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A final da Libertadores também é gigante porque dará a eternidade a dois times já históricos

Se um vórtice temporal se abrisse no meio de Buenos Aires, saindo dele jogadores aleatórios de Boca Juniors e River Plate, esta ainda assim seria a final da Libertadores mais valiosa da história. O que está em jogo não é a taça, aquela que os xeneizes ergueram seis vezes e os millonarios outras três. A disputa é para saber quem poderá contar vantagem sobre os rivais por anos, quiçá décadas ou até mesmo séculos, graças a uma batalha que provavelmente nunca mais se repetirá nestes moldes. O confronto é tão grandioso por ser uma decisão continental, mas seu gigantismo extrapola a mera decisão continental. Há uma série de elucubrações ao seu redor, mas que se entende realmente da maneira mais simples: vestindo com amor a camisa azul y oro ou a de banda roja.

Dito isso, é preciso salientar: o tamanho desta final da Libertadores também aumenta pelo momento vivido por Boca Juniors e River Plate. Mais do que o mero gosto de derrotar os rivais, esta poderá ser a passagem definitiva de dois times marcantes à história. Basta ver os feitos recentes de xeneizes e millonarios, sob as ordens de treinadores praticamente incontestáveis a suas torcidas, até pela idolatria que construíram como jogadores. Duas concepções completamente diferentes, mas que aguardam a taça mais cobiçada do continente para se eternizar.

O River Plate de Marcelo Gallardo não precisa da Libertadores em seu currículo. Já a tem. No entanto, a taça selaria um rito de passagem ao próprio clube. Nem nos momentos mais gloriosos os millonarios conquistaram duas vezes o torneio continental em um intervalo tão curto, com personagens em comum. Pior, a coleção de frustrações pré e pós troféu é considerável, especialmente à geração dos anos 1990, que poderia registrar sucessos bem maiores. O título, desta vez, romperia uma sina em Núñez. Mais do que isso, também ajudaria a agremiação a encurtar distâncias em relação aos principais rivais, com quatro troféus do certame – ainda aquém à sua preponderância no Campeonato Argentino, mas digno à hegemonia recente em mata-matas.

Este River Plate é um time caracteristicamente copeiro. Parece tomar gosto pelos grandes jogos decisivos, considerando as taças que ergueu nos últimos anos. No continente, faturou a Libertadores e a Copa Sul-Americana. Além disso, levou o bi Copa Argentina e a Supercopa (que ganha um peso a mais por ter vindo justo em cima do Boca), embora a liga seja uma lacuna sob as ordens de Gallardo. Vencer a Libertadores não deixaria dúvidas sobre este destino manifesto do atual grupo – não apenas por eliminar o Grêmio do modo que foi, mas também pelo gosto de poder enfileirar Racing, Independiente e Boca Juniors de uma só vez. Seria do tipo de campanha para marcar qualquer clube, mas que se potencializa no caso dos millonarios.

Além do mais, há jogadores que se valorizam com a façanha. Nenhum deles como Leonardo Ponzio. A importância do capitão não está apenas em sua liderança, mas naquilo tudo que representa à instituição. Seu retorno ao clube aconteceu justamente após a queda à segunda divisão, tornando-se fundamental ao acesso. A partir de então, serviu de exemplo à transformação, por seu trabalho incansável e a capacidade de comandar o meio-campo. Seguiu como uma das faces principais em todas as conquistas posteriores. Inclusive na Libertadores de 2015, quando foi um dos jogadores mais afetados pelo episódio do gás de pimenta na Bombonera. Ainda não tinha a braçadeira, mas sua importância era evidente e se ampliou. Agora, podendo significar mais.

O Boca Juniors não fica atrás por seus sucessos recentes. Os xeneizes são os atuais bicampeões argentinos, algo que só aconteceu outras duas vezes nos últimos 30 anos. É válido mirar o inédito tri, algo só registrado por River Plate e Racing nos tempos de profissionalismo. Mas dá para almejar um passo além das fronteiras, conquistando a taça que se tornou a vocação dos boquenses neste século: a Libertadores. O trabalho de Guillermo Barros Schelotto só será respeitado o suficiente quando puder dizer também que cumpriu a ambição costumeira em La Boca.

Se há algo que marca este Boca Juniors, é a regularidade que apresenta para triunfar nos pontos corridos. Não é um time exuberante e não precisou ser para acumular tantos pontos nas temporadas recentes. Sempre pôde fazer o simples para conquistar as vitórias, sem tropeçar em jogos fáceis. Mas aquilo que se torna uma virtude em torneios longos também pode ajudar em uma competição cardíaca como a Libertadores: fazer o seu jogo de maneira segura e resolver no momento certo. A concentração será mais do que necessária contra o River Plate, diante de toda a pressão que há ao redor. Foi assim quando a equipe inicialmente desacreditada conseguiu superar Cruzeiro e Palmeiras – com alguns questionamentos, mas mantendo o controle sobre ambos os adversários na maior parte do tempo. O bote tem sido certeiro e, por isso mesmo, a caminhada é tão imponente.

E se a maioria absoluta ainda quer gravar seu nome na Libertadores, o elo com os campeões do passado está no banco de reservas. Carlos Tevez não tem mais a aura de filho pródigo, repetida em outros momentos da Bombonera. Seu papel no elenco é de coadjuvante, embora possa participar dos jogos a partir do segundo tempo. Mais valiosa é a lembrança que suscita, das asas que bateu certa vez no Monumental, da maneira como brilhou em 2003. A adoração que ainda preserva, independentemente das presepadas constantes. É gente do Boca e, por isso, acaba se tornando uma face que tantos miram, mesmo do lado de fora. É a passagem de bastão constante que aconteceu ao longo deste século, envolvendo Riquelme, Palermo ou o próprio Schelotto. Onze anos depois da última conquista, chegou a hora de se reafirmar como uma potência continental.

O Boca x River, além do mais, será um embate de estilos. O encontro entre um time frio e calculista, que se contenta em jogar de maneira aguerrida para resolver em poucos lances, contra o outro impetuoso, que deseja ter volume e se impor no ataque. Será um embate de duas linhas de frente recheadas, com várias possibilidades de variação, até pelas contratações recentes. Será um embate de nervos, a dois times que se acostumaram a vencer, mas não em uma ocasião deste peso. Nunca ninguém ganhou um Boca x River em final de Libertadores, afinal. É isso que separará ídolos de lendas. E, ainda mais pelo momento de ambos os clubes, esta decisão está pronta para mitificar aqueles que ficarem com o troféu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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