma das referências do Boca Juniors no final dos anos 1960. Um meio-campista reconhecido principalmente por seu talento em aparecer no ataque, o que valeu ouro aos xeneizes em 1969. O clássico aconteceu em dezembro, já pela rodada final do Campeonato Nacional. O River Plate estava dois pontos atrás na tabela, mas parecia pronto a tirar a diferença no Monumental. Isso até Madurga aparecer. O meia anotou dois gols ainda no primeiro tempo e, por mais que tenham reagido, o empate por 2 a 2 não valeu em nada aos millonarios. Os boquenses puderam dar a volta olímpica em Núñez. A torcida da casa até aplaudia, mas a diretoria alvirrubra mandou ligar o sistema de irrigação do gramado, molhando os bosteros. Nem isso impediu a comemoração pela taça. Madurga ainda passaria pelo Brasil, campeão nacional com o Palmeiras em 1972.

Carlos Morete, 1972

A seca de títulos do River Plate persistia naquele momento. Seria quebrada apenas em 1975. De qualquer maneira, a vitória de outubro de 1972, no José Amalfitani, serviu como um desafogo aos millonarios. E teve Carlos Morete, cria das categorias de base, como grande protagonista. Uma loucura tomou o gramado naquele clássico, o mais super de todos. O River começou imparável e abriu dois gols antes dos dez minutos, com Mastrángelo e Más. No entanto, o Boca virou ao final do primeiro tempo, graças a Curioni, Ponce e Potente. O próprio Potente ainda faria o quarto no início da etapa complementar, 4×2. Festa boquense? Não tão cedo. Más voltou a descontar na sequência. Até que Morete botou a capa de herói, para destronar as certezas bosteras. Empatou aos 17 e virou justamente aos 45 do segundo tempo. Ficou a marca ao time cheio de jovens dirigido pelo brasileiro Didi. Nenhum outro dérbi teve tantos gols quanto aquele, e o orgulho permanece à Banda Roja. El Puma é o quarto maior artilheiro do confronto, com nove gols, igualado a Palermo em jogos oficiais.

Rubén Suñé, 1976

A única final do Século XX entre Boca Juniors e River Plate aconteceu em dezembro de 1976, valendo a taça do Campeonato Nacional. Os millonarios eram reconhecidos por contar com uma equipe mais técnica, mas também viam os aguerridos adversários buscando sucessos no cenário doméstico. E um dos símbolos dessa mentalidade era Rubén Suñé, grande liderança no meio-campo boquense. Seria justamente o capitão o responsável por decidir o jogo histórico, realizado diante de 70 mil no Cilindro de Avellaneda. O lance fatal aconteceu aos 27 do segundo tempo. Uma falta na entrada da área concedia a chance ao Boca. Antes de subirem ao campo, os capitães falaram com o árbitro e, por sugestão de Perfumo, dono da braçadeira millonaria, ficou acordado que qualquer um dos lados poderia cobrar as faltas sem a autorização prévia – recomendação nova na época. Pois justamente os xeneizes se beneficiaram disso. Enquanto Ubaldo Fillol ajeitava a barreira, El Chapa mandou um chute perfeito, na gaveta do goleiro. Pato admitiria depois que nem se estivesse posicionado conseguiria pegar aquela bola. O tento rendeu uma comemoração feroz do veterano, a conquista inesquecível e a eterna gratidão ao capitão.

Daniel Passarella, 1977

Se o Boca Juniors começou a estender seus domínios além das fronteiras naquela década, o River Plate enfileirou taças no Campeonato Argentino. Em 1977, por exemplo, os millonarios faturaram o Metropolitano. Na penúltima rodada, porém, os líderes precisaram encarar a pressão na Bombonera. Pernía abriu o placar aos xeneizes logo aos três minutos. Caberia a Passarella iniciar a reação, empatando em cobrança de pênalti, aos 44. Frieza que valeu demais. No último minuto, Pedro Alexis González disparou por mais da metade do gol, decretando a virada por 2 a 1. Na rodada seguinte, a Banda Roja soltou o grito de campeã. Eterno caudilho alvirrubro, El Káiser anotou cinco gols no superclássico, número que representa bem sua aptidão nas subidas ao ataque e a precisão nas bolas paradas. Como curiosidade, é outro que torcia ao Boca durante a infância.

Ernesto Mastrángelo, 1978

Mastrángelo jogou pelos dois clubes e chegou mesmo a anotar um dos gols do River nos 5×4 de 1972. No entanto, sua fama se elevou realmente com a camisa do Boca. Foi uma das figuras centrais na conquista do Nacional em 1976. Além disso, também participou ativamente do bicampeonato da Libertadores em 1977 e 1978. O gol mais célebre aconteceu em outubro de 1978, no segundo duelo entre os rivais pelo triangular semifinal do torneio. Depois do 0 a 0 na Bombonera, em que Fillol pegou tudo, a vaga seria definida no Monumental, com o Atlético Mineiro já eliminado a esta altura. Dois pontos atrás, os millonarios precisavam do triunfo. Mastrángelo abriu o placar aos 19 do segundo tempo e impulsionou a classificação bostera. Pouco depois, Salinas também balançou as redes e fechou a conta em 2 a 0. Curiosamente, outro ex-jogador do River, mas que, assim como Mastrángelo, eram boquenses na infância. Os xeneizes seguiram à decisão, na qual bateram o Deportivo Cali, com direito a mais um gol do atacante.

Diego Maradona, 1981

Maradona pode não ser o maior jogador da história do Boca Juniors, mas foi o mais talentoso que já defendeu a camisa azul y oro. E sua primeira passagem por La Boca, sobretudo, apresentou a ginga mais pulsante do Pibe de Oro. Contratado junto ao Argentinos Juniors, o jovem disputou o seu primeiro superclássico em abril de 1981. O seu superclássico. Maradona simplesmente acabou com aquela partida na Bombonera. Miguel Ángel Brindisi, autor de dois gols, e Hugo Perotti, participando em ambos os lances, foram os coadjuvantes de luxo. No entanto, o baile só se encerrou aos 22 do segundo tempo, quando El Diez deu seu toque de encantamento à noite. Maradona recebeu a bola já dentro da área. Esticou a canhota para amansar a bola com toda a categoria. Fillol já crescia para fechar o ângulo do atacante, mas um remelexo bastou para deixar o melhor goleiro do mundo a seus pés. O craque cortou para a direita, fazendo Pato rastejar. E com a meta aberta, quando Tarantini tentava evitar o tento com as mãos, o xeneize bateu no canto. Na disparada durante a comemoração, nem mesmo o fotógrafo conseguiu pegá-lo. Seriam ainda mais três tentos de Diego no dérbi, todos nesta primeira passagem.

Norberto Alonso, 1986

O Boca Juniors atravessou sua mais incômoda seca nos anos 1980. E mais doloroso era ver o brilho do River Plate. Norberto Alonso é sinônimo desta era, um dos grandes xodós da torcida millonaria. O talentosíssimo camisa 10, cria da base, fez parte dos feitos a partir dos anos 1970. Após se desentender com a diretoria, teve uma rápida passagem pelo Olympique de Marseille, mas retornou para liderar o time ainda na década de 1970. E o veterano seria uma das referências no grupo que faturou o Argentino em 1985/86. O clássico inesquecível aconteceu em abril. Com a taça já garantida rodadas antes, o River resolveu dar uma volta olímpica na Bombonera só para provocar os anfitriões. O trajeto, realizado antes do jogo, sequer pôde ser completado por conta dos objetos arremessados em campo. E quando o duelo se iniciou, foi usada uma bola laranja, pedido do veterano goleiro Hugo Gatti para que a pelota se diferenciasse em meio aos costumeiros rolos de papel no gramado. Beto Alonso começou a decidir no primeiro tempo, em cabeçada indefensável. Mesmo com um jogador expulso, os millonarios se seguraram, em tarde inspirada do goleiro Nery Pumpido. E a cinco minutos do fim, o meia botou a canhota para funcionar, em cobrança de falta que desviou na barreira e fechou a conta.

Antonio Alzamendi, 1986

Além das conquistas no Campeonato Argentino, o River Plate também faturou sua primeira Libertadores em 1986. E isso depois de despacharem os rivais durante a fase de grupos, em uma época na qual apenas o líder avançava ao triangular semifinal. A chave era difícil, também contando com os uruguaios Montevideo Wanderers e Peñarol. Os millonarios empataram o jogo na Bombonera e, na última rodada, realizada em agosto daquele ano, reencontraram os compatriotas com a classificação já assegurada. A vitória serviu para deixar em evidência Antonio Alzamendi, autor do gol que assegurou o 1 a 0 no placar e uma das grandes figuras na campanha continental. O uruguaio foi eleito o melhor jogador sul-americano de 1986 e também anotou o tento do título no Mundial Interclubes, diante do Steaua Bucareste.

Diego Latorre, 1991

O Boca Juniors começou a recobrar seu orgulho principalmente no início da década de 1990. Para tanto, os xeneizes formaram uma das duplas de ataque mais aclamadas de sua história. Gabriel Batistuta se tornou mais aclamado, mas na época quem costumava chamar a responsabilidade era Diego Latorre, um jogador capaz de produzir fascínio com seu refinamento técnico. Gambetita tinha anotado um dos gols mais bonitos do superclássico em março de 1991, em bomba que definiu a vitória por 1 a 0 na Bombonera, pelo Campeonato Argentino. Sua grande noite, todavia, ocorreu pela Libertadores do mesmo ano. Boca e River estavam no mesmo grupo. E a peleja na Bombonera guardou uma daquelas insanidades: 4 a 3, com os bosteros tirando uma diferença de dois gols. Latorre manteve o time vivo no primeiro tempo. E fez o gol do triunfo épico aos 42 do segundo tempo, com um plástico voleio. No reencontro pelo torneio continental, em Núñez, Batistuta assinalou os dois gols, mas foi seu companheiro que recebeu a melhor nota segundo a revista El Gráfico.

Enzo Francescoli, 1994

Apesar de sua história irreparável no River Plate, Enzo Francescoli não possui tantos gols assim no superclássico. São apenas quatro pelo Campeonato Argentino, todos cobrando pênalti. O mais bonito não rendeu a classificação ao River Plate na Supercopa da Libertadores de 1994, mas certamente entra na galeria de momentos no qual o Príncipe fez sua torcida sonhar. Os rivais se pegavam pelas quartas de final do antigo torneio da Conmebol. Após o empate por 0 a 0 em Núñez, Luis Carranza abriu o placar no primeiro tempo em La Boca. E, durante a segunda etapa, a categoria do uruguaio escancarou. Em uma cobrança de falta na entrada da área, ele botou a bola exatamente no ângulo de Navarro Montoya. Diante da torcida atônita, festejou com o setor visitante. A igualdade prevaleceu e a definição seguiu aos pênaltis. Na marca da cal, Navarro Montoya pegou uma das cobranças dos visitantes e botou os boquenses nas semifinais.

Ariel Ortega, 1994

Algumas atuações na casa dos rivais parecem dar mais valor às vitórias no superclássico. Uma sensação que o River Plate experimentou plenamente em dezembro de 1994. Na edição anterior do Clausura, em abril, os millonarios já haviam frustrado a Bombonera. Ortega e Crespo anotaram os gols no triunfo por 2 a 0 – em partida que se tornou importante para o meia ser convocado à Copa de 1994. Pois o chocolate se tornaria maior no Apertura de 1994, que terminou com a taça em Núñez. Francescoli e Gallardo anotaram os seus, cobrando pênalti. Já o lance mais bonito foi de Ortega, que dominou livre na entrada da área e bateu com muita categoria para estufar as redes. O resultado praticamente garantiu o título aos visitantes, em sua única conquista invicta na liga. Inegável talento, apesar de seus episódios de indisciplina, o Burrito faria ainda mais dois gols contra os boquenses em partidas oficiais. Sua atuação mais lembrada veio em 2007, quando marcou de pênalti, mas deslumbrou mesmo por seus dribles e seus passes magistrais para comandar o passeio.

Claudio Caniggia, 1996

De janeiro de 1995 a setembro de 1999, o Boca Juniors não perdeu um clássico sequer ante o River Plate pelo Campeonato Argentino. Venceu seis compromissos e empatou outros três, mesmo que do outro lado os millonarios contassem com alguns dos maiores craques de sua história. E o triunfo mais elástico desses aconteceu em julho de 1996, semanas depois do segundo título continental dos alvirrubros. Na Bombonera, os xeneizes mostraram quem mandava. Golearam por 4 a 1, sendo que o gol dos visitantes só saiu no fim. Basualdo abriu o placar no primeiro tempo, enquanto a grande figura foi Claudio Paul Caniggia. El Pájaro anotou uma tripleta, exibindo o melhor de sua intensidade, ao lado do amigo Maradona. Foi naquela ocasião, inclusive, que se eternizou o famoso beijo entre os companheiros. O momento aconteceu após o tento de Basualdo, que nasceu em uma trivela de Diego, antes que o atacante fizesse o cruzamento para a conclusão.

Celso Ayala, 1997

Se o River Plate encarou um longo inverno sem triunfar no superclássico, teve as suas alegrias tortuosas. E uma delas aconteceu em março de 1997, na sexta rodada do Torneio Clausura, que o clube acabaria vencendo. O Monumental de Núñez parecia ver uma hecatombe. Gabriel Cedrés abriu o placar para o Boca Juniors e Sergio Daniel Martínez anotou mais dois tentos, ampliando a diferença aos xeneizes. Até dava para ser mais, considerando um pênalti defendido por Roberto Bonano. A reação do River começou pouco antes do intervalo, com Sergio Berti. A situação parecia pior no início do segundo tempo, quando Eduardo Berizzo tomou um cartão amarelo tolo e deixou os anfitriões com um a menos. Pois a esperança resistia. Aos 32, graças a uma finalização por cobertura, o substituto Sergio Villalba colocou os millonarios a um tento do milagre. Consumado aos 42, em uma cabeçada fulminante do zagueiro Celso Ayala. Na comemoração, todos pularam por cima do beque, incluindo os gandulas. O zagueiro paraguaio foi um dos emblemas da era vitoriosa dos alvirrubros na virada do século. Com um gol que transformou o vislumbrado vexame em épico.

Martin Palermo, 1997

Palermo nunca se cansou de anotar gols contra o River Plate. Foram nove, segundo maior artilheiro do Boca Juniors no superclássico e quarto no geral. O primeiro aconteceu pouco após sua chegada, em outubro de 1997, em duelo com ares de surrealismo na Bombonera. A começar que aquela foi a despedida de Diego Maradona do futebol. Durante o intervalo, pediu para ser substituído, com o amigo Claudio Caniggia entrando em seu lugar – embora algumas versões mais líricas, porém inverídicas, apontem para Riquelme, que de fato participou do embate. Os visitantes venciam por 1 a 0, tento de Sergio Berti, quando César Toresani empatou no início da etapa complementar. A aparição mítica de Palermo aconteceu aos 22, em sua especialidade, as cabeçadas, concluindo às redes – em lance até hoje contestado pelos oponentes, por uma obstrução de Jorge Bermúdez sobre o goleiro Germán Burgos. Um marco na trajetória de tantas conquistas e muitas comemorações do matador. Seu último tento contra os alvirrubros, aliás, foi tão famoso quanto: definiu a vitória por 2 a 0 em maio de 2011, dando seu empurrão ao rebaixamento dos rivais. Aquela partida ainda ficou marcada pela saída intempestiva de Matías Almeyda aos vestiários, após ser expulso, gesticulando para a torcida na Bombonera.

Pablo Aimar, 1999

O sufocante jejum do River Plate no clássico caiu em outubro de 1999. Pelo Torneio Apertura, que seria vencido pelo clube após dois títulos consecutivos do Boca, os millonarios encerraram a seca de quase cinco anos ante os rivais. Eram nove jogos em branco, isso sem contar os nove anos sem comemorar o dérbi em Núñez. Triunfo por 2 a 0, requintado especialmente pelos golaços que fizeram a torcida explodir ainda mais no Monumental. Maestro dos alvirrubros naqueles tempos, Pablo Aimar foi o primeiro a oferecer seu luxo. Matou no peito e acertou um chute espetacular, encobrindo Córdoba. Na segunda etapa, Juan Pablo Ángel não ficaria tão atrás. Recebeu na entrada da área e bateu de chapa, de primeira, no cantinho do paredão colombiano.

Juan Román Riquelme, 2000

No último ano do século, um dos maiores superclássicos de todos. Boca Juniors e River Plate se enfrentaram pelas quartas de final da Copa Libertadores. A vitória por 2 a 1 na ida, dentro do Monumental, alimentou certas esperanças nos millonarios. Todavia, o Boca também provava o seu talento naquele momento, especialmente por contar com a ascensão de Riquelme. O camisa 10 já havia carregado os boquenses em Núñez, encabeçando as melhores jogadas e anotando o gol em uma cobrança de falta magistral. Seu recital, de qualquer forma, ficou reservado à Bombonera. O gol de Román naquela noite é comum, uma cobrança de pênalti. O que não é nem um pouco comum é a forma como o craque jogou. Arrebentou com a defesa adversária, entre suas quebras de ritmo, seus dribles e seus passes desconcertantes. Participou dos outros dois tentos, com o cruzamento para Marcelo Delgado e a construção ao ‘muletazo’ de Martín Palermo, que mal se recuperara de uma lesão grave no joelho e foi a campo. O lance mais lembrado de Riquelme, em contrapartida, é uma caneta impressionante em cima de Mario Yepes. De costas, puxa a bola por entre as pernas do colombiano, que sequer entende o lance. A magia que diz muito mais sobre o clássico. E que culminaria na reconquista continental, após 22 anos de espera.

* Fica o agradecimento ao amigo Caio Brandão, pela ajuda com alguns retoques no texto

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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