Alemanha

[Player’s Tribune] Lewandowski: “Não era para uma criança polonesa ser o melhor jogador do mundo”

Robert Lewandowski acordou e havia um objeto estranho ao seu lado deitado na cama. Seria assustador se ele próprio não o tivesse colocado lá. Ainda lhe causou espanto porque significava que ele havia sido escolhido o melhor jogador do mundo, o que não deveria acontecer. Segundo ele, não era para garotos poloneses serem os melhores jogadores do mundo. Não por falta de capacidade, mas por um complexo de inferioridade que ele tenta explicar em um texto ao Player’s Tribune.

Com média de mais de um gol por partida e campeão da Tríplice Coroa, Lewandowski venceu o prêmio The Best, da Fifa, com 52 pontos na votação, contra 38 de Cristiano Ronaldo e 35 de Lionel Messi. “Antes da cerimônia, eu sabia que havia tido um grande ano pelo Bayern de Munique. Eu sabia que poderia vencer o prêmio. Talvez eu até o merecesse. Mas, na Polônia, temos um complexo de inferioridade. Nunca tivemos ninguém eleito o melhor jogador do mundo. Quando você é criança, não tem super-estrelas para seguir. Os olheiros sempre dizem coisas como ‘ele é muito habilidoso…para uma criança polonesa’. Então você tem esse sentimento de que ninguém nunca será bom o suficiente, que nenhum de nós conseguirá chegar ao topo”.

“Crianças polonesas não deveriam ser os melhores do mundo. Simplesmente não deveria acontecer. Então, quando eu recebi o troféu, eu não conseguia acreditar. Eu sei que as pessoas acham que é um clichê, mas minha vida realmente passou diante dos meus olhos. Eu conseguia ver os meus primeiros passos com a bola, meus primeiros jogos em campos lamacentos, e todas as pessoas que me ajudaram a chegar até aqui. Foi como um filme”, completou.

E metódico como um bom centroavante, Lewandowski dividiu o filme em três atos: A Comunhão, A Rejeição e a Aposta. “Quero compartilhar este filme com vocês porque eu sei que há pelo menos uma criança neste momento na Polônia, ou em algum outro lugar onde não se atrevem a sonhar, que o apreciará. O filme foi mais ou menos assim”.

 

Ato I: A Comunhão

Quando eu era criança, fiz a minha Primeira Comunhão em uma igreja local. Para quem não conhece a religião católica, este é um dia muito especial. Começa com uma missa na igreja e depois comemoramos com nossas famílias. O problema era que eu tinha um jogo três horas depois da missa e era muito longe. Antes da comemoração, meu pai, Krzysztof, conversou com o padre. Era na minha cidade natal, em Leszno, uma pequena vila 40 minutos ao oeste de Varsóvia. Meu pai conhecia todo mundo.

Ele disse: ‘Ouça, padre, talvez possamos começar uma meia hora antes? E talvez cortar os últimos 10 minutos? Veja bem, meu filho tem um jogo…’. Talvez isso soe um pouco maluco, mas o padre me conhecia tão bem que pensou por um momento e disse: ‘Claro, por que não? Sabemos o quanto ele ama futebol. Seremos rápidos’. Então, assim que a comunhão terminou, eu fiz o sinal da cruz e meu pai e eu corremos para o carro. Haha! E, sim, claro, vencemos o jogo.

Eu acho que essa história resume minha infância. Também resume meu pai. Quando comecei a jogar bola, aos cinco anos, não havia times para crianças da minha idade em Leszno. Eu tinha que jogar com crianças que eram dois anos mais velhas. Era difícil, porque eu era muito tímido e magro, e dois anos são muita coisa naquela idade. Durante muitos anos, eu também joguei por um time em Varsóvia, e tive que viajar uma hora na ida e na volta para chegar ao treinamento.

Se eu não tivesse pais que estavam dispostos a me levar até lá, meu sonho no futebol teria acabado antes de começar. Eles eram professores de educação física, e meu pai, aliás, era o meu professor de educação física. Depois da escola, ele me levava ao treino, esperava duas horas para a sessão acabar, e me levava para casa. O clube não tinha vestiários, então várias vezes eu jogava debaixo de chuva e entrava no carro sujo de lama. Nós dirigíamos no escuro e chegávamos em casa às 22h. Uma viagem de quatro horas de carro para o meu pai só para que eu pudesse treinar. Outros pais pensavam que era loucura.

Não estou brincando. Eu literalmente ouvi outros pais perguntarem aos meus pais: ‘Por que vocês fazem isso?’. Eles nunca disseram que era porque queriam que o filho deles se tornasse profissional. Diziam que era porque Robert tem um sonho e ama o jogo. Nunca foi ‘temos que fazer tudo para Robert, para que ele se torne profissional, chegue ao topo e fique rico’. Nunca.

Muitos pais pressionam os filhos a terem sucesso. Eu vi pais na linha lateral gritando com crianças de 10 anos. Não era uma boa motivação quando eu era criança. E ainda não é. Porque aqueles pais não sabem o que é ser um atleta. Eles não entendem que o amor pelo futebol tem que sair do coração. Mesmo quando eu era jovem, havia pessoas que acreditavam que eu era pequeno e magro demais para dar certo. Haters, como as jovens dizem hoje em dia. Mas meus pais sempre me encorajaram a pensar com minha própria cabeça, ignorar o que os outros estavam dizendo.

Eles sempre me diziam uma coisa, e me levou anos a entender o que significava. Eles diziam: ‘Robert… acredite em seus instintos’. É uma boa lição para um atacante. Ou para qualquer um, na verdade.

