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Em sete anos, o River Plate caminhou da frustração pelo descenso à maior afirmação de sua força

Sozinho na poltrona de sua casa, sentado diante da televisão, Tano Pasman se tornou símbolo de um River Plate desesperado. O senhor tresloucado, soltando os cachorros imaginários aos algozes de seu clube de coração (por sinal, os próprios jogadores millonarios), virou a face principal da instituição que despencava à segundona pela primeira vez. Afinal, o drama do descenso não se conta pela apatia daqueles que fracassam em campo. Ele é escrito por aqueles que veem sua paixão jogada no chão, e não medem esforços para reerguê-la. Sete anos depois, Tano Pasman é apenas uma memória cômica do passado que o Monumental não espera reviver. E diante da televisão, na mesma poltrona surrada, de certo o fanáticos não poupou impropérios para comemorar o segundo título na Libertadores desde então.

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O River Plate que ascendeu em 2012 pautou-se em velhos heróis. Fernando Cavenaghi e David Trezeguet transformaram-se em lideranças para a promoção. Mas aquele elenco também forjaria caráter ao que se enfrentaria depois, não apenas por alguns garotos que despontavam. Lá estava Leonardo Ponzio, meio-campista com mercado na Europa, mas que preferiu abrir mão de outras ofertas para redimir os millonarios em suas penúrias. Lá estava Jonathan Maidana, o defensor com passado xeneize, que não se furtou a gritar na cara dos rivais ao anotar um gol no superclássico meses antes. Seriam eles dois nomes inescapáveis na transição que se viveu nesta década.

Matías Almeyda, um dos mais apaixonados pela banda roja, dirigiu o River Plate na segundona e conquistou o acesso. Abriu caminho a Ramón Díaz, o velho ídolo ornado tal qual um Dom Sebastião. O técnico campeão continental em 1996 retornou a Núñez para recobrar a grandeza dos millonarios. Assim o fez, conquistando o Clausura do Campeonato Argentino em 2014. O embrião se fortalecia, com novos medalhões e outras promessas se destacando. Maidana e Ponzio, ainda, onipresentes no grupo que voltava a ambicionar grandes feitos. O ciclo só estaria completo, porém, quando o clube pudesse se reafirmar como um gigante continental. Quando a Libertadores ressurgisse no horizonte.

Ramón Díaz passou o bastão na metade daquele ano de Copa do Mundo. O cargo ficou a Marcelo Gallardo, o ídolo incontestável que aparecia como um treinador promissor, já campeão uruguaio com o Nacional. O ex-meia tinha uma engrenagem pronta, seu papel seria aperfeiçoá-la. E o futuro pareceu brilhante quando, em dezembro, o River Plate faturou a Copa Sul-Americana em cima do Atlético Nacional. Um prólogo ao que se deu na Libertadores 2015. O episódio deplorável contra o Boca Juniors na Bombonera acaba sendo o mais lembrado, mas os méritos na campanha foram amplos, desde a classificação sofrida na fase de grupos às vitórias contundentes nos mata-matas – o que se repetiu em cada uma das etapas, contra Cruzeiro, Guaraní e Tigres, além do próprio Boca. A taça estava em boas mãos, rompendo um jejum de 19 anos em Núñez.

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O River Plate campeão continental em 2015 tinha alguns traços da nova conquista que se repete em 2018. Maidana e Ponzio eram titulares absolutos desde então. Rodrigo Mora e Camilo Mayada também deslanchavam, embora tenham perdido espaço no time, limitados pelas lesões. Já no banco de reservas, a camisa 10 recaía sobre as costas de Pity Martínez, recém-trazido do Huracán. No mais, uma série de veteranos que rechearam aquela campanha ou de jogadores que não demoraram a tentar a carreira no exterior. Heróis como Marcelo Barovero, Carlos Sánchez, Matías Kranevitter, Lucas Alario e Fernando Cavenaghi, que hoje não passam de retratos na parede.

O hiato entre um título e outro do River Plate, no entanto, também guardou as suas provações. As campanhas insatisfatórias no Campeonato Argentino, vendo de longe o Boca Juniors faturar o bi, enquanto a Copa Argentina era o que restava aos millonarios. Ou mesmo as duas eliminações frustrantes nas duas Libertadores anteriores. Em 2016, o pequenino Independiente del Valle cometeu o crime, muito graças aos milagres do goleiro Daniel Azcona. Já em 2017, depois da reação gigantesca contra o Jorge Wilstermann, o peito esfriou nas semifinais ante o Lanús – quando o VAR pode ter atrapalhado, mas não se nega a incompetência pela ampla vantagem desperdiçada.

Neste intervalo, outros jogadores badalados chegaram ao Monumental. Os millonarios buscaram talentos como Ignacio Scocco, Rafael Santos Borré, Javier Pinola e Enzo Pérez. O planejamento para se reforçar no meio da Libertadores 2017, rumo à fase final, não deu certo. E por isso mesmo o investimento para 2018 se tornou mais massivo, assim como antecipado. Lucas Pratto e Franco Armani representavam sonhos de consumo com preços elevados. A diretoria precisou desembolsar cerca de US$17 milhões pela dupla. De quebra, Juan Fernando Quintero trazia mais possibilidades ao meio-campo, emprestado junto ao Porto. E Bruno Zuculini era um nome tarimbado à faixa central do campo. Conjunto que se complementou com mais fornadas de promessas saídas diretamente das categorias de base. Desta vez, com todos os méritos pela descoberta de Exequiel Palacios, fenômeno que não precisou de tempo para se transformar em um dos donos do meio-campo.

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O entorno do River Plate na Libertadores é passível de questionamentos. Vários. O caso de doping na edição passada ainda deixa certas dúvidas. Na atual campanha, mais controvérsias e a sensação de que a força dos millonarios nos bastidores pesava bastante. A escalação irregular de Zuculini, a interferência de Gallardo nas semifinais, as punições relativamente brandas. Na decisão, por mais que o clube seja vítima ao não poder realizar o segundo jogo sequer no continente, também tem sua parcela de responsabilidade pelo entorno apodrecido das barras, em meandros que ainda precisam ser devidamente investigados pela polícia local – e sob os temores de terminar em pizza, como sempre. Mas, dentro de campo, apesar de tudo e com as reflexões que os entraves causam, a banda roja termina realmente como o melhor time da competição continental. Se as manchas não se apagam, outros aspectos também não podem ser sumariamente ignorados. É necessário ponderar.

Nos mata-matas, o River Plate derrubou outros gigantes. Fez grandes partidas contra Racing e Independiente, superou uma eliminatória que em certos momentos pareceu perdida contra o Grêmio. Já na decisão, ante o Boca Juniors, reverteu o cenário e até mesmo a própria história que acusava o apequenamento dos millonarios em meio à pressão pela glória. Sem poder decidir no Monumental, e mesmo tendo seus motivos para questionar a arbitragem desta vez, a equipe de Marcelo Gallardo conseguiu se impor no momento de maior angústia. Viu o futebol de qualidade técnica e trabalho coletivo preponderar.

E o investimento de todos estes anos se pagou. Afinal, opções não faltaram na finalíssima contra o Boca Juniors. A ausência de jogadores importantes, ou mesmo a apresentação ruim de alguns, se superou graças ao elenco. Coadjuvantes como Ignacio Fernández foram fundamentais. A base brilhou, com o toque de letra de Palacios. Quintero se tornou o craque de uma noite definitiva. E até Pratto, antes taxado como investimento exagerado ao demorar para render em Núñez, compensou cada centavo graças aos dois gols imensuráveis que anotou nos clássicos contra os xeneizes. A reação imediata na Bombonera e a resposta no Bernabéu dependeram do tal “centroavante que não faz gols”, que também beneficiou os companheiros, abrindo espaços ao conjunto forte demais.

Esta Libertadores nunca terá uma narrativa linear. Porque, mais do que nunca, os fatos terminam circunscritos pela visão de cada um em meio aos tumultos que se alongaram na competição. Foi uma grande edição do torneio continental? Se fosse possível olhar apenas para os aspectos esportivos, sem dúvidas. Mas isso termina contaminado por uma carga extracampo imensa, por conta da incompetência da Conmebol e de outras autoridades. De qualquer maneira, os paradoxos e os absurdos não interrompem a história absoluta: no fim das contas, o nome do time campeão que constará nos livros é o do River Plate. E da segunda divisão ao segundo título continental, da bola aos bastidores, há um enredo forte em Núñez. Um time que, apesar dos “poréns”, soma a isso os “mas também”. Que investiu e, independentemente da subjetividade sobre os imbróglios, jogou para ficar com a taça. A bola julgou nos 120 minutos de Madri e concedeu a justiça a quem a tratou melhor.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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