‘Nunca mais’: Futebol argentino dá aula ao Brasil nos 50 anos do golpe militar
Feriado no país vizinho, dia 24 de março deixa claro que clubes argentinos não abriram mão de seu compromisso social
Há 50 anos, um golpe de Estado mergulhava a Argentina em um dos períodos mais sombrios de sua história. Cinco décadas depois, as cicatrizes da ditadura militar argentina continuam abertas na memória coletiva do país. Entre 1976 e 1983, o regime deixou milhares de mortos e cerca de 30 mil desaparecidos, famílias dilaceradas e uma sociedade marcada pelo medo e pelo silêncio.
Cinco décadas depois, o país hermano segue relembrando esse período trágico de sua história. O feriado de 24 de março é marcado por atos de memória e protesto contra a ditadura, além de homenagens aos desaparecidos durante o regime autoritário.
Os clubes de futebol, como parte importante da vida social e política do país, também fazem questão de lembrar a data. Nas redes sociais, as equipes publicam mensagens em homenagem a memória das vítimas e, dentro de campo, promovem atos simbólicos durante os jogos da rodada do Campeonato Argentino.
Ditadura Militar: Um laço obscuro que une Brasil e Argentina
O período vivido pelos argentinos foi compartilhado por diversos na América do Sul, em períodos quase que simultâneos. O próprio Brasil atravessou uma experiência semelhante. Enquanto os hermanos enfrentavam o terror da repressão, os brasileiros também lutavam para recuperar sua democracia, em um regime que se estendeu de 1964 a 1985.
Há, no entanto, diferenças marcantes na forma como cada país lida com a memória desse passado doloroso. Na Argentina, o dia 24 de março é amplamente reconhecido como um dia de luta, memória e reafirmação democrática. No Brasil, as datas de 31 de março e 1º de abril, que marcam o início da ditadura militar, raramente mobilizam o mesmo tipo de reflexão coletiva. Essa distância também se apresenta no futebol, um dos espaços mais representativos da cultura popular nos dois países.
Em 2025, por exemplo, 28 dos 30 clubes da primeira divisão argentina publicaram ao menos uma mensagem sobre a ditadura e em memória das vítimas daquele período sangrento. No Brasil, por outro lado, apenas seis dos 20 clubes da Série A se pronunciaram sobre o golpe de 1964. Tampouco são comuns, nos estádios brasileiros, atos simbólicos ou manifestações que recordem o período autoritário.
A comparação não serve para estabelecer uma disputa entre países, mas evidencia como a memória coletiva se constrói de formas distintas. Na Argentina, lembrar tornou-se parte de um compromisso democrático. No Brasil, um silêncio incômodo ainda parece ocupar espaço demais em uma história que também merece ser lembrada para nunca mais ser repetida.
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— Existe quase que um pacto social na Argentina pós-ditadura de que isso está errado. Isso não acontece no Brasil por diversas questões. Acredito que uma das mais fortes é que temos de uma forma muito tímida, para não dizer inexistente, de políticas públicas de memória — explicou Lívia Gonçalves Magalhães, doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora do livro “Com a Taça nas Mãos: Sociedade, Copa do Mundo e Ditadura no Brasil e na Argentina”, em entrevista à Trivela no ano passado.
Diferentemente do que ocorre na Argentina, falar sobre o golpe de Estado no Brasil ainda é um tema sensível e frequentemente cercado de controvérsias. O debate costuma ser interpretado como parte de uma agenda partidário-ideológica, o que faz com que muitas instituições adotem cautela ao se posicionar sobre o período. Entre elas estão também os clubes de futebol, que raramente se manifestam publicamente sobre temas sensíveis envolvendo o espectro político, justamente como a ditadura militar.
Nesse contexto, a memória dos anos de repressão e violência acaba aparecendo com menos força no debate público. Com poucas vozes institucionais dispostas a abordar o tema, recordar aquele período ainda parece, para muitos, um terreno delicado no país.
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Clubes se posicionam em data que marca 50 anos da Ditadura Militar
Em 2026, data que marca os 50 anos da Ditadura Argentina, novamente clubes importantes do país se manifestaram. O San Lorenzo, por exemplo, trouxe história de familiares de torcedores do Ciclón que desapareceram no período.
— Eles estão presentes. Nos corações de seus entes queridos. Em sonhos que não desistem. E a cada gol do seu amado San Lorenzo, esse abraço que se multiplica ao infinito. Cinquenta anos após o último golpe cívico-militar, os familiares de Osvaldo Balbi, Carlos Horacio Vivas, José Orlando e Luis Zukerfeld, todos torcedores do San Lorenzo que desapareceram durante aqueles anos sombrios e sangrentos, gritaram “presente!” em um lugar muito especial: a arquibancada que os une para sempre. Obrigado por compartilhar! Memória, Verdade e Justiça — escreveu o clube.
Já o Boca Juniors, um dos clubes com mais torcedores na Argentina, também deixou sua mensagem, reforçando os números de desaparecidos e reafirmando o seu compromisso em não deixar cair no esquecimento esse momento tão cruel.
— O Boca Juniors reafirma seu compromisso em manter viva a memória das 30.000 pessoas desaparecidas durante a última ditadura militar na Argentina. 50 anos após o golpe cívico-militar, dizemos #NuncaMás — escreveu.
Rival do Boca Juniors, o River Plate também se fez presente. O clube de Núñez, assim como o adversário, deixou uma mensagem reafirmando seu compromisso histórico, com o mote que ficou famoso contra a ditadura: “nunca mais”:
— Cinquenta anos após o início da última ditadura militar, o River não se esquece e reafirma seu compromisso histórico com a Memória, a Verdade e a Justiça. Em homenagem aos 30.000 desaparecidos. Nunca mais — afirmou.
Além dos clubes citados, outros 26, dos 30 que disputam a elite do futebol argentino, publicaram mensagens em suas redes sociais reforçando a importância que o dia possui no país. Até a publicação dessa reportagem, apenas o Gimnasia y Esgrima de La Plata não havia feito qualquer menção à data.