Argentina

Após sete anos, Chacarita recolocou na elite uma das torcidas argentinas mais apaixonadas

As arquibancadas em San Martín ficaram abarrotadas. A torcida tricolor estava ansiosa para recuperar um gosto que não tinha desde 2010. Mas, enfim, o Chacarita Juniors está de volta à primeira divisão do Campeonato Argentino. A jornada rumo ao topo da pirâmide contou até mesmo com uma passagem pela terceira divisão, no início da década. Já nesta temporada, o esforço do Funebrero precisou durar as 46 rodadas da Primera B Nacional. Em seu último compromisso, a equipe entrou em campo dependendo apenas de si. E o empate por 1 a 1 com o Argentinos Juniors, que havia confirmado a promoção duas semanas antes, foi suficiente para o Chacarita. Rompeu uma festa enorme em seu estádio, desde o furor nas arquibancadas ao travessão partido ao meio pelos jogadores.

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Este é o décimo acesso do Chacarita em sua história. Tradicional integrante da primeira divisão, figurou anteriormente em 54 edições do campeonato, desde o início da era profissional. Inclusive, conquistou o título do Metropolitano de 1969, terceiro time a quebrar a hegemonia dos “cinco grandes” no profissionalismo. Contudo, se manter na elite vem sendo bem mais difícil durante as últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 1980. Neste intervalo, os tricolores apareceram mais vezes nas divisões de acesso do que na elite. O que ajuda a torcida a valorizar ainda mais a reaparição na primeira divisão depois de sete anos de ausência.

Em um campeonato longo como a Primera B Nacional, o Chacarita precisou manter a consistência durante boa parte da campanha. Nem sempre figurou na zona de acesso, mas rondou as primeiras posições durante a maior parte do tempo. A sua ascensão se combinou com a derrocada do Guillermo Brown, de Puerto Madryn, no extremo sul do território argentino. O Almirante virou o primeiro turno na liderança e, apesar de ultrapassado pelo Argentinos Juniors, parecia firme na segunda colocação. Todavia, a sua derrocada na reta final acabou sendo decisiva, com o Funebrero tirando sete pontos de diferença. Nos últimos cinco compromissos, Chacarita e Guillermo Brown disputaram o vice-campeonato cabeça a cabeça. A reviravolta permitiu a festa em San Martín.

Por conta das dificuldades em viajar na alta temporada de inverno, o Guillermo Brown contou até com uma “vaquinha” de sua torcida para conseguir pagar o avião rumo a Córdoba, para enfrentar o Central na penúltima rodada. Nada que tenha garantido o sucesso em campo, com a derrota em um momento no qual o Chacarita se consolidava na segunda colocação. Por fim, na última rodada, os tricolores entraram em campo dois pontos à frente. Fizeram um jogo difícil contra o Argentinos Juniors, voando sob as ordens do agora técnico Gabriel Heinze. E, apesar do empate por 1 a 1, o Guillermo Brown também ficou na igualdade em casa, contra o Boca Unidos. Combinação que desencadeou a euforia dos 20 mil presentes na casa do Funebrero.

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Uma cena marcante aconteceu quando vários jogadores do Chacarita escalaram a meta e passaram a comemorar sobre o travessão. A estrutura metálica não aguentou o peso dos atletas e se rompeu. Felizmente, ninguém se feriu com o acidente. Nada estragou o enorme festejo que tomou conta de San Martín a partir da tarde de domingo, e se estendeu pelas ruas da cidade. Alegria condizente com a atmosfera marcante que havia regido os 90 minutos de jogo contra o Argentinos Juniors.

O treinador do Chacarita foi uma aposta. Walter Coyette assumiu o time em fevereiro de 2016. Ex-jogador tricolor no final da carreira, estava na seleção sub-15 quando ganhou uma chance em San Martín. Conseguiu conduzir o elenco um tanto quanto modesto, de folha salarial intermediária na segunda divisão, rumo ao acesso. Os nomes mais tarimbados são o zagueiro Germán Ré e o meio-campista Diego Rivero, que compartilharam a braçadeira de capitão durante a campanha. Já o grande destaque foi o artilheiro Rodrigo Salinas, autor de 30 gols, inclusive o do empate contra o Argentinos Juniors na última rodada.

Além disso, o grupo de jogadores do Chacarita é fortemente marcado pela influência das categorias de base. Dos 14 atletas utilizados na partida decisiva contra o Argentinos Juniors, oito ascenderam das canteras do Funebrero. O defensor Maximiliano Paredes se coloca como o único remanescente da temporada anterior na primeira divisão, em 2010. Mas nada que se equipare à idolatria do ‘Burrito’ Rivero, que aos 35 anos retornou para o clube onde surgiu, após passagens marcantes por San Lorenzo, Boca Juniors e pelo futebol mexicano. O veterano perdeu espaço durante a campanha, mas, por toda a sua representatividade, não deixou de ser um dos mais aplaudidos. Ele já tinha sido protagonista de outro acesso tricolor, em 1999, aos 18 anos.

O retorno à primeira divisão é um passo grande ao Chacarita Juniors, importantíssimo. O clube enfrentou dificuldades financeiras nos últimos anos e sabe que sua batalha neste momento será pela manutenção na elite. De qualquer forma, a volta ao primeiro nível oferece novas possibilidades comerciais. Não à toa, o presidente Horacio Fernández mira sua torcida. Sabe do fanatismo que conduz os tricolores e, por isso mesmo, espera que o número de sócio-torcedores dobre na próxima temporada, de 10 para 20 mil membros. É nessa paixão irremediável, independente da divisão, que o Chacarita se escora.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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