ArgentinaLibertadores

Violência: Do Brasil à Argentina, nada muda

Futebol e violência convivem a cada rodada como se fizessem parte da mesma partida. Confrontos, tiros, feridos, mortes e… o esporte segue como eterno perdedor neste conflito deplorável, no qual vidas cessam por amor. Mas não é passional, quase sempre é doloso.

Nos últimos tempos têm sido bastante frequentes as editorias de Esportes e Polícia se misturarem numa convenção fatídica de incidentes corriqueiros. Não raro o leitor se perde entre os noticiários esportivos e policiais. O tema é pertinente e merece reflexão. Irônico é perceber que escrevo sobre os hermanos, mas parece tanto com o Brasil e demais países, sobretudo, na América Latina.

No último domingo, torcedores de barras bravas do Tigre – banda de Pacheco e La 13 – se confrontaram por questões internas e cerca de 100 tiros foram disparados, próximos ao Monumental de Núñez, saldo: 13 feridos, dois em estado grave. No mesmo dia, antes do clássico de Avellaneda – entre Independiente e Racing – torcedores dos dois clubes se encontraram e, consequentemente, paus e pedras ganharam asas. Não houve registro de feridos, o que não diminui o problema.

Semana passada um ônibus com futebolistas dos Excursionistas foi baleado por torcedores do El Porvenir, e um torcedor do Defensores de Belgrano pulou o alambrado e agrediu jogadores do próprio time dentro de campo. Há um mês o clássico rosarino foi cancelado 40 minutos antes do início por causa de confrontos entre torcedores do Newell’s Old Boys e policiais. O que dizer sobre a La 12? Poderia trazer inúmeros casos, mas não se faz necessário, o risco é iminente e certamente no próximo final de semana haverá um novo capítulo.

Aliás, há coisas que não mudam de um país para o outro, como presidentes de clubes, quando eleitos, vestirem a camisa das torcidas posando para fotos, clubes que financiam as torcidas e tiram o corpo fora quando são cobrados por tais atos, policiais e “seguranças” despreparados para lidares com pessoas e vândalos e as federações – nacionais e internacionais – que moldam seus regulamentos aos acontecidos, por conveniência. Tudo isso é vergonhoso e faz parte do conjunto.

Ademais, estou acostumado a ouvir que os barras bravas argentinos são perigosos, concordo. Mas como não achar os “torcedores organizados” igualmente perigosos? Não invadem clubes? Não agridem jogadores? Não matam torcedores rivais? Ou isso tudo apenas ocorre além-fronteira? Contudo, enquanto nós, brasileiros, fingimos que o que ocorre por aqui são tragédias esporádicas, nossos hermanos já entenderam que trata-se de um câncer social infelizmente comum. Eles ainda não conseguiram mudar o panorama, mas estão conscientes. Deveríamos perceber que aqui não é diferente e tentar combate-lo. Utópico, eu sei.

No Brasil, as discussões sobre “torcidas organizadas” e violência são pontuais. Atualmente, o foco do imbróglio está entre na punição ao Corinthians e veracidade do culpado da tragédia anunciada, que ocorreu na Bolívia. Enquanto os bolivianos choram a morte do jovem hincha do San José, em Oruro. Este não foi o primeiro capítulo, tampouco será o último. Mas além de punir os culpados para dar exemplos aos nativos, o Brasil precisa tratar o tema com seriedade por respeito a Bolívia. Diplomacia.

Não apenas por este fato, mas também por ele, nós, brasileiros, deveríamos rever nossos conceitos. Afinal, posamos de vítimas, mas igualmente “causamos” problemas. Isso não é particularidade de uma nação ou time. Idiotas têm em todos os lugares.

Voltando ao que interessa. Gostaria de um dia assistir a uma partida de futebol entre clubes brasileiros e argentinos na televisão e não ter de ouvir que os portenhos estão ali apenas para agredir. Assim como os torcedores do time x ou y só quer arrumar confusão. Por favor, menos preconceito, menos generalizações, menos exaltações desnecessárias.

Em suma, a violência no futebol não é uma peculiaridade portenha. Para ser correto: o futebol, sobretudo, na América Latina está doente, aliás, está cansado de perder. “A Argentina não é um país sério”. Já escutei isso mais de uma vez, inclusive de amigos portenhos. Triste constatação. Mas sinto informá-los que isso não é só na Argentina.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo