Argentina

Da luta na B ao topo das Américas, Cavenaghi se aposenta carregando toda a gratidão do River

Fernando Cavenaghi se aposenta sem ser exatamente um centroavante memorável. Marcou, sim, muitos gols. Mas nada tão impactante. Nada suficiente para que disputasse alguma competição internacional pela seleção argentina. Rodou por vários clubes. Na Europa, emplacou apenas no Bordeaux, importante para a conquista da Ligue 1 em 2008/09. Só que não durou além disso. Não deixou grandes feitos em Spartak Moscou, Mallorca e Villarreal. Pelas Américas, decepcionou por Internacional e Pachuca. No entanto, o camisa 9 pendura as chuteiras sob a certeza de que, sempre que quiser, será recebido com carinho em Núñez. Em seus lampejos, Cavenaghi direcionou seu brilho ao River Plate. Ajudou a encher o Monumental com o brilho dos troféus. Prata da casa, talismã e também ídolo. Um dos homens que resgatou os Millonarios do limbo e os levou de volta ao topo das Américas.

Cavenaghi nunca conseguiu cumprir as expectativas geradas nos primeiros anos de sua carreira. Naquele momento, já demonstrava como sua aura se transformava no Monumental. Em quatro temporadas como profissional, conquistou três edições do Campeonato Argentino – os Clausuras de 2002, de 2003 e de 2004. Sempre balançando as redes, sempre marcando gols fundamentais. Em ótimos anos dos alvirrubros, faltou talvez dar um passo além nos torneios continentais. Contudo, o centroavante era peça-chave no domínio que se estabeleceu no país.

Depois disso, aos 21 anos, Cavenaghi voou. Passou por Spartak Moscou, Bordeaux, Mallorca e Internacional. Até que o dever chamasse o centroavante de volta a Núñez em 2011, aos 28 anos. O River Plate acabara de ser rebaixado à segunda divisão do Campeonato Argentino, um trauma incomparável. O antigo ídolo foi contratado para espantar o ‘Fantasma de la B’. Para recolocar os alvirrubros do lugar de onde não deveriam ter saído. E assim o fez: Cavenaghi teve papel fundamental na conquista do acesso. Marcou 19 gols e liderou La Banda na campanha, sob as ordens de Matías Almeyda. Motivo a mais para ser adorado, pela paixão e pelo empenho que botava em campo.

A segunda passagem pelo clube terminou ali. As boas atuações voltaram a abrir as portas para Cavenaghi no exterior. Outra vez ele se aventurou, sem grandes sucessos. Defendeu Villarreal e Pachuca, até retornar em 2014. O Torito era pedido de Ramón Díaz. Aposta paga com nova taça, a do Torneo Final. O centroavante não só havia recolocado o River Plate na elite, como também anotara oito gols na reconquista do Campeonato Argentino. Não pararia por aí. A idade pesava e a produtividade do artilheiro era baixa. Mesmo assim, ele alcançou os 100 gols com a camisa alvirrubra. Sob as ordens de Marcelo Gallardo, voltou de lesão na reta final da Copa Sul-Americana de 2014, faturando o torneio. E também contribuiu para o título da Libertadores no ano seguinte.

Cavenaghi deixou para sair no topo em sua verdadeira despedida do Monumental. Titular no segundo jogo da final contra o Tigres, brigou muito no ataque para a vitória por 3 a 0. Capitão, teve a honra de erguer a taça. Justamente seu último jogo pelo River Plate. Nos últimos meses, o centroavante ainda ganhou seu dinheiro no Apoel Nicósia. Marcou muitos, mas muitos gols no Chipre. Foram 23 em 25 partidas. Até que o corpo cobrasse seu preço. Com uma séria lesão no joelho, ele decidiu pendurar as chuteiras aos 33 anos.

Que os gols não sejam tantos quanto se esperava ou que Cavenaghi nunca tenha se tornado jogador de seleção, sua história está feita. Aquele que se entregou pela camisa do River Plate e atendeu aos chamados do clube, dos momentos mais difíceis aos mais gloriosos. Que vibrou, na luta em campo ou na celebração. Da segunda divisão à Libertadores, são oito títulos em sete temporadas, passando também por quatro argentinos, uma Copa Sul-Americana e uma Recopa. Não foi exatamente o centroavante para ser lembrado com saudosismo. Pouco importa. Mais importante, ele estará para sempre na memória dos Millonarios. E no coração, em gratidão que perdurará.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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