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St. Pauli se retrata por faixas de seus ultras sobre episódio da Segunda Guerra em Dresden

Mais uma vez, faixas que remetem ao passado histórico da Alemanha causaram intensa controvérsia nos estádios. Agora, a polêmica vinda das arquibancadas aconteceu na segunda divisão do Campeonato Alemão. No sábado, St. Pauli e Dynamo Dresden se enfrentaram em Hamburgo. Os dois clubes carregam um longo histórico de hostilidades, motivados por posicionamentos políticos distintos. Embora os principais grupos de ultras de Dresden venham adotando uma postura apolítica, muitos torcedores de extrema-direita estiveram ligados ao clube, especialmente nos anos posteriores à queda do Muro de Berlim, o que alimentou a oposição. Além disso, a visita do St. Pauli à Saxônia no primeiro turno foi marcada por faixas machistas da torcida da casa contra as torcedoras visitantes, como já havia ocorrido em outras ocasiões. A deixa para a represália, ainda que nada justifique a impiedade dos ultras Piratas no reencontro: eles exibiram faixas com os dizeres “seus avós já queimaram por Dresden” e “contra o mito da vitimização alemã”, direcionadas aos adversários.

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Nesta segunda-feira, foram relembrados os 72 anos do início do bombardeamento de Dresden, um dos principais episódios ocorridos durante o final da Segunda Guerra Mundial. Na madrugada de 13 de fevereiro de 1945, cerca de 800 aviões britânicos despejaram 4500 toneladas de explosivos e bombas sobre a cidade saxã, devastando instantaneamente todo o centro histórico da cidade. Esse foi só o começo dos bombardeios arquitetados pelas tropas dos países aliados, perdurando por cerca de três dias. O ataque teve maior peso simbólico do que estratégico em si, diante da representatividade da cidade no contexto histórico-cultural da Alemanha. Em 2010, diante das divergências sobre o número de vítimas (muitas vezes superestimado), um relatório conduzido por historiadores alemães e autorizado pela própria prefeitura concluiu, segundo as fontes disponíveis, que entre 22,7 mil e 25 mil pessoas (a maioria civis) morreram nos bombardeios.

Com o tempo, os ataques aéreos acabaram utilizados para a retórica política. Nos anos de Alemanha Oriental, o regime apontava os bombardeios como um exemplo do terror proposto por americanos e ingleses. Já depois da queda do Muro de Berlim, o argumento se tornou mais frequente em grupos políticos ultranacionalistas, sobre vitimização alemã durante e depois da Segunda Guerra – com o “holocausto de bombas” tentando minimizar os horrores praticados pelos nazistas. E foi nessa ferida que tocaram as bandeiras expostas por um grupo de ultras do St. Pauli. Acabaram sendo impiedosos com as vítimas, com a cidade de Dresden e com o rastro de sangue da guerra, independentemente do lado, se dirigindo aos antepassados. Os abusos de um lado não justificam os do outro.

Após o ocorrido, o Dynamo Dresden se manifestou oficialmente, repudiando o “escárnio com as vítimas da guerra e da violência” e declarando que o ocorrido “não só transcende todos os limites de liberdade de expressão, mas também mina os valores humanísticos que são válidos no esporte”. Em contrapartida, o diretor de gerenciamento comercial do clube elogiou a postura dos próprios dirigentes do St. Pauli, que entraram em contato imediatamente depois da partida para pedir desculpas sobre as faixas.

Publicamente, o St. Pauli se retratou sobre a polêmica na partida, que terminou com vitória por 2 a 0 para a equipe de Hamburgo. “Embora o St. Pauli não compactue com a ideia sobre a vitimização alemã, que foi propagada no passado especialmente por nacionalistas e populistas de extrema-direita, e expressamente apoie e desafie um tratamento crítico da história alemã, as palavras escritas nas faixas foram longe demais. Elas zombam das vítimas do bombardeio aéreo de Dresden. Pelo comportamento de seus torcedores, o St. Pauli pede desculpa ao Dynamo Dresden, sua torcida e todos que estão ligados às vítimas dos ataques que ocorreram há 72 anos. O posicionamento da primeira faixa não está de acordo com o que pensa o St. Pauli, em termo de conteúdo e de escolha de palavras”, diz o comunicado.

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Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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