Argentina

Aposta pelo planejamento?

Com algum atraso, a polêmica está de volta. Em entrevista à “Fox Sports Radio del Plata”, o presidente do Vélez, Fernando Raffaini, revelou que o retorno dos torneios longos se encontra em estudo pela Afa. Ou seja, a Argentina relembraria os velhos tempos, com campeonatos jogados em 38 rodadas.

O ciclo está completo. A mesma coisa foi proposta dez anos atrás. Na época, a ideia partiu da consultora Inmark, que elaborou um plano de modernização do futebol local junto a dirigentes de todas as categorias. Dali, muito pouco avançaria.

Duas daquelas medidas chamavam a atenção dos cartolas. O plano de readequação do calendário – que, como se vê, seria derrubado – e de finanças dos clubes. Estes, afundado em dívidas que incluíam até mesmo contas pendentes com a federação, seriam submetidos a uma vigilância econômica que, imaginavam, os atingiriam de forma implacável. Era algo que tinha como principais defensores o Vélez e o Lanús.

Não surpreende que, passado pouco mais de uma década, eles sigam lá, dando exemplo no País. A medida não deu certo, óbvio. Caso tivesse, nesta altura, a Argentina já teria visto um pentagonal em sua primeira divisão – era esse o cenário do ano passado, com Estudiantes, Godoy Cruz e Gimnasia y Esgrima de Jujuy, além da dupla, entre os cinco clubes que estariam a salvos.

Muito drama para algo que não vingou, concordam? Pois, então, reclamamos do Brasil, mas a coisa ainda enraizada nesses dias de hoje entre os vizinhos parece ser pior. Não bastassem os benditos promédios – o San Lorenzo há de discordar –, os tais torneios curtos também têm uma motivação pra lá de obscura por trás. Não no sentido de misteriosa, desconhecida. Nada disso. Mas, sim, de suja mesmo.

Esse mesmo modelo que agora será reavaliado teve como idealizador o então vice-presidente do Boca naqueles anos 90, Carlos Heller. Tido como um dos salvadores do clube, ele se ressentia da falta de títulos que se prolongava desde 1981. Não conseguia entender muito bem o problema dos xeneizes. Craques, havia ao montes por lá; os resultados, claro, é que pegavam.

Convencido o restante da turma de paletó e gravata, Heller conseguiu, então, fazer com que Grondona levasse adiante o seu plano de mudança. Demoraria cerca de um ano até que viesse a comemorar o seu primeiro título. A espera valeu a pena, o River pode atestar. Os Millonarios carregariam para casa seis dos 14 primeiros torneios.

Dali em diante, a coisa se multiplicaria. Foram 11 campeões em 20 anos – gente como Banfield, que talvez jamais tivesse sonhado com a taça, chegou lá. A competitividade, não restava dúvida, havia sido garantida. Mas e o planejamento? Bom, não dá pra dizer que um campeonato de seis meses contemple isso. De forma alguma. Com o formato, incentivou-se o resultadismo, o anti-projeto.

É bem provável que se trate apenas de uma coincidência, mas não custa lembrar: por esses mesmos 20 anos, a Argentina também se acostumou a voos curtos em Mundiais.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo