Argentina

Às lágrimas, Higuaín anunciou que encerrará a carreira na qual foi herói, vilão e quase sempre jogou em alto nível

Higuaín tem alguns rótulos negativos em sua trajetória, mas se manteve entre os grandes por bastante tempo

Os gols desperdiçados nas decisões pela Argentina machucam, mas são parte do passado desde que o jejum de títulos finalmente se encerrou. A traição os napolitanos não se esquecerão tão cedo, assim como não podem negar os momentos avassaladores. Gonzalo Higuaín não foi o centroavante perfeito, e alguns maus momentos pesam em sua biografia. Porém, a grandeza de sua carreira também se expressa pelos 364 gols, pelas coleções de títulos, pela presença em três Copas do Mundo. Pipita possui um lugar privilegiado no futebol, com a honra de vestir as camisas pesadas de vários clubes, bem como da seleção em 75 compromissos. E assim ele anuncia sua aposentadoria, com a certeza de que sua história estará gravada, mesmo que o adeus aconteça de maneira relativamente precoce, antes mesmo de completar 35 anos, e sem o mesmo brilho de outrora.

Os últimos três anos da carreira de Higuaín foram vividos na Major League Soccer, com a camisa do Inter Miami. Fisicamente, estava claro como o centroavante passava longe de sua melhor forma. Seu impacto na Flórida não atingiu as expectativas, mesmo que os números de gols continuem razoáveis. Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, o argentino anunciou que esta será a última temporada profissional de sua carreira. Terá mais duas partidas da temporada regular, além dos playoffs, com a classificação das Garças ainda em disputa – atualmente ocupam a última vaga na zona de classificação da Conferência Leste.

“Chegou o dia de dizer adeus ao futebol, uma profissão que me deu tanto. Eu me sinto privilegiado por ter experimentado esses momentos bons e não tão bons”, declarou Higuaín, às lágrimas. “Depois da carreira mais maravilhosa que eu poderia ter, sinto que o futebol me deu demais. Muito obrigado a todos que sempre acreditaram em mim. Minha grande motivação é ajudar meus companheiros. Acho que o melhor presente que posso dar a eles é me aposentar como campeão, porque eles estiveram comigo, viram os momentos de baixa e me ajudaram nesse caminho. Mereço me despedir como campeão e seria um sonho”.

A precocidade foi uma marca da carreira de Higuaín. O futebol corria nas veias do garoto, nascido em Brest enquanto seu pai, Jorge Higuaín, atuava no clube da cidade. Criado na Argentina, ele cresceu nas categorias de base do River Plate ao lado do irmão Federico, que também se profissionalizou. E, inspirado por seu ídolo Ronaldo, o centroavante emplacou cedo com a camisa dos millonarios. Estreou quando ainda tinha 17 anos e teve atuações marcantes, mesmo sem levar nenhum título. Atormentou o Corinthians na Libertadores de 2006, pouco antes de brilhar num clássico contra o Boca Juniors dentro do Monumental de Núñez, com dois gols. O prodígio parecia destinado a grandes feitos.

O Real Madrid gastou €12 milhões para levar Higuaín em 2007, pouco depois de completar 19 anos. A apresentação do argentino vindo do River Plate teve a presença de outro compatriota que compartilhava as mesmas casas, ninguém menos que Alfredo Di Stéfano. Pipita chegou a ser companheiro de Ronaldo por poucas semanas, até que o brasileiro acabasse vendido ao Milan. O titular do ataque naqueles tempos era Ruud van Nistelrooy. O adolescente certamente pôde aprender um bocado, enquanto se sagrava bicampeão de La Liga sob as ordens de Fabio Capello. Chegou a marcar gols importantes na reta final do segundo título, em 2007/08, inclusive em clássico contra o Barcelona.

A temporada de 2008/09 marcou a confirmação de Higuaín como titular do Real Madrid, autor de 22 gols. Tempos agridoces em que o Barcelona passou a dominar La Liga. Já em 2009/10, várias companhias chegaram. Cristiano Ronaldo e Kaká lideravam a lista de contratações galácticas. Quem interessava a Pipita era Karim Benzema, seu novo concorrente no ataque. De início, o argentino venceu a disputa. Seria o artilheiro do time em 2009/10, com 27 gols, um a mais que Cristiano Ronaldo. Perdeu espaço na campanha seguinte, com uma lesão nas costas, mas voltou para contribuir ao título de La Liga em 2011/12. Anotou 22 gols, um a mais que Benzema. Todavia, perdeu o lugar para o francês em 2012/13, em fase na qual os insucessos dos merengues na Champions geravam muita pressão. Já não era visto mais como uma potencial estrela.

O período no Real Madrid seria importante para Higuaín deslanchar com a seleção. Sua estreia já seria decisiva: no duelo contra o Peru pela penúltima rodada das Eliminatórias da Copa de 2010, quando a classificação do time de Diego Maradona estava por um triz. Sob uma chuva torrencial no Monumental, o novato fez o primeiro tento na vitória por 2 a 1 resolvida agonizantemente nos acréscimos por Martín Palermo. Carimbou seu passaporte ao Mundial ali, e foi bem na África do Sul. Titular, anotou uma tripleta contra a Coreia do Sul na fase de grupos e também marcou contra o México nas oitavas, sem escapar da queda contra a Alemanha. Jogou depois a Copa América de 2011 e seu único gol veio na eliminação diante do Uruguai nas quartas.

Em 2013/14, Higuaín passou por uma mudança de ares. Deixou o Real Madrid depois de 121 gols em 264 partidas e assinou com o Napoli, por €39 milhões. Era um reforço de peso após a saída de Edinson Cavani. Correspondeu, já artilheiro do time na Serie A em seu primeiro ano, com 17 gols. Levou logo sua primeira taça, campeão da Copa da Itália. Chegou em alta para a Copa do Mundo, depois de ter desequilibrado para a Argentina ao longo das Eliminatórias. Pipita só fez um gol a menos que Lionel Messi na campanha classificatória. Em especial, destruiu o Chile com uma tripleta na primeira rodada da competição. E mesmo com uma concorrência qualificada, voltando de lesão, ganhou a posição na Albiceleste para o Mundial.

A única partida de Higuaín como reserva foi a estreia contra a Bósnia, um jogo duro, em que saiu do banco para dar assistência a Messi no segundo tento. Recebeu o reconhecimento de Alejandro Sabella e passou a figurar nas escalações, mesmo sem fazer uma campanha brilhante. Ainda assim, seria seu o gol da classificação nas quartas de final contra a Bélgica, numa oportunista virada de primeira no canto de Thibaut Courtois. Valeu o placar de 1 a 0, magro, mas suficiente. Teve ótima atuação em que segurou os zagueiros, tabelou com Messi e quase fez um golaço, após caneta em Vincent Kompany, barrado só pelo travessão. A marca que ficaria, entretanto, seria outra, exatamente na decisão contra a Alemanha: o chute para fora quando estava sozinho com Manuel Neuer. Também teve o grito entalado por um gol anulado e a reclamação de um pênalti não marcado no Maracanã. Saiu para a entrada de Rodrigo Palacio e seu substituto não fez melhor. Vice-campeão, Pipita chegou a pensar em largar o futebol naquele momento, mas a mãe o ajudou a mudar de ideia.

O amargor da prata com a Argentina contrastava com o auge de Higuaín com o Napoli. Seriam mais 18 gols pela Serie A em 2014/15, apesar de alguns erros também custosos. Mas nada comparado aos estrondosos 36 tentos em 35 aparições pela Serie A em 2015/16. O argentino quebrava o recorde histórico da competição. Seu repertório tinha arrancadas entre os zagueiros, força para ganhar no ombro, um ótimo senso de posicionamento, chutes tão potentes quanto precisos. A partida em que atingiu a marca, aliás, foi apoteótica. Os dois primeiros naqueles 4 a 0 contra o Frosinone vieram com oportunismo. Já o último foi o gol mais célebre de sua carreira: matou no peito e virou uma acrobacia sensacional para encobrir o goleiro. O recorde isolado era seu, superando a marca estabelecida por Gino Rossetti ainda em 1928/29.

O problema é que o Higuaín implacável do Napoli não se via na Argentina. Ele sentia o peso da responsabilidade e a Copa América aumentou ainda mais o dissabor pelos vices. O centroavante fez dois gols na campanha de 2015, mas perdeu uma chance imensa na decisão contra o Chile já nos acréscimos do segundo tempo e ainda mandou seu pênalti para fora. Um ano depois, na Copa América Centenário, Pipita vinha em alta com dois gols nas quartas de final contra a Venezuela e mais dois na semifinal diante dos Estados Unidos. O problema era o Chile, em mais um erro doloroso no mano a mano com Claudio Bravo. O atacante virava um símbolo do azar (e da incompetência) que perseguia os argentinos em seu jejum.

Higuaín também não se ajudou ao trocar o Napoli pela rival Juventus em 2016, por €90 milhões, num negócio que fez os napolitanos queimarem sua camisa mesmo com o lucro exorbitante. Foram duas temporadas com os juventinos, com destaque especialmente em sua primeira, quando marcou 24 gols pela Serie A. Conquistou o Scudetto e ajudou na caminhada até a decisão da Champions. Já em 2017/18, não rendeu tão bem, com 16 gols, embora permanecesse entre os protagonistas da Velha Senhora. Tanto é que ganharia a chance de disputar sua terceira Copa do Mundo em 2018. Porém, com a imagem manchada e a queda física, atuou bem menos e não salvou a bagunçada Albiceleste. Foi sua última aparição pela seleção, com 31 gols em 75 jogos.

Depois disso, a carreira de Higuaín caiu bastante. Com a chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus, o centroavante defenderia Milan e Chelsea em 2018/19, sem deixar saudades. Voltou para Turim em 2019/20, mas longe de seus melhores números. Pelo menos faturou o Scudetto pela terceira vez. Isso até que, a partir do segundo semestre de 2020, abraçasse o Inter Miami. Marcou apenas um gol em nove partidas na primeira temporada. Melhorou com 12 tentos em 2021, enquanto já são 14 em 2022. O veterano teve a chance de atuar outra vez com seu irmão, Federico. E agora pode levar as Garças aos playoffs da MLS pela primeira vez.

Se durante grande parte da carreira Higuaín não tinha um físico tão atlético, embora fosse um atacante muito forte, as dificuldades em manter a forma se tornaram maiores nos últimos anos. Tanto é que, diferentemente de muitos compatriotas, sequer tentará um ato final de volta ao River Plate. Reconhece que chegou o momento de pendurar as chuteiras. Isso não o impedirá, entretanto, de buscar um último grande ato. E não dá para duvidar de seu repertório de grandes gols – mesmo que eles tenham ficado em falta durante vários momentos decisivos. A despedida oferece a última redenção a Pipita, mesmo que num nível bem mais limitado que em seu auge. Ele foi bem longe, afinal.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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