Argentina

Carlos Salvador está carente

Carlos Salvador Bilardo já tem 71 anos. Poderia estar em casa, curtindo sua família, seus netinhos, como fazem muitos de seus colegas ao chegar a tal idade. Mas, não. Ele prefere continuar lá, em cena, amparado por outro daqueles seus amigos de velhas batalhas, Julio Grondona. Não precisaria disso. Já tem seu nome gravado na história. É um campeão do mundo, alguém que, por algum período, lá pelo início dos anos 90, ditou moda com o seu 3-5-2.

A impressão que se tem é a de que Bilardo ainda tem contas pendentes. Com o passado, talvez. Um passado que, para muitos, apesar de suas glórias, carrega algo de desonroso. Não para a sua carreira de treinador em si, mas para com o futebol. O antifutebol. A ele é apregoado tal filosofia de jogo, batizada por seus compatriotas de bilardismo. Nada que lhe pareça, no entanto, incomodar.

Bilardo aparenta viver bem consigo mesmo, com suas filosofias. Na Espanha, país de tanta classe na bola, sua imagem ainda permanece intacta. Para o mal. Boa parte de seus contemporâneos não se esquece de sua passagem pelo Sevilla, daquelas palavras em duelo contra um desses times pequenos. Chamado a socorrer um jogador adversário, o massagista andaluz foi ao seu encontro. Na volta, ouviu do argentino: “ao inimigo, você tem que pisar, pisar”.

Quanta mágoa no coração. Esse é Bilardo. Ainda que bem com o seu interior, talvez ele não tenha se dado conta nesses dias do mal que essa postura que arrasta há anos lhe causa. No último feriadão, o ex-treinador teve a chance de reencontrar a sua antiga Espanha. Uma Espanha mudada, que hoje joga um futebol que encanta. Bilardo pôde ver tudo isso, e riu. Por último – depois do que se passou na África do Sul. Dali, da cabine de imprensa, acompanhou a goleada da Argentina sobre os campeões mundiais.

Ao fim do jogo, poderia ter saído a esnobar o jogo espanhol. Estaria no seu direito, embora pouco coberto de razão. Mas razão? Isso é algo que Bilardo parece ter perdido. Sem qualquer trabalho digno de nota já há alguns anos, o velho Carlos Salvador se recusa a retirar de campo. Carece dos holofotes, das confusões, precisa estar na mídia.

É um senhor carente, que quer um pouco mais de atenção – que supere o espaço concedido a seus pares. Mesmo que esses sejam gente como Maradona, Batista e por aí vai. Bilardo não liga. É campeão mundial como todos eles, e isso basta. Secretário técnico da Afa sabe-se lá por qual motivo, é o encarregado de Grondona por comandar as coisas na seleção, definir o seu futuro.

Vê em Sergio Batista – por motivos distintos dos meus – uma pessoa que não estaria pronta para conduzir o time principal. Simplesmente porque o ex-comandante dos sub-20 não lhe parece gostar muito, partilhar de suas ideias. Para Bilardo, isso é fatal.

Depois da boa exibição contra a Espanha, partiu a ameaçar outro ex-jogador seu. Não descartou o seu futuro com a Argentina; apenas pontuou que ele talvez não passasse da Copa América, no ano que vem. Batista, volante em 86, não concorda. Quer um projeto que o leve até 2014. Pensa estar preparado para isso – ainda que, nesses primeiros meses, tenha se dedicado mais a agradar a todos do que ir atrás da renovação, formação de um grupo.

Não dá pra tirar também a sua razão. Sergio lida com alguém que claramente não lhe é simpático, imediatista, extremista, apegado aos resultados. Então, se ele quer resultados, aí estão – e contra eles, já que esse é o princípio escolhido, não se pode contestar. Messi e alguns outros mais hão de concordar.

Carente, Bilardo não quer largar o poder. Dá sinais até de arrependimento por não ter assumido a equipe no último Mundial. Talvez seja tarde para isso. É hora de ir pra casa.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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