Argentina

Em meio à consternação pela covardia em Córdoba, as palavras do tio da vítima ecoam

Diante dos detalhes da história, é praticamente impossível não traçar um paralelo entre vida real e ficção. Uma das cenas mais marcantes do filme ‘O segredo dos seus olhos’ acontece dentro de um estádio de futebol. Durante um jogo entre Huracán e Racing, em Parque Patrícios, o protagonista encontra o autor do crime sobre o qual a trama gira em torno. Neste final de semana, no Estádio Mario Alberto Kempes, o enredo se repetiu em partes do clássico de Córdoba. Emanuel Balbo encontrou o homem que assassinou seu irmão de 14 anos, atropelado durante um racha. No entanto, a realidade foi muito mais cruel. Óscar Gómez, o acusado, afirmou a outros torcedores do Belgrano que Balbo seria um seguidor do rival Talleres, infiltrado no primeiro dérbi em 15 anos pela primeira divisão. O rapaz de 22 anos foi linchado por várias pessoas, antes de ser arremessado de um dos setores das tribunas. Nesta segunda, faleceu em decorrência das agressões.

A tragédia causou enorme consternação ao redor do mundo. Até mesmo Paulo Dybala e Diego Simeone, durante as coletivas de imprensa prévias aos compromissos pela Liga dos Campeões, manifestaram os seus pesares. Já o Belgrano ratificou sua predisposição à Justiça, prometendo atuar a fundo para que os responsáveis pelo crime sejam penalizados. Cinco pessoas foram detidas pela polícia de Córdoba, incluindo Gómez, que se entregou nesta segunda – embora afirme ser inocente e sua advogada chegue ao absurdo de declarar que “as imagens indicam um suicídio”.

A principal testemunha da barbárie, um amigo de Balbo, relata que o principal acusado perseguiu a vítima durante o intervalo. “A gente se cruzou antes do início da partida e Gómez insultou Emanuel. Não demos bola, fomos mais acima nas arquibancadas populares. Mas quando terminou o primeiro tempo, as pessoas se sentaram e vi que Gómez começou a procurar Emanuel. Para mim, o ataque foi premeditado. Estávamos parados e, de repente, Sapito voltou com vários homens. Começou a insultar Emanuel, a bater nele e aí foi tudo muito rápido. Não o vi mais e comecei a escutar as pessoas gritando que haviam jogado um torcedor”, relatou Luis Ortega, ao jornal Día a Día.

Já nas redes sociais, uma forte mensagem foi publicada por Enzo Merchs, tio de Emanuel Balbo, no domingo. Não apenas lamentou por seu sobrinho, mas também questionou os agressores e as testemunhas do assassinato. Palavras que ecoam neste momento:

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Não falo com a sua cabeça, falo com o seu coração

Olá… A você que olhou, insultou, cuspiu, acertou socos, chutes e bateu até mesmo com sua bandeira. A você que ouviu um tipo dizer que ele torcia para o Talleres e, sem conhecê-lo nem perguntar, despejou toda a sua violência e agiu seguramente sem pensar. Sabe o que? Você estava errado, maluco, você estava errado.

Emanuel ama o Belgrano tanto quanto você, seu pai, seu avô, seu primo ou seu melhor amigo. Conto a você, que não sabe a vida que está nos tirando, não sabe a pessoa maravilhosa que está levando. Gostaria que você tivesse a minha sorte, de conhecê-lo e compartilhar um dia com ele. Porque um dia seria suficiente para criar afeto por ele e, assim, você entenderia como nos sentimos hoje, vazios

A você que hoje se levantou contente ou insatisfeito pelo resultado, comeu o seu assado e desejou Feliz Páscoa aos seus, que sorte: nós não pudemos fazer isso. A você, peço que saiba e, sobretudo, entenda que está levando uma vida. Que carregou Kekito em suas costas e que em sua consciência está a dor de toda uma família.

Então, peço a você que nesta noite, quando se deitar na sua cama quentinha, enquanto não perdemos a fé na porta de um hospital, que pense e pergunte a si mesmo: o que fez, por que fez e o que sente com isso? Você se sente mais homem? Está satisfeito? Ou realmente sente como verdadeiramente você é? Eu não vou dizer, porque estou seguro que você sabe a resposta.

Peço a você que nos ajude, que fale, que conte o que viu ou quem viu. Por último, peço que façamos justiça juntos. Obrigado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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