Depois de derrubar gigantes, o modesto Patronato vive o maior momento de sua história com o título da Copa Argentina
O Patronato é um clube de parca relevância na elite argentina, mas eliminou Boca Juniors e River Plate antes de consumar a conquista diante do Talleres
A campanha fantástica do Patronato na Copa Argentina merecia ser premiada com um lugar de destaque na história da competição. E a façanha terminou de se consumar neste domingo, quando o Patrón se consagrou como campeão do torneio, ao derrotar por 1 a 0 o Talleres na decisão realizada em Mendoza. Os rojinegros fizeram uma campanha digna de “mata gigantes”, com as classificações sobre o River Plate nas quartas de final e o Boca Juniors nas semifinais. Por fim, não seriam os cordobeses que freariam as pretensões do representante da província de Entre Ríos, no maior feito de sua história. Mesmo rebaixado no Campeonato Argentino por causa do promédio, o Patronato ganha o direito de disputar a Libertadores pela primeira vez. O time ainda vai encarar o Boca Juniors na Supercopa Argentina, que será realizada em Abu Dhabi.
O Patronato é um clube de relevância regional na Argentina e poucos momentos de destaque no cenário nacional. Fundado em 1914 na cidade de Paraná, capital da província de Entre Ríos, o Patrón passou as primeiras décadas de sua existência como um multicampeão da Liga Paranaense de Futebol. Somente nos anos 1970, com uma abertura maior do Campeonato Argentino aos rincões do país, é que o Patrón fez sua estreia na elite nacional. Seria uma aparição esparsa em 1978. Limitado às divisões de acesso a partir da integração da liga, o time galgou degraus principalmente a partir de 2010, quando alcançou a segunda divisão. Já a reestreia na elite se deu em 2016.
Foram sete temporadas consecutivas do Patronato na primeira divisão do Campeonato Argentino. Os rojinegros permaneceram como modestos figurantes na metade para baixo da tabela. Chegaram a escapar do descenso na última rodada em 2018/19, enquanto a suspensão do rebaixamento nos dois anos seguintes, por causa da pandemia, aliviou os riscos. O Campeonato Argentino de 2022 contaria exatamente com a melhor forma do Patrón desde então, numa honrosa décima colocação, em campanha na qual o time só fez 12 pontos a menos que o campeão Boca Juniors. Porém, os resultados ruins acumulados culminaram no rebaixamento através do promédio, que leva em consideração a somatória dos últimos três anos, inclusive da Copa da Liga – na qual a equipe não foi bem.
Nesta batalha pela permanência, um momento importante para a união do elenco do Patronato aconteceu em julho, pelo próprio Campeonato Argentino. O Patrón enfrentava o Barracas Central e foi severamente prejudicado pela arbitragem, mesmo com a utilização do VAR – em mais um episódio de favorecimento ao Barracas, de intrínseca ligação com Chiqui Tapia, presente da AFA. Ao final da derrota, os jogadores do Patronato entraram em confronto com a polícia e cinco jogadores acabaram detidos. Na partida seguinte, em resposta, os rojinegros derrotaram o Boca Juniors por 3 a 0. Desde então, em 21 partidas, a equipe somou 11 vitórias e apenas cinco derrotas por todas as competições.
Quando a queda se consumou no Campeonato Argentino, o Patronato já fazia uma campanha marcante na Copa Argentina. A equipe não baixaria a guarda e até aproveitaria o embalo final que se viu paralelamente na liga. O Patrón derrubou o Colón nos pênaltis durante os 16-avos de final e depois derrotou o Gimnasia de La Plata nas oitavas por 2 a 1. A dimensão da epopeia, de qualquer maneira, se tornou muito maior nos dois compromissos seguintes. Não é qualquer time que pode se gabar de eliminar River e Boca numa mesma campanha. Foi apenas a quinta vez na história que isso aconteceu, somando torneios nacionais e internacionais.
O Patronato primeiro conseguiu a classificação nos penais contra o River Plate, num renhido 2 a 2. Depois, a imposição contra o Boca, que dias antes comemorara a conquista do Campeonato Argentino. O empate por 1 a 1 prevaleceu contra os desgastados xeneizes, até mais uma passagem do Patronato nas penalidades, com três batidas defendidas pelo goleiro Facundo Altamirano. O Patrón ganhava o direito de desafiar na final o Talleres, clube de tradição inegavelmente maior, mas que também perseguia seu primeiro troféu de elite nas competições nacionais – por mais que tenha uma Copa Conmebol em seu museu.
O Patronato precisou lidar com suas provações na final realizada em Mendoza, com os cordobeses em maioria nas arquibancadas. O Talleres claramente foi melhor no primeiro tempo, com uma coleção de oportunidades. Diego Valoyes dava trabalho pelo lado direito do ataque de La T e foi quem mais ameaçou a meta de Altamirano. Raras foram as chegadas dos rojinegros na primeira etapa.
Na volta do intervalo, a partida se tornou mais equilibrada. O Patronato começou a chegar mais ao campo do ataque, com o atacante Marcelo Estigarribia, que parou no goleiro Alan Aguerre. O gol dos rojinegros saiu num misto de lance de sorte com pintura, aos 33. Tiago Banega avançou pelo meio e, quando foi travado, brigou pela bola na dividida com um carrinho. Acabou pegando em cheio na pelota e acertou um chutaço que encobriu o goleiro Aguerre, morrendo no fundo da meta. Era o gol mais importante da história do Patrón. Quando La T tentou empatar, Altamirano manteve a segurança em sua meta. O título era dos azarões.
Esta é a segunda vez, a primeira em 78 anos, que um time de fora das províncias de Buenos Aires e Santa Fe conquista um título nacional de elite na Argentina. O antecessor foi o San Martín de Tucumán na extinta Copa da República de 1944. Entre os heróis da campanha está o técnico Facundo Sava, atacante de relativo sucesso por Gimnasia e Racing, além de passagens por Fulham e Celta. O comandante assumiu o Patronato em março, num momento péssimo na Copa da Liga. Mesmo com um dos elencos de melhor folha salarial da primeira divisão, deu identidade à equipe e operou seu milagre. O treinador contou com a participação de figuras importantes também em campo, como o goleiro Facundo Altamirano, o zagueiro Carlos Quintana e o centroavante Marcelo Estigarribia, essenciais ao longo da campanha.
“Quero felicitar toda a equipe. A figura principal é a equipe, que fez um esforço muito grande. Jogamos a final como tínhamos que jogar. Sempre acreditamos em nós, no que treinávamos na semana. Tínhamos que conquistar muitos pontos para escapar do rebaixamento na liga e não conseguimos, mas nunca baixamos a cabeça. Agora isso é histórico. Era a pior chave que poderíamos enfrentar, mas avançamos porque este é um grupo de caráter. A comissão técnica de Sava nos convenceu, nos fez jogar com uma ideia e por isso conseguiu o objetivo”, afirmou o capitão Carlos Quintana.
A comemoração do Patronato misturou emoção e até uma dose de incredulidade. Poucos imaginavam que o clube pudesse chegar a um título do calibre da Copa Argentina, ainda mais numa temporada em que terminou rebaixado pelo promédio. Até existe a possibilidade de uma virada de mesa pela manutenção na elite, nada descartável na bagunçada AFA de Chiqui Tapia. De qualquer maneira, a realidade confirmada do Patrón será a Libertadores. É a primeira equipe de Entre Ríos a alcançar o torneio continental. E é bom adversários mais badalados não se descuidarem depois do que o “mata gigantes” fez em seu caminho até a competição.



