Argentina

A mudança de ares da Argentina sob as ordens de Scaloni garante a renovação do técnico até 2026

A Argentina aposta na permanência de Scaloni independentemente do resultado da Copa, embora o movimento também seja conveniente à criticada AFA

A seleção argentina experimenta o período mais empolgante de sua história recente. A Albiceleste quebrou seu incômodo jejum com a conquista da Copa América e sustenta uma invencibilidade de 35 jogos, a duas partidas de igualar o recorde mundial. Lionel Messi se sente leve como nunca se viu na seleção e conta com um elenco mais equilibrado ao seu redor, com companheiros que se empenham ainda mais pelo camisa 10. Desde a Copa do Mundo de 2002 não existia um senso de favoritismo tão grande sobre os argentinos, mesmo que a torcida tenha quebrado a cara na Coreia do Sul e no Japão. Prova da confiança que existe na Scaloneta, a AFA resolveu renovar o contrato do técnico Lionel Scaloni. Assinou até a Copa de 2026.

O movimento da Argentina não deixa de ser arriscado. Tamanha empolgação pode gerar uma decepção grande, a depender dos rumos da Albiceleste no Catar. No entanto, uma queda na fase de grupos parece improvável pela chave acessível e o momento impulsiona os argentinos na lista de favoritos – por bola, talvez só abaixo mesmo do Brasil. Lionel Scaloni possui grande responsabilidade no processo, ao extrair o máximo de seu grupo e conseguir a melhor versão de Messi. Não é o treinador mais inventivo, mas soube encaixar bem as peças e criar um espírito favorável nessa boa maré. A AFA aposta que, mesmo se a campanha não render o título, a continuidade da Scaloneta é o mais viável no momento.

De certa maneira, a manutenção de Scaloni relembra um pouco o que aconteceu com Tite após o Mundial de 2018, guardadas as devidas proporções e o fato de que ainda não se sabe o que acontecerá com a Argentina na Copa de 2022. Mas o brasileiro vinha de uma significativa guinada antes da campanha na Rússia e, mesmo que tenha parado nas quartas de final, existia o entendimento de que o processo seguia nos rumos certos. Scaloni não possui a bagagem anterior de Tite como treinador, longe disso, mas a percepção atual da Albiceleste o favorece. A confiança é importante até pelas sombras que o argentino tem entre os treinadores de seu país, com nomes de Marcelo Gallardo e Diego Simeone sempre à disposição assim que pintar uma crise mais severa.

“Hoje é um momento especial e emotivo para toda a comissão técnica, porque fechamos quatro anos emocionantes. Atravessamos momentos bons e não tão bons, mas o balanço é positivo. Recordamos a primeira vez que viemos aos Estados Unidos, contra Guatemala e Colômbia. É emocionante fechar o ciclo no mesmo lugar depois de quatro anos, num processo que foi positivo e aproveitamos. Curtimos de montão. Obrigado aos jogadores e às pessoas que apoiaram até hoje. Foram anos emocionantes e estou agradecido”, declarou Scaloni, depois da vitória por 3 a 0 sobre a Jamaica. A fala na abertura da coletiva de imprensa deixou alguns jornalistas com dúvidas se não era uma despedida, até que a AFA confirmasse a renovação minutos depois.

Do ponto de vista da federação, por sua vez, a extensão contratual de Scaloni serve como um escudo. A entidade vem sendo severamente criticada, e com razão, pela bagunça que se transformou o Campeonato Argentino. Existem duas competições anuais que são difíceis de entender para quem é de fora, o inchaço na quantidade de clubes é notório, o processo de rebaixamento é extremamente problemático. Não à toa, se nota um enfraquecimento internacional dos times locais, aliado também a questões econômicas do país. De qualquer maneira, está claro que a organização interna pode melhorar muito, e as notícias apontam inclusive para um desejo de intervenção da Fifa. Mas, convenientemente, a ótima fase da seleção vira cortina de fumaça para a péssima gestão do presidente Chiqui Tapia. É ele quem aparece em fotos sorridentes com a seleção e no anúncio com Scaloni.

De certa maneira, o próprio treinador foi um golpe de sorte da AFA. Depois da bagunça que foi a Argentina com Jorge Sampaoli na Copa de 2018, Scaloni assumiu interinamente na condição de antigo assistente e técnico das seleções de base. Diante da falta de uma solução, continuou no cargo, mesmo que o desempenho não saltasse aos olhos. Na Copa América de 2019, por exemplo, a Albiceleste fez uma campanha fraca até dar mais trabalho ao Brasil na semifinal. Embora muita gente quisesse um técnico mais qualificado, e opções existiam no país, Scaloni ficou – respaldado também por César Luis Menotti, com um papel de observador técnico na AFA. O comandante correspondeu principalmente a partir da Copa América de 2021, com o título, e com a melhora gradativa nas Eliminatórias. Os resultados vieram desde o início do qualificatório, mas o futebol melhorou na reta final. O que cria mais confiança às vésperas da Copa do Mundo.

“O básico e fundamental é não depender dos resultados. Realmente isso mudou nestes últimos tempos: se não fosse assim, eu não estaria hoje aqui. Se fosse pelos resultados, hoje eu não estaria aqui. Mas temos a predisposição e um grupo que se une desta maneira”, comentou também Scaloni, durante a coletiva desta terça. “As coisas podem acontecer mal, mas não está tudo ruim por um resultado adverso. Em um país no qual as pessoas gostam tanto de futebol, é importante que tenham captado essa mensagem. E eu sou um agradecido ao presidente e sobretudo às pessoas que nos bridam com seu apoio. Que seja o que tenha que ser na Copa, mas vamos deixar até a última gota de suor”.

O ambiente da Argentina é um fator muito forte a favor de Scaloni. Os jogadores se mostram motivados, há um processo de renovação sem cisões abruptas e o time parece ter uma ideia de jogo encaminhada mesmo com a despedida de Messi se aproximando cada vez mais. A própria comissão técnica auxilia nessa aproximação, rodeada por antigos jogadores da seleção, como Pablo Aimar, Walter Samuel e Roberto Ayala. A aposta da AFA é nessa relação construída por Scaloni e seus auxiliares, também com novas peças importantes surgindo em campo nos anos mais recentes, a exemplo de Emiliano Martínez, Cristian Romero, Rodrigo de Paul e Lautaro Martínez. Não dá para cravar qualquer coisa para a Copa do Mundo, apesar dos indicativos ótimos dados pelos argentinos. Mesmo assim, a renovação do técnico se explica e foi recebida com grande aprovação para a torcida.

Sobre Messi, Scaloni ainda salientou: “Conseguimos fazer com que Messi se sentisse cômodo, e também seus companheiros. É importante que eles sintam que têm alguém que joga ao seu lado. É o que mais resgatamos nesses quatro anos. Como treinador, levo quatro anos respondendo que temos que desfrutar Messi. É como Federer. Ele se aposentou e todo mundo estava emocionado, pensando que não poderão mais vê-lo jogar. Quanto queríamos ver Federer jogar tênis, porque era uma maravilha. O mesmo se passará com Messi. Vamos desfrutar, todo o mundo desfruta, independentemente do país. É uma maravilha vê-lo. Eu tenho a possibilidade de treiná-lo, mas, se fosse torcedor, pagaria um ingresso para vê-lo. Compraria sua camisa, fosse do país que eu fosse. O único que resta é desfrutá-lo, porque não sei se repetirá mais alguma vez”.

E nesse discurso, em busca de um último esforço a Messi, que Scaloni conseguiu extrair um futebol que não se via na Argentina há tempos. Um futebol que quase sempre não se viu de Messi na seleção, e que ele oferece repetidas vezes recentemente, como aconteceu nesses amistosos contra Honduras e Jamaica. A Copa do Mundo ratificará o que esse time argentino significará para a história. Certo é que Scaloni já mudou sua trajetória como treinador e acabou reconhecido com essa renovação.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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