Ato II: A Rejeição

Quando eu tinha 16 anos, meu pai morreu, após ficar muito tempo doente. Eu ainda acho difícil descrever o quanto foi difícil para mim. Quando você é um garoto, há certas coisas que consegue falar apenas com seu pai. Coisas sobre crescer e se tornar um homem. Depois que ele morreu, muitas vezes quis falar com ele sobre essas coisas. Houve tantos momentos em que eu desejei que poderia simplesmente ligar para ele. Mesmo que por dez minutos. Mas não podia. Minha mãe tentou me ajudar, e eu tenho muito respeito pelo que ela fez por mim. Ela teve que ser minha mãe e meu pai.

Eu jogava pelo segundo time do Legia Varsóvia, a equipe reserva de um dos maiores clubes da Polônia. Jogávamos a terceira divisão. Aproximadamente um ano depois, em 2006, meu contrato estava prestes a acabar, e o clube tinha que decidir se queria estendê-lo por mais um ano. Infelizmente, eu havia acabado de sofrer uma séria lesão no joelho, e algumas pessoas no clube não acreditavam que eu conseguiria voltar ao meu melhor. Foi um momento horrível, e eu perguntei ao clube o que eles fariam. Nem se preocuparam em enviar o treinador ou o diretor técnico para me contar. Enviaram o secretário… que me disse que eu estava dispensado.

Foi um dos piores dias da minha vida. Meu pai havia morrido. Agora, minha carreira estava caindo aos pedaços. Depois de receber a notícia, eu voltei ao carro, onde minha mãe me esperava. Ela imediatamente percebeu que algo estava errado. Eu não aguentei. Comecei a chorar. Contei a ela o que havia acontecido. Ela era tão forte. Ela disse: ‘Ok, temos que trabalhar. Não adianta ficar pensando no passado. Temos que fazer alguma coisa”. Ela entrou em contato com o Znicz Pruszków, da mesma divisão. Um clube muito menor. Eles tentaram me contratar alguns meses antes, e eu falei ‘sem chance, por que eu trocaria o Legia pelo Znicz Pruszków?’. Mas agora eu estava feliz porque eles ainda me queriam. Fui para lá e comecei minha recuperação. Estava em um estado tão ruim que não conseguia correr direito. Uma das minhas pernas ficava para trás da outra, como se eu tivesse um bloco de cimento amarrado ao tornozelo. Parecia cômico, sabe?

Imagina se eu tivesse ouvido os haters? Talvez aquela lesão tivesse me parado. Pense nisso: os grandes talentos já estavam jogando por clubes como Bayern de Munique e Barcelona e Manchester United. E eu estava na terceira divisão polonesa, tentando lembrar como eu fazia para correr. Certamente, eu aprendi muito com toda aquela incerteza e tristeza. Eu tive que trabalhar muito na minha confiança. E eu precisei de muito tempo para entrar em forma. Mas, quando o fiz, comecei a marcar todos os jogos.

Quatro anos depois, eu estava sendo bombardeado por propostas para sair do futebol polonês. Havia tantos rumores, tantas pessoas me dizendo o que fazer. Eu poderia ter ido para tantos lugares. Mas lembrei o que meus pais haviam me dito: ‘Confie nos seus instintos’. Lá no fundo, eu sempre soube para onde queria ir. A Alemanha estava me chamando.

Ato III: A Aposta

Uma vez eu fiz uma aposta com Jürgen Klopp.

Era 2010, e eu estava no Borussia Dortmund há alguns meses. Para ser honesto, era difícil. Quando cheguei, mal conseguia falar uma palavra de alemão. Conhecia danke. Obrigado. Conhecia scheisse (merda). O clima era chuvoso e cinza. E, com Klopp, a intensidade do treino era muito, muito alta. Estava desesperado para deixar minha marca, e Jürgen queria me desafiar. Então, nos primeiros meses, fizemos uma aposta. Se eu marcasse 10 gols em uma sessão de treino, ele me dava 50 euros. Se não marcasse, eu dava 50 euros para ele. Nas primeiras semanas, tive que pagar quase todas as vezes. Ele dava risada. Depois de alguns meses, os papéis se inverteram. Eu que ficava com o dinheiro. Um dia ele disse: ‘Pare! Ok! Chega. Você está pronto agora’.

Mas, na verdade, eu não estava. Os jogos eram muito diferentes dos treinos. Naquela temporada, eu quase sempre saia do banco. Eu joguei mais na segunda metade da temporada, mas como camisa 10, atrás do atacante. Minha posição favorita era como camisa 9. Mesmo assim, tenho que agradecer Jürgen por aqueles seis meses. Aprendi tanta coisa sobre como jogar mais recuado e como os jogadores devem se mover atrás do atacante.

Quando a segunda temporada começou, eu ainda estava sofrendo. Também senti que Jürgen queria alguma coisa de mim, mas não entendia exatamente o que era. Depois de uma derrota bem pesada para o Olympique Marseille pela Champions League – acho que perdemos por 3 a 0 (boa memória, Robert: 3 a 0 no Vélodrome) – fui conversar com ele. Disse: ‘Jürgen, precisamos conversar. Me diga o que você espera de mim’.

Não lembro tudo que ele disse – meu alemão ainda não era o melhor -, mas, pelas poucas palavras que sabia, e pela sua linguagem corporal, nós nos entendemos. Tivemos uma grande conversa. Três dias depois, eu marquei uma tripleