Todos sobrevivem

Cinco rodadas da fase de grupos da Liga dos Campeões se passaram e o enredo de dois clubes alemães é sempre o mesmo: Bayern Munique vence, Borussia Dortmund decepciona, bávaros triunfam, pretos amarelos perdem novamente, Ribéry brilha, Götze é discreto. Pois bem, mais uma vez isso aconteceu, e a quinta rodada não teve nada de novo no front, certo? Errado. A novidade atende pelo nome de Bayer Leverkusen, surpreendeu ao vencer o Chelsea por 2 a 1 e está quase classificada para as oitavas de final. Surpreendentemente, é verdade, mas com algum merecimento.
A classificação é, até certo ponto, intrigante. Afinal de contas, o time é basicamente o mesmo que foi escorraçado da Liga Europa pelo Villarreal na temporada passada. Só contratou André Schürrle, que ficou no banco de reservas contra os Blues por viver mau momento técnico. Mais do que isso, sofre com o desfalque de Renato Augusto, recém-operado do joelho, e com a ausência quase eterna de Tranquillo Barnetta, suíço bom de bola e eficiente nas bolas paradas, que quase sempre está lesionado.
Sobrou, então, espaço para os alemães. Ao todo, foram 11 utilizados pelo técnico Robin Dutt, sendo nove no time titular. O mais importante deles, Michael Ballack, enfrentava seu ex-clube e acertou uma bola na trave no primeiro tempo, talvez a única grande emoção dos primeiros 45 minutos, que tiveram o domínio territorial dos Aspirinas, mas pouquíssimas chances de gol criadas. As emoções ficaram guardadas para a segunda etapa, e quando Didier Drogba abriu o placar aos três minutos, tudo parecia perdido. Apenas parecia.
Quem começou a mudar a história da partida foi justamente um dos estrangeiros em campo. Eren Derdiyok é um suíço que não se destaca exatamente pela qualidade com a bola nos pés. Cabeçudo, parrudo e pouco inteligente, ele é uma espécie de “Obina turco-alpino”, um peladeiro de segunda categoria, capaz de intercalar golaços de bicicleta com domínios de bola ridículos, finalizações ridículas e movimentações ridículas. Entrou aos 26 minutos, e, aos 28, errou um domínio de bola quando foi lançado. Mas, como já dizia o filósofo (não me recordo o nome), a glória nasce do erro, e a bola sobrou para Sidney Sam, que cruzou para o próprio Derdiyok cabecear com estilo para as redes.
O empate já era bom, já parecia adequado para as pretensões do time alemão, que só precisaria vencer o Genk para se classificar. Mas veio o último ato. Um escanteio aos 46 minutos e Manuel Friedrich, de cabeça, decretou a vitória. Um anti-herói, um zagueiro discreto e de qualidade técnica duvidosa decidindo uma partida e deixando o estádio inteiro em êxtase. Após o jogo, a intensa comemoração mostra que a façanha foi grande. Mas a missão ainda não está cumprida, e é importante pensar assim na Bélgica para que não haja nenhuma surpresa desagradável.
Nos outros jogos, como foi dito, nenhuma surpresa. O Bayern Munique confirmou a primeira colocação do Grupo A sem suar muito o uniforme. Venceu o Villarreal por 3 a 1, poderia ter feito mais e evitou certos desgastes desnecessários para o jogo contra o Manchester City, que, exceto pelos € 800 mil dados ao time vencedor das partidas da Liga dos Campeões e pelo benefício no coeficiente alemão, não vale nada. Os bávaros nadaram de braçada no “grupo da morte” e mostraram que, mais do que a camisa pesar, ter a base da seleção alemã e Frank Ribéry à disposição faz a diferença
Quem também jogou muita bola contra o Submarino Amarillo foi Toni Kroos. Autor de duas assistências, o meia vem se firmando mais e mais com a camisa do Bayern e mostrou que a barracão de Thomas Müller, colocado no banco de reservas por Jupp Heynckes, foi mais do que justa. Jogando como meia centralizado, Kroos mostrou perfeita sintonia com Ribéry e Mario Gómez e prova que seus entusiastas estavam certos quando o alçaram à condição de craque no Mundial Sub-17 de 2007.
O Borussia Dortmund, por sua vez, foi punido pela bola novamente. Pressionou o Arsenal, começou bem, fez um bom primeiro tempo, finalizou, atacou e perdeu o jogo. Levou um gol no início do segundo tempo em mais uma jogada pelo lado direito e se descontrolou. De quebra, perdeu Sven Bender e Mario Götze lesionados, e os dois poderão desfalcar a equipe no clássico contra o Schalke 04 neste sábado.
O mais incrível de tudo, porém, é constatar que, apesar do desastre total, a equipe sobrevive no Grupo F. Na última rodada, precisa vencer o Olympique de Marseille por quatro gols de diferença e torcer para que o Olympiacos não derrote o Arsenal, já classificado e com a primeira colocação da chave garantida. Sonhar não custa nada, mas nesse caso, vencer e torcer é mais importante do que qualquer outra coisa.



