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E se Maradona tivesse sido contratado pelo Palmeiras da Parmalat?

Esse texto foi enviado na newsletter da Trivela na última sexta-feira, que você pode assinar aqui. Faz parte de uma nova série, imaginando contratações especuladas que nunca foram concretizadas. Ela substitui a série Entidades Místicas, que já cumpriu o seu papel e pode ser lida aqui.

O Palmeiras vivia uma longa e incômoda fila quando a Parmalat se tornou a principal patrocinadora e uma espécie de mecenas do time do Parque Antártica, em 1992. A marca italiana tinha um grande projeto de marketing para entrar no mercado brasileiro e usaria o clube alviverde no Brasil e o Boca Juniors na Argentina. A ideia era trazer um grande craque para o time. Havia uma janela de oportunidade. Diego Maradona estava cumprindo a suspensão por doping no Napoli, onde já não vivia o melhor dos mundos. O projeto, então, era levá-lo para vestir o verde e branco do Palmeiras por uma temporada, antes de promover o seu retorno triunfal ao Boca Juniors, no ano seguinte. Ambos patrocinados pela Parmalat.

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O que definiu a vinda de Maradona ao Palmeiras foi a falta de confiança no Napoli em relação ao Sevilla. O time espanhol pediu prazo alto para pagar pelo argentino. O Napoli sabia que não dava para esperar. Maradona era uma bomba relógio e o pagamento a prazo era um risco. Os italianos exigiram o mesmo que o Palmeiras ofereceu à vista. O Sevilla não aceitou. O clube, então, pediu que Maradona fosse para o Palmeiras, pelo bem do clube. O Sevilla retirou a proposta, furioso. Só restou a Diego vir ao Palmeiras.

A sua chegada ao aeroporto foi bastante conturbada.Tentou agredir um repórter que perguntou a ele sobre o doping. Chegava aos treinos com um Porche 911, com charuto na boca. Era visto circulando em altas velocidades. Tomou multas, que o clube pagou. Os jogadores diziam que ele era um doce no trato, não tinha um comportamento de estrela. A competição que se aproximava era o Campeonato Paulista, que, naquele ano de 1992, seria disputado no segundo semestre. A Parmalat tinha ambições altas. Era preciso chegar bem ao torneio. A ideia era acabar com a fila.

A estreia de Maradona demorou. O Paulistão começou em julho, mas El Diez estava aprimorando a parte física. Ficou na Argentina antes de se apresentar em julho e começar a preparação. No dia 6 de setembro, Maradona entraria em campo. No Palestra Itália lotado, o camisa 10 fez o seu primeiro jogo contra a Inter de Limeira. O toque na bola era tão diferente que alguns palmeirenses presentes ao estádio não acreditavam no que viam. Em dois passes, deixou companheiros na cara do gol.

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O desempenho de Maradona era bom. Combinado com a inteligência de Evair, o time fazia bons jogos e muitos gols. Maradona só tinha dois gols, não conseguia jogar todas as partidas, mas dava um toque de classe que carregava o Palmeiras rumo à fase decisiva. No último jogo da primeira fase, aliás, o Palmeiras, com Maradona em grande tarde, passou como um trator pelo São Paulo, 4 a 0. O tricolor já tinha a primeira colocação garantida, então a desculpa era que o time estava desconcentrado. Veio a segunda e Palmeiras e São Paulo fizeram grandes campanhas, se garantindo na decisão. Maradona não marcava muitos gols, mas levava muito público ao estádio e fazia o Palmeiras ter grandes momentos em campo. A final, porém, acabou em uma desilusão para os alviverdes.

Entre os dois jogos da final, o São Paulo decidiria o Mundial de Clubes no Japão, contra o Barcelona. O Palmeiras queria o encontro no dia 6 de dezembro, o São Paulo no dia 4. O confronto foi no dia 5 e o São Paulo jogaria no Japão no dia 13. Veio o primeiro duelo e mais de 90 mil pessoas viram um jogaço. Cafu teve grande atuação, mas Maradona estava inspirado. Depois do São Paulo chegar a fazer 2 a 1, o craque comandou o time ao lado de Zinho e Evair e chegou a virar para 4 a 2. O São Paulo se recuperou e, graças a dois gols de Raí no final, arrancou um empate por 4 a 4.

