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Sahin relata detalhes da ida ao Real Madrid e do ataque ao Dortmund em um belo texto

Sahin recebeu uma mensagem, pouco depois de ser campeão alemão pelo Borussia Dortmund. “Ei, Sahin, o Real Madrid quer contratá-lo”. Não foi da maneira que ele imaginava quando era criança, mas um sonho estava sendo realizado. Desde que foi gandula de uma partida contra os Galácticos espanhóis, enquanto tentava subir as categorias de base do Dortmund, teve dois objetivos, como contou em texto para o site Player’s Tribune: vestir o amarelo e preto e, depois, vestir o branco. Realizou os dois sonhos.

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“O clube tem uma tradição especial de permitir que jogadores jovens sejam gandulas em algumas partidas”, contou. “Depois de dois anos no Dortmund, fui escolhido para fazer parte dessa tradição. Mas não foi para qualquer partida. Era contra o Real Madrid, pela Champions League. O Real havia vencido a Champions League um ano antes  e eram os Galácticos – Figo, Zidane, Ronaldo, Casillas, Roberto Carlos. Todos esses grandes nomes no nosso estádio”.

“Eu me lembro dos bonitos uniformes brancos que o Real Madrid usou naquela noite. Eles estavam brilhando. E jogaram um futebol tão bom, também. Em algum momento no segundo tempo, eu me lembro de pensar: um dia, eu vou jogar pelo Borussia Dortmund. Mas, não importa o que aconteça, também vou jogar pelo Real Madrid. O Dortmund não permite geralmente que pessoas entrem no gramado ao fim de uma partida – especialmente os gandulas. Mas, naquela noite, eu não me importava. Disse ao meu amigo: ‘eu vou entrar quando acabar. Preciso ver este uniforme em pessoa, preciso senti-lo nos meus dedos, preciso conhecer Ronaldo’. E fiz isso. Foi incrível”.

Sahin, portanto, realizou o seu sonho de defender o Real Madrid. Não foi uma decisão fácil. Ele conta uma conversa com Jürgen Klopp, que o deixou à vontade para escolher: “Nuri, a escolha é sua. Mas, se você for embora, precisa saber que eu sempre estarei ao seu lado. Você é meu amigo para sempre”. Sahin tomou sua decisão: “Eu disse a ele que tinha apenas uma vida para viver e que não queria me arrepender de nenhuma parte dela. Se eu ficasse, ficaria pensando na vida em Madri. Estaria em Dortmund fisicamente, mas não mentalmente”.

Mas as coisas não correram muito bem para Sahin na Espanha. Foi contratado em 2011, por € 10 milhões, e jogou apenas dez vezes com o uniforme branco que tanto o impressionou. Ainda teve um período de empréstimo pouco sucedido para o Liverpool. “Minha mulher, que estava grávida há quatro meses, foi comigo para Madri. Eu falava espanhol, mas precisávamos descobrir como ter um bebê em um país estrangeiro. E eu me machuquei na minha primeira sessão de treinamento com o Madri – a vida na Espanha não começou bem”, contou.

“Eu setembro de 2011, nosso filho chegou. Ele era perfeito. E eu estava muito grato por ser pai. Minha mãe e minha sogra vieram ficar conosco e, enquanto elas estiveram lá, eu percebi o quanto sentia falta de casa. Dortmund não era apenas um clube ou uma cidade, era onde as pessoas mais importantes da minha vida estavam. Tentei me recuperar o mais rápido que pude, mas quando um clube como o Real Madrid está vencendo e jogando bem, pode ser muito difícil voltar ao time. Fiquei fora por seis meses e, quando estava quase voltando, o Dortmund ligou e perguntou se eu queria voltar. Mas eu não havia vindo para Madri para desistir. Eu fui por empréstimo para o Liverpool e tentei voltar ao nível que eu sabia que podia ter”.

“Na Inglaterra, eu senti ainda mais saudade de casa. Eu não estava jogando bem – algo estava faltando no meu jogo. Eu não conseguia descobrir o que era. Então meio que me ocorreu: eu não estava sentindo falta de algo do meu jogo. Eu estava sentindo falta de algo da minha vida. Eu precisava fazer parte da família em Dortmund novamente. As pessoas são a razão pela qual eu jogo futebol do jeito que eu jogo”, acrescentou. “Meu empresário fez algumas ligações e, algumas semanas depois, eu voltei para casa.”

Sahin não sabia como seria recebido pela Muralha Amarela no seu primeiro jogo no Westfalenstadion, após ter retornado. Aquecendo antes da partida, ouviu de Klopp: “Nuri, feche seus olhos. Está ouvindo isso?”. Sahin fechou os olhos e escutou todos aqueles milhares de torcedores cantando o seu nome. “Eu realmente achei que eles fossem odiar você”, brincou Klopp. “A ligação que tenho com as pessoas de Dortmund nunca será quebrada. Eu sei disso agora”, afirmou.

A ligação foi fortalecida pelo ataque contra o ônibus do Dortmund antes do jogo contra o Monaco, pela Champions League, no começo do ano. Sahin conta em detalhes o que aconteceu e como lidou com a situação precisando entrar em campo pouco tempo depois.

“A viagem do hotel para o Westfalenstadion é de apenas alguns minutos. Apenas o bastante para conversar com quem estiver ao seu lado. Estava sendo junto com Marcel (Schmelzer) e eu me lembro de ele me pedir uma garrafa de água na prateleira perto de mim. Eu me estiquei e… BANG! Uma explosão na nossa janela. E, então, tudo aconteceu em câmera lenta. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Eu simplesmente…congelei. Mas minha mente estava acelerada. Em apenas dois segundos, eu pensei em toda minha vida. Eu pensei na morte – mas pensei na vida também. E pensei na minha família. Eu vi meu filho de cinco anos, minha filha de um ano e minha mulher. Eu conseguia senti-los comigo”.

“E, então, eu sai do transe e percebi onde estava. Eu me virei e vi Marc Bartra. Seu braço estava sangrando…feio…e eu olhei para os seus olhos. Nunca esquecerei seus olhos. Estavam negros e aterrorizados. Eu vi os outros caras atrás de mim começando a se levantar, mas gritei o mais alto que pude: ‘Fiquem abaixados, fiquem abaixados. Afastem-se das janelas!’. Não sabíamos o que estava acontecendo e se já havia acabado. Eu gritei para o motorista do ônibus: ‘Não pare! Por favor, por favor, não pare! Apenas continue se movendo! Precisamos nos mover! Eu pensei que talvez houvesse gente tentando entrar no ônibus e, sabe….matar todos nós”.

“O ônibus se mexeu alguns metros na rua antes de conseguirmos nos acomodar e ver que não havia ninguém no lado de fora. Meus ouvidos estavam zumbindo, mas eu estava bem. Estava vivo. Liguei meu celular e liguei para minha mulher e minha mãe. Eu disse que estava bem, mas que não sabia o que havia acontecido. Eu desliguei e olhei em volta e todo mundo estava…parado. Ninguém se mexia ou conversava. Eu nem olhei para o ônibus quando desci. Eu só queria ficar longe dele”.

“Alguns minutos depois, alguém me trouxe um telefone. Era a mulher de Marca. Eu era o único jogador da equipe, além dele, que falava espanhol, então eu tive que dizer o que havia acontecido – ou pelo menos tentar. Eu disse que Marca estava indo para o hospital e que não sabíamos o quão gravemente ele havia sido machucado. Eu conseguia ouvi-la chorar. Eu não vou me esquecer daquele som enquanto viver. Nunca. Eu não desejaria aquele sentimento para o meu pior inimigo”, relatou.

O ataque, porém, uniu as pessoas de Dortmund e uma ação particularmente impressionou Sahin: torcedores do clube alemão recebendo os fãs do Monaco em suas casas porque a partida havia sido adiada. “O medo daquele momento ficará na minha mente para sempre, mas são as horas posteriores nas quais eu penso quando alguém menciona aquele dia. O jeito como nosso clube e nossa cidade responderam me deixa orgulhoso. O recebimento dos torcedores do Monaco, a união da cidade e o apoio no estádio menos de 24 horas depois do ataque – foram momentos maravilhosos. Agimos dessa maneira porque é a única maneira que sabemos agir. Amor incondicional”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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