Argentina

A história de Morro García, os sinais de alerta e a face vulnerável do futebol que precisa de mais apoio

Santiago García construiu uma bonita relação com o Godoy Cruz nos últimos cinco anos. El Morro surgiu como um trator no Nacional do Uruguai, mas levou um tempo a mais para firmar sua carreira profissional. Em Mendoza, o centroavante encontraria sua casa a partir de 2016. Ganhou a confiança da torcida, foi artilheiro do Campeonato Argentino, disputou duas edições da Libertadores. Não seria isso, porém, que encheu totalmente seu peito. E o goleador apresentou uma face vulnerável do futebol e da sociedade, um tanto quanto ignorada, sobre a necessária atenção com a saúde mental. Aos 30 anos, Santiago García passava por tratamento psiquiátrico e foi vítima da depressão. Na última quinta, o atacante interrompeu sua vida, embora o fato tenha sido descoberto no sábado.

O triste episódio, mais uma vez, ressalta como devemos tratar com seriedade a questão. Aos que encaram a depressão ou outros transtornos relacionados à saúde mental, admitindo a necessidade de apoio. A quem está ao redor, oferecendo compreensão e auxílio.

Santiago García cresceu num conjunto habitacional na periferia de Montevidéu. Foi criado por sua avó, enquanto a mãe trabalhava em longos turnos como enfermeira. O pai deixou a família logo após a separação. O garoto cresceu indicando o talento com a bola e, dono de um excelente porte físico, iniciou sua trajetória nas equipes de base do Nacional. O começo da carreira do centroavante era bastante promissor, com gols de peso no Campeonato Uruguaio e também na Libertadores. O ápice aconteceu em 2010/11, quando o Bolso foi campeão uruguaio e Morro García se consagrou como artilheiro da competição. O centroavante de 20 anos anotou 23 gols em 28 partidas, se tornando uma das faces principais no sucesso tricolor.

Morro García acertou sua transferência ao Athletico Paranaense logo depois, tornando-se o jogador mais caro da história rubro-negra. No entanto, um exame antidoping realizado na reta final do Campeonato Uruguaio indicou traços de cocaína no sangue do centroavante. A suspensão acabou se limitando ao futebol local e o novo contratado pôde atuar pelo Furacão no Campeonato Brasileiro de 2011. Não conseguiu se encontrar ao novo clube e, diante da repercussão do caso de doping, pensou em deixar o futebol. “Meu irmão abriu a porta de casa e viu a maneira como estava vivendo. Não ligava as luzes, estava totalmente deprimido, não queria jogar. Manejaram mal a situação, não gostei. Deixaram meu nome sujo, no Uruguai fiquei como um drogadinho”, contou ao TyC Sports, declarando sua inocência.

Em 2012, Santiago García se transferiu ao Kasimpasa. Sua passagem pelo Campeonato Turco também foi contida, com muitas dificuldades de adaptação. Voltaria ao Nacional em 2013/14, quando a suspensão por doping estava cumprida. Não causou o mesmo impacto de antes, com essa segunda passagem marcada por uma batalha campal contra o Peñarol num torneio amistoso. Ao lado de outros nove jogadores, o centroavante chegou a passar a noite na prisão por conta da confusão, pegando um gancho de três meses no futebol local.

O verdadeiro recomeço de Morro García aconteceu no River Plate de Montevidéu, aceitando reduzir seus ganhos e cumprindo a promessa feita a um amigo de infância. Por lá, seus gols voltaram a aparecer e ele seria artilheiro do Torneio Apertura em 2015. Com a boa repercussão de seu momento, o goleador assinou com o Godoy Cruz e se mudou à Argentina em 2016. Seria um jogador bastante querido no Tomba, até pela relevância atingida pelos bodegueros em parte da última década.

Santiago García acumulou 46 gols em seis edições do Campeonato Argentino, tornando-se o maior artilheiro do Godoy Cruz na primeira divisão. Teve sua melhor marca em 2017/18, quando o clube de Mendoza terminou na segunda colocação da liga, apenas dois pontos atrás do Boca Juniors. O centroavante carregou o time em vários momentos e fechou o campeonato como artilheiro, autor de 17 gols em 26 aparições. A campanha garantiu a presença do Godoy Cruz na Libertadores de 2019, na qual Morro García anotou três gols, dois deles contra o Palmeiras. Em 2017, havia enfrentado Grêmio e Atlético Mineiro pela competição.

“As pessoas em Mendoza são muito respeitosas. Posso andar pela rua com a minha filha, ir à praça ou qualquer lugar e não tenho problemas. Não há palavras para agradecer essa forma de viver e isso também influencia o momento de tomar uma decisão”, declarava Morro García. O atacante chegou a ser especulado por outros clubes, como Racing e Independiente, mas parecia satisfeito em Mendoza. Chegou mesmo a ser capitão do Godoy Cruz, prova maior de sua importância dentro do clube.

Os últimos meses, no entanto, foram bastante dolorosos a Santiago García. Em 2020, o centroavante disputou apenas seis partidas pelo Godoy Cruz. Frequentava o banco de reservas e sua saída se tornava iminente. O presidente do Tomba, José Mansur, faria críticas públicas bastante duras. “Precisamos ter líderes positivos. Temos o contrário, líderes negativos”, afirmou o dirigente a uma rádio local. Não citou diretamente Morro, mas deixava claro sobre quem falava, ao reclamar do sobrepeso do jogador e de uma suposta “falta de profissionalismo’.

Santiago García chegou a ficar sete quilos acima de seu peso nas últimas semanas, não por falta de compromisso com seu clube, mas também por diversos outros problemas pessoais. O atacante estava insatisfeito com sua situação no Godoy Cruz. José Mansur também fez jogo duro na transferência do artilheiro ao Nacional de Montevidéu, prometendo liberá-lo e depois cobrando valores. Morro passou um período isolado no fim de janeiro, ao contrair o coronavírus, até se curar. Pesava ainda sua situação familiar. O jogador havia se separado da esposa e não conseguia visitar sua filha no Uruguai pelas limitações no trânsito de pessoas gerada pela pandemia.

Segundo jornais como o La Nación e o Clarín, tudo isso contribuiu para o quadro depressivo de Santiago García. O atacante realizava um tratamento psiquiátrico. O afastamento do futebol e de sua filha agravavam seus sentimentos. Morro, inclusive, havia falado abertamente sobre as dificuldades que enfrentava meses antes, em entrevista ao TyC Sports: “Nós, jogadores, não somos robôs. Não somos feitos de aço. Tive vários problemas pessoais que influenciaram em meu rendimento e não foi fácil. São coisas que as pessoas não sabem, mas quando você as vive por dentro, tudo tem um porquê”.

As investigações da polícia analisarão se existiu alguma instigação de sua morte por terceiros. Porém, segundo a responsável pelo caso, a causa tende a ser arquivada. Ao La Nación, funcionários do Godoy Cruz afirmaram que Morro tinha “problemas de relação com sua parceira que serão esclarecidos com a investigação” e que “até uma nutricionista ia em sua casa, mas não havia resposta, ele se omitia a tudo o que sugeriam”.

Em nota oficial, o Godoy Cruz afirmou que ajudou Morro García dentro do possível e ofereceu assistência necessária. “Sua drástica decisão foi motivada por problemas pessoais que se arrastavam, totalmente alheios à relação com esta instituição. O clube acompanhou através de seu corpo médico e de profissionais externos o querido Morro em todo momento. Lamentavelmente, ninguém pôde evitar”, declarou a agremiação. O clube também realizou uma ode ao ídolo: “Foi herói, foi goleador, foi amigo e família, foi tudo o que uma pessoa deseja ser quando pega uma bola. Hoje, te toca ser eterno e infinito para nós. Muito obrigado por tanto, Morro, obrigado pelas alegrias ao povo tombino. Que em paz descanses”.

Nem todos concordam com o clube. Mesmo funcionários e outros jogadores apontam que o Godoy Cruz poderia ter realizado um trabalho mais cuidadoso com Santiago García. As críticas mais duras vieram de Claudia Correa, mãe do jogador, durante conversa com uma rádio local: “Vamos com os sonhos do meu filho dentro de um caixão por causa de José Mansur. Meu filho morreu por um negócio. Existem pessoas que vivem para fazer dinheiro com as habilidades de outros. Mansur pediu os outros 50% de seu passe para ir ao Nacional, isso impossibilitou a transferência e detonou Santiago”.

“Mansur ia fazê-lo correr pela grama durante seis meses e isso é lapidário para a emoção, a estima e o esporte. Esse senhor não se cansou de depreciá-lo, manipulá-lo e humilhá-lo. Nem sequer me deu condolências. Mansur disse que meu filho era um líder negativo e deveria sair. Quero dizer que era um rapaz que ajudou todos os garotos que encontrou e nunca faltou respeito. Santiago estava gordo por causa da depressão e não tinha entusiasmo por aquilo que fazia. Digo a Mansur que a vida não é assim. É preciso ter mais respeito pela vida do outro”, finalizou a mãe de Morro García.

Outros tantos ex-companheiros lembraram-se com carinho de Santiago García e teceram elogios ao ex-atacante, sempre disposto a escutar e a aprender, apesar da personalidade “difícil de gerir”. Um dos que se emocionaram foi Alejandro Balbi, vice-presidente do Nacional e amigo de Morro desde seus primórdios no clube. “Falei com ele na quarta-feira. Ele me contou que poderia resolver sua transferência, o presidente do Godoy Cruz havia prometido cedê-lo. ‘Vem, Morro, que essa é sua casa’, eu disse. Não posso acreditar. Tínhamos tudo acertado para voltar e ele me acalmava. Morro era forte. Tinha coragem. Ia à frente. Não era um tipo cabisbaixo e nem parecia depressivo”.

As palavras de Balbi são importantes, já que trazem uma impressão comum e errônea – afinal, ninguém está imune à depressão. As pessoas que parecem mais fortes por fora também correm os mesmos riscos por dentro. Por isso, admitir a vulnerabilidade e abrir-se é tão importante. E ouvir também, no que o futebol tantas vezes peca, pela pressão em seu entorno. Mesmo que não seja necessariamente negligencia do Godoy Cruz, lamenta-se a postura institucional do clube ao afirmar que “ninguém pôde evitar”. E até pelas mensagens insensíveis e abjetas de Mário Celso Petraglia após a notícia da morte de Morro García, fica mais forte a impressão de que faltou cuidado de diferentes partes no trato com o atacante. O pesar é inescapável diante do caso. Por isso mesmo, o futebol e a sociedade sempre podem fazer mais para lidar com essa questão de saúde pública. Debater mais. Dar mais abertura. E, como disse Morro, admitir que ninguém é de aço. Entender melhor cada um.

Uma oferta de ajuda

A história de Santiago García liga um sinal de alerta e nos permite estender a mão. Caso você sofra de depressão ou possui algum entrave ligado à saúde mental, procure ajuda. Também o faça se você se sentir depreciado, com a autoestima baixa, desesperançoso com a vida e/ou se isolar das relações sociais. Não hesite em buscar auxílio ou o atendimento com um profissional – por exemplo, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de sua cidade ou região, ligado ao SUS, ou mesmo na Unidade Básica de Saúde mais próxima. Você também pode procurar o CVV, o Centro de Valorização da Vida. O canal realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio. Através do número 188, atende gratuitamente pessoas que desejam conversar, sob total sigilo. O contato também pode ser feito pelo site oficial, por e-mail ou mesmo por Skype. Quando você pede ajuda, você: “é respeitado e levado a sério; tem o seu sofrimento levado em consideração; fala em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação; é escutado; é encorajado a se recuperar”.

E se você conhece alguém em uma situação de risco, não deixe de procurar essa pessoa e de oferecer ajuda. O Ministério da Saúde também possui uma página em que orienta como identificar, agir e prevenir o suicídio. Reconheça os sinais, conforme a indicação da Superinteressante e do Ministério da Saúde: “frases ou publicações nas redes sociais que falem de solidão, culpa, apatia, autodepreciação, desejo de vingança ou hostilidade fora do comum; isolamento, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de fazer; preocupação com sua própria morte ou falta de esperança, com sentimento de culpa, falta de autoestima e visão negativa de sua vida e futuro; diminuição ou ausência de autocuidado; aumentar o uso de álcool ou drogas, mudanças drásticas de peso, dirigir perigosamente; perguntas sobre métodos letais, como facas, armas ou pílulas; enaltecer e glamorizar a morte; desfazer-se de objetos pessoais e dar adeus”. Vale ressaltar que, embora não seja a maioria das pessoas doentes que cogita ceifar a própria vida, os transtornos mentais são um fator de risco ao suicídio. Em compensação, há sempre uma saída. O avanço da medicina ligada à saúde mental é significativo e a atenção dada pelo sistema público de saúde ao tema cresceu nos últimos anos.

Diante da possibilidade de ajuda, o Ministério da Saúde orienta “a encontrar um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre suicídio com essa pessoa. Deixe-a saber que você está lá para ouvir, ouça-a com a mente aberta e ofereça seu apoio. Incentive a pessoa a procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de saúde mental, de emergência ou apoio em algum serviço público. Ofereça-se para acompanhá-la a um atendimento. Se você acha que essa pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha. Procure ajuda de profissionais de serviços de saúde, de emergência e entre em contato com alguém de confiança, indicado pela própria pessoa. Fique em contato para acompanhar como a pessoa está passando e o que está fazendo”.

Segundo dados da OMS, destacados pela Associação Brasileira de Psiquiatria, “mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano em todo o mundo, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos, sendo que a cada três segundos uma pessoa atenta contra a própria vida. No Brasil, foram 11.821 suicídios oficialmente registrados em 2012, o que representa, em média, 32 mortes por dia. Estima-se que o número de suicídios seja maior do que o registrado, devido ao estigma. Milhões de pessoas são afetadas pelo luto ao suicídio a cada ano. Estudos indicam que cada caso de suicídio tem sério impacto na vida de pelo menos outras seis pessoas de forma direta. Sentimentos ambivalentes são comuns em relação ao ente querido que faleceu de suicídio, como luto, raiva, culpa e outros. É importante aceitá-los como naturais, conversar com familiares e amigos, além de buscar atendimento médico e/ou psicológico, se necessário”. Não deixe de se abrir, se você enfrenta o luto por suicídio.

Por fim, sabemos também que a Trivela, através de seus textos, auxilia leitores em suas lutas diárias contra a depressão e outras doenças ou situações delicadas. Já recebemos relatos desse auxílio em nossa caixa de comentários, que dão um sentido ao trabalho que realizamos diariamente. Se você sofre de depressão ou de qualquer outro problema e quer contar com nosso ombro amigo, pode nos procurar. Estamos disponíveis através de nossas redes sociais ou do e-mail [email protected] Pedimos gentilmente que este contato seja feito de maneira privada, para um apoio adequado. Se você quiser uma conversa específica, também pode enviar um e-mail para [email protected] Estamos aqui para te informar e trazer histórias bacanas sobre futebol, mas também para tentar fazer o seu dia melhor e te ajudar da melhor maneira possível. Sinta-se abraçado.

* Este texto foi escrito seguindo orientações da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Ministério da Saúde à imprensa, apoiado também em reportagem da BBC. Você, colega jornalista, pode se informar sobre a maneira de noticiar um suicídio através dos links.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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