Argentina

Gallardo, enfim, preenche a lacuna em sua estante: O River Plate é campeão argentino, numa campanha insaciável

O River Plate sobrou nesta edição do Campeonato Argentino e festejou o título quatro rodadas antes do fim

Marcelo Gallardo completou sete anos à frente do River Plate no último mês de junho. O antigo ídolo no meio-campo se transformou no maior vencedor da casamata millonaria – com duas Libertadores, uma Copa Sul-Americana e três Copas Argentinas, isso sem contar as seis supercopas nacionais ou internacionais que enfileirou. A galeria de troféus do comandante, ainda assim, tinha uma lacuna: o Campeonato Argentino. E depois de 356 partidas com o técnico, 192 delas pela liga nacional, o Monumental de Núñez vibra com a reconquista do título – e, principalmente, fica feliz por ver Gallardo completar sua coleção. Foi uma campanha condizente com a força dos millonarios nos últimos anos, com liderança absoluta. Não à toa, a vitória incontestável por 4 a 0 sobre o Racing garantiu a comemoração com quatro rodadas de antecipação. São 52 pontos, 12 de vantagem, com um aproveitamento de 78%.

O River Plate tinha conquistado o Campeonato Argentino pela última vez em 2013/14. Aquele título possuía um grande valor simbólico, ao acontecer apenas dois anos depois da passagem pela segunda divisão. Ramón Díaz, comandante histórico dos millonarios nos anos 1990, retornou para reconduzir o clube ao topo do país. E saiu em alta, logo depois da festa, para que Gallardo o substituísse. Muñeco foi essencial para expandir novamente as fronteiras do River, com um período de sucessos na Copa Libertadores nunca antes experimentado e de quebra ainda uma conquista na Copa Sul-Americana. Porém, se a força dos millonarios nos momentos decisivos era expressa nos mata-matas, nem sempre se via regularidade nos pontos corridos.

A primeira tentativa de Gallardo aconteceu em 2014, numa edição do Campeonato Argentino que durou apenas um semestre. Acabou com o vice, superado pelo Racing, diante de uma derrocada na reta final. Os millonarios fariam campanhas de meio de tabela em 2015 e 2016, antes de mais um vice em 2016/17, mas bem abaixo do campeão Boca Juniors. Ver os rivais repetindo os títulos na liga, aliás, era um incômodo quando os xeneizes tinham equipes tecnicamente inferiores.

Após dois desempenhos mornos em 2017/18 e 2018/19, a maior frustração do River aconteceu em 2019/20. Foi aquela campanha perdida na rodada final, com um tropeço diante do Atlético Tucumán, enquanto o Boca batia o Gimnasia de La Plata treinado por Diego Maradona e via as arquibancadas da Bombonera pulsando pouco antes do fechamento dos estádios por conta da pandemia. Neste momento, com Gallardo já consagrado no continente, os insucessos seguidos na competição nacional até pareciam uma sina.

A paralisação do futebol na Argentina criou um vazio na liga nacional, com os buracos preenchidos por competições ocasionais. Somente no último mês de julho é que realmente se iniciou a nova edição do Campeonato Argentino, encaixada ao longo do semestre, para ver quem sucederia aquele Boca campeão diante de Maradona no trono da competição. As vendas sucessivas de jogadores viram um River Plate enfraquecido para a Libertadores em 2021. Em compensação, surgiu a versão mais regular do time de Gallardo no campeonato nacional. Vários garotos da base estouraram nessa campanha soberana e ajudaram muito.

O começo da caminhada do River Plate no Campeonato Argentino de 2021 até gerou algumas desconfianças. Foram duas derrotas, para Colón e Godoy Cruz, nas duas primeiras rodadas. Mas os vacilos pararam por aí. A partir de agosto, os millonarios iniciaram uma série invicta que não se interrompeu desde então. Curiosamente, uma ascensão que ocorreu exatamente na sequência da dolorosa eliminação para o Atlético Mineiro na Copa Libertadores. Gallardo conseguiu transformar, nos vestiários, a frustração continental em desejo por uma taça diferente. E talvez esse seja o grande mérito de seu trabalho nesses sete anos: como soube reinventar o River várias vezes, sem nunca perder a ambição pelo máximo.

Um momento decisivo da campanha aconteceu em outubro. O River Plate encarou jogos bem importantes ao longo daquele mês. Primeiro, com os 2 a 1 sobre o Boca Juniors na Bombonera, em que os rivais mal viram a cor da bola. Exatamente aquele triunfo alçou os millonarios à liderança. Três rodadas depois, aconteceu o confronto direto com o Talleres no Monumental. E a certeza de que a taça ficava mais perto aconteceu com a vitória por 2 a 0, conquistada com uma grande atuação mesmo depois da expulsão ocorrida aos sete minutos. Gallardo teve clara influência pela maneira como armou o time com dez homens sem sequer fazer alterações e manteve a alta capacidade contra os vice-líderes.

A partir de então, as rodadas passaram a fazer parte de uma contagem regressiva ao River Plate. O empate com o Estudiantes até interrompeu a série de oito vitórias consecutivas, mas logo vieram a goleada sobre o Patronato antes da Data Fifa e o triunfo sobre o Platense na retomada da competição. Já se passavam 16 compromissos sem perder. E, para abrir um pouco mais o caminho, os próprios concorrentes oscilavam na competição. Com a derrota do Talleres na rodada deste meio de semana, um empate contra o Racing bastava nesta quinta. No entanto, o River de Gallardo não é um time que joga pelo empate.

O Monumental se enfeitou para uma noite especial, de gala. E, antes que a bola rolasse, os jogadores ainda fizeram uma bonita homenagem se posicionando para formar o número “10” no círculo central, em tributo ao primeiro ano do adeus a Maradona. Depois de primeiros minutos em que o Racing até tentou se engraçar, o River Plate tomaria o domínio completo do jogo na primeira etapa. Pressionava muito e criava oportunidades, até que o gol saísse aos 32 minutos. Enzo Fernández fez grande jogada individual pela intermediária e, quando a marcação pressionou, a bola espirrou na área para Agustín Palavecino. O meio-campista tocou por baixo do goleiro e deu motivos para que a festa se iniciasse nas arquibancadas de Núñez. Pela maneira como os millonarios se impunham, era impossível imaginar uma reviravolta.

E o segundo tempo serviu para terminar de consagrar o River Plate como um campeão sem adversários. Logo aos três minutos, os millonarios ampliaram. Foi mais uma tentativa de Palavecino que sobrou para Julián Álvarez, grande artilheiro da campanha, guardar. A superioridade dos anfitriões era clara e rolou bola na trave, até que o terceiro dimensionasse melhor o passeio em campo aos 23. O onipresente Palavecino agora serviria Braian Romero, tocando na saída de Gabriel Arias.

O quarto surgiria aos 32, de novo com Romero, a partir de uma pressão do ataque que gerou o desarme – e que enfatiza o espírito competitivo desta equipe. O River trabalhava a bola e ouvia a torcida gritar olé, enquanto a festa garantia que vários jogadores tivessem seus nomes gritados. A corrida do relógio até os 90 minutos era mero protocolo. A espera pelo apito final seria relativamente longa, diante do jogo resolvido, e desencadeou uma explosão tão sonhada em Núñez.

Dentro de campo, a grande figura do River Plate é Julián Álvarez. O atacante de 21 anos virou a referência dos millonarios e empilhou gols a cada rodada. Foram 17 tentos do artilheiro, além de seis assistências, ampliando a fama conhecida desde as categorias de base. Os pratas da casa, aliás, marcaram essa campanha positivamente. Outros nomes como Santiago Simón e Enzo Fernández foram gratas surpresas, não apenas por se firmarem na equipe, mas até por ganharem convocações à seleção argentina para treinar com o elenco de Lionel Scaloni.

Trazido do Defensa y Justicia após liderar o título da Copa Sul-Americana em 2020, Braian Romero foi outro que fez a diferença no ataque, enquanto Agustín Palavecino cresceu muito neste segundo semestre, após ser contratado junto ao Deportivo Cali. Sua atuação na decisão contra o Racing se tornou a cereja do bolo. Obviamente, figurinhas carimbadas de outras conquistas também têm seu papel central neste River Plate campeão argentino. Franco Armani, Milton Casco e Enzo Pérez dão motivos um pouco maiores para figurarem em lugares privilegiados nas listas de ídolos do clube.

E a noite no Monumental de Núñez seria particularmente especial a Leonardo Ponzio, este já com status de lenda. O capitão chegou ainda na segundona, em 2012, e protagonizou a reconstrução do River Plate até as conquistas da Libertadores. O veterano perdeu espaço com o tempo, mas seguiu como uma figura muito influente nos vestiários e uma liderança expressa no banco de reservas. Aos 39 anos, essa será a última temporada do camisa 23. No meio do segundo tempo, Gallardo o substituiu para que recebesse uma enorme ovação dos torcedores, digna do que representa ao clube. Agora, torna-se o indivíduo com mais títulos na história millonaria, igualando as 16 taças do mítico Ángel Labruna, que soma os períodos de jogador e treinador.

O River Plate chega aos 37 títulos na história do Campeonato Argentino. Volta a abrir vantagem sobre o Boca Juniors, que vem de uma década mais vitoriosa nacionalmente e se aproximou nos últimos anos com 34 taças. Mais importante é a maneira como esse troféu parece complementar um ciclo. E também corresponde a mais uma reconstrução, desta vez centrada nas categorias de base. A história se cumpre de uma maneira indiscutível para Gallardo e seus comandados.

O que a torcida do River Plate não quer é que esse título represente o fim de tal ciclo. Gallardo tem contrato até o fim do ano e seu nome é cada vez mais cotado fora do país. A seleção uruguaia tenta convencer o treinador, que já tinha sido campeão da liga vizinha com o Nacional, enquanto uma chance na Europa soa natural por aquilo que o comandante construiu. Fato é que, com o fim agora ou não, a história de Gallardo está eternizada um pouco mais em Núñez. E essa conquista do Campeonato Argentino oferece um sabor especial, pela maneira como ela recompensa o passado, assim como por poder encerrar com chave de ouro a trajetória do técnico. Nada mais bonito que uma coroação no Monumental lotado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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