Campeão no Japão, o São Paulo voltou mais cansado e o Palmeiras, com três semanas para se preparar, parecia que o Palmeiras chegaria como favorito. Foram mais de 110 mil pessoas no Morumbi para a partida. A empolgação tricolor pelo título no Japão resultou em um time ofensivo e o São Paulo marcou 2 a 0 rapidamente. Maradona, parecendo cansado, não conseguiu dar o ritmo que o time precisava. Foi Zinho, em uma partida monstruosa, que arrancou um gol, mas foi insuficiente. O título ficaria com o clube tricolor. Nem com Maradona o Palmeiras conseguia sair da fila e a pressão se tornou enorme.

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O ano de 1993 começou conturbado, mas a Parmalat não amenizou: tratou de contratar mais craques, formar um time ainda mais forte. Chegaram Edmundo, Edílson e Rivaldo, sendo que esses dois últimos acabaram ficando no banco. Maradona, pressionado, era criticado na imprensa pela sua forma física, pela sua inconstância. Os dois gols no Paulistão do ano anterior e a perda do título para o São Paulo eram um fracasso que pressionava muito o time.

A campanha foi arrasadora. Na primeira fase, o Palmeiras terminou em primeiro lugar com um pé nas costas e com um entendimento mágico entre Zinho, jogando mais recuado, Maradona, Edmundo e Evair. O time jogava tão fácil que nem o São Paulo de Telê Santana, carrasco no ano anterior, foi páreo. Aliás, foi atropelado pelos alviverdes. No primeiro jogo, no Morumbi, no dia 14 de março, 3 a 0. Maradona complicou a defesa são-paulina, Edmundo e Evair marcaram e César Sampaio, depois de tabelar com Maradona, também marcou. Depois, no dia 18 de abril, mais um atropelamento: 4 a 2 para os alviverdes, com Maradona marcando de falta.

Só que muito mais do que vencer o São Paulo com autoridade, o Palmeiras precisava de um título. E a decisão, desta vez, não seria contra o São Paulo. O rival seria o Corinthians, líder do Grupo B, na segunda fase. O dia 6 de junho de 1993 trazia uma enorme expectativa. Apesar do domínio do Palmeiras, foi o Corinthians que marcou o único gol da partida. Viola, aos 13 minutos, marcou o gol e provocou o adversário: ficou mexendo no nariz, provocando o camisa 10 adversário.

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O segundo jogo, porém, foi à forra. Zinho marcou o primeiro gol, em uma jogada rápida de tabela com o camisa 10. Depois, foi a vez de Maradona tabelar com Evair. O próprio Pibe marcou um golaço, arrancando com a bola, sem velocidade, mas com uma habilidade que lembrou a jogada da Copa de 1990, contra o Brasil. Os 3 a 0 levaram a partida à prorrogação.  Só que viriam mais. Veio o gol de falta de Maradona, 4 a 0, 1 a 0 na prorrogação. Depois, foi a vez de o argentino, carregando a bola, deixando os marcadores para trás, e oferecendo a bola para Edmundo marcar mais um. O 5 a 0 parecia pouco. Então veio mais um lance de Maradona, em uma cavadinha genial, que deixou Edmundo na cara do gol. Os corinthianos, irritados, derrubaram o camisa 7. Evair, com moral, foi para a cobrança de pênalti. Marcou o gol que deixou números históricos: 6 a 0 para o Palmeiras. Maradona consagrado. Seus quatro gols e 10 assistências deixaram a impressão do craque que nem precisa estar em seu auge para ser um dos melhores.

Evair, Edmundo e Zinho falaram muito bem de Maradona, dizendo que era muito fácil lidar com o craque em campo. Sempre se fala na inteligência do camisa 10, que deixava Edmundo e Evair em situações muito tranquilas para marcar gols. Maradona entrou para a história como o jogador que ajudou o Palmeiras a sair da fila formando um dos maiores times de todos os tempos com Edmundo, Zinho e Evair, o que é lembrado com carinho por todos os palmeirenses. O argentino deixou o clube para ir voltar ao Boca, onde encerraria a carreira. Para sempre, Maradona estará naquele 12 de junho de 1993 ao lado de Evair na foto que marca o primeiro de uma série de títulos que o Palmeiras ganharia.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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