#ChauGrondona

Cheguei a acompanhar algum tempo atrás uma conferência em que estavam presentes editores e responsáveis dos jornais “The Guardian”, “The New York Times”, “El País”, “Le Monde” e “Der Spiegel”. Debatiam o papel das mídias sociais nas mudanças do mundo árabe. Todos concluíram que elas foram importantes na organização das revoltas, mas que não podem ser apontadas como protagonistas no processo. “As revoluções não se fazem apenas com Twitter e Facebook”, ponderou Sylvie Kauffmann, chefe de redação do “Le Monde”.
Os argentinos sabem disso. Quando se trata de se voltar contra algo, são muito mais ativos do que os brasileiros. Na esteira dos fatos que surgiram no futebol local nesta semana, conseguiram emplacar palavras como “No al Torneo” e “Chau Grondona” entre os Trending Topics (palavras-chave mais usadas) do Twitter, por exemplo. Pensavam que conseguiriam derrubar a tal ideia de Julio Grondona, presidente da Afa, e sua turma. Era esse o rumor ao longo de toda a quarta-feira. Não conseguiram.
A revolução se faz na rua, os argentinos, não custa repetir, sabem. Planejam algumas ações para breve. Talvez consigam sensibilizar esse mesmo Grondona. Por enquanto, ele usa um tom contemporizador, pede para que se aguarde até outubro, quando uma assembléia será realizada para votar a tal proposta. Mas, enfim, imagino que algum leitor mais inquieto esteja se perguntado: qual proposta?
A proposta para o fim do futebol argentino. Mais ou menos por aí, deixando o tom dramático tão comum aos vizinhos de lado. É isso, no entanto, que se prevê com a reforma na estrutura local anunciada no início da semana. Acredito que não preciso me prolongar muito aqui, mas vamos lá: a primeira e a segunda divisões seriam fundidas a partir da temporada 2012/13, com a criação de um campeonato que, se especula, seria disputado por 38 clubes ao longo de um ano, em duas fases.
Algo pra lá de confuso, que significaria o fim dos torneios curtos e também dos promédios. Justo. Foram instalados há 20 anos para impedir a queda do River Plate. Agora não há mais o que fazer. Ainda mais com o cenário que se desenhava para essa temporada, com Boca Juniors, Racing e San Lorenzo a perigo. Isso sem contar, obviamente, os times que contam com a simpatia das camadas mais elevadas do governo – Gimnasia La Plata (Cristina Kirchner) e Quilmes (Aníbal Fernández) na Série B.
Salvo uma catástrofe – pode traduzir como rebaixamento para a Terceirona – a dupla, ao lado do River, será automaticamente catapultada para essa nova primeira divisão dentro de um ano. Prejuízo para os próprios Millonarios, que, com solidariedade ou não, estão gastando uma boa grana com reforços enquanto poderiam aproveitar este ano para dar experiência aos seus jovens jogadores. Mas sabe como é, planejamento nunca foi o forte dos dirigentes do país. Os torneios curtos estão – ou estiveram aí para provar. Pedia-se o fim dessa filosofia, a filosofia do resultadismo e Grondona e seus parceiros vêm com aquele que tem sido chamado na imprensa local de “Frankenstein”.
Tolos. Não conseguem ver a situação sob outra perspectiva, uma perspectiva mais ampla. O resultadismo foi, sim, levado em conta nessas mudanças. Pelo governo argentino, que irá promover a sua publicidade oficial em mais lugares, de cara às eleições presidenciais de outubro. E pela AFA, que, numa só tacada, atingiu o Grupo Clarín – que perdeu também os direitos de transmissão da Segundona –, lucrará com a criação da AFA TV e ainda mirou Daniel Vila, dono do Canal América, presidente do Independiente Rivadavia de Mendoza e que pintava como possível rival de Grondona no pleito da entidade, também marcado para outubro.
O resultadismo para quem quiser ver, em sua mais pura essência. Não é, contudo, aquela noção de compromisso utilizada pro Lionel Messi, em passagem pelo Chile, para explicar por que se deveria manter o amistoso com a Romênia – em tempo, não será mantido. “A única coisa que sei é que se há um compromisso, é preciso cumpri-lo”. Os engravatados não entendem muito bem disso. Têm apenas um compromisso e não é com o futebol jogado nos gramados.
Em 1974, 36 equipes brigavam pelo título na primeira divisão. Técnicos caíam sem maior cerimônia do comando da seleção. E a política também ditava as regras. Alguma semelhança com o panorama atual? A Argentina voltou no tempo. Talvez na esperança de tornar a viver glórias que não vive desde 1993. Não viverá. #ChauGrondona



