Argentina

Chama o Hugo, Quilmes!

Em time que está ganhando, não se mexe, certo? Costumam dizer que a receita é bem por aí. Mas há quem vá de encontro a tudo isso. Gente sem conservadorismo, que quer ousar. Caso dos dirigentes do Quilmes. Vice-campeão da Nacional B, o clube desejava fazer diferente. Assim, acreditava, evitaria campanha tão catastrófica quanto aquela de 2006/07, última vez em que esteve na elite.

Para tanto, investiu pesado. Começando por despachar boa parte da turma que levou a equipe de volta à primeira divisão. Daquele time, o único remanescente entre os titulares acabou sendo o goleiro Emanuel Trípodi. Com bons nomes como Miguel Caneo e Facundo Sava deixando o grupo, a diretoria se sentiu à vontade para desbravar o mercado atrás de reforços. Foram 19 ao todo, o maior número dentre os participantes do Apertura.

A eles, foi entregue um novo técnico. Saiu Jorge Ghiso e chegou Hugo Tocalli, a quem é apregoado muita coisa. Sabe esse Vélez segundo lugar no torneio que encanta há algum tempo? Obra do técnico, que vai além em seu currículo. De passagem pouco expressiva no Chile, tem como carta de apresentação a sua experiência com as categorias de base da Argentina, onde gozou do status de braço direito de José Pekerman – um dos homens mais inteligentes a ter surgido no futebol do país, nos últimos anos.

A presença de Tocalli no Quilmes tem um tom romântico, saudosista. É algo que, dizem, resgata o passado. Um passado de glórias. Poucas, é verdade, mas, ainda assim, valioso, que premiou o time com a conquista do título nacional em 1978. O treinador era parte desse grupo, ainda como jogador, e voltava à equipe cheio de esperança, catapultada pela chegada ao seu lado de jogadores como Bernardo Romeo, Leandro Gioda, Santiago Raymonda, Oscar Morales, Gustavo Varela e por aí vai.

Gente em busca de uma segunda chance, tal como Tocalli, de carreira ainda com pouco a dizer em clubes. Talvez também como José Luis Meiszner e Aníbal Fernández, presidente e vice, respectivamente, e que tornavam a trabalhar juntos depois de, nos anos 90, realizarem o sonho da construção do estádio cervecero.

Algumas pessoas viam na dupla mais do que a representação do time. Algo acima disso. Possivelmente, escudeiros da equipe nos bastidores. Não sem motivo. Fernández é nada menos do que o chefe de gabinete do Governo. Tem livre circulação por onde bem entender, e vendo como a coisa funciona entre os vizinhos – dado que pode ser sacado a partir da última coluna, por exemplo – pode-se depreender que a tal força política tem relativo peso por lá.

Pois bem, Quilmes, leitor; leitor, Quilmes. Feita a apresentação, só resta dizer: esqueça o que escrevi até aqui. Na teoria, tudo muito bonito, confere? Também achava, acredite. Apostei no Cerverceros no meio da tabela, num lugar seguro, com relativa distância da zona da degola. E nada disso. Não vou assumir essa bronca sozinho. Tenho aqui ao meu lado os guias do La Nación e do Clarín, e ambos falam do Quilmes com ainda mais poesia. Ou seja, todos nós fomos enganados. Por Meiszner, Fernández, Tocalli, Romeo, Gioda e companhia. Ou seria muito cedo pra dizer isso?

Torcedor é coisa difícil de entender. Em nove jogos, são cinco empates e quatro derrotas – nem sequer uma vitóriazinha que seja. E eles seguem lá, apoiando o time, cornetando menos do que muita gente faria nessas circunstâncias. Dizem que a explicação passa pelo modo como a equipe tem batido na trave, feito por merecer as vitórias, mas ficando no quase. Acontece.

Ainda faltam dez partidas para o fim do Apertura. Nessa altura, como já era de se esperar, fala-se em demissão de Tocalli – ah, torneios curtos –, algo, no entanto, desmentido pela diretoria. Resta ver até quando o técnico aguentará. Os cartolas parecem apoiá-lo até o fim. Não deverão chamar Hugo – nem que seja para uma conversa.

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Equipe Trivela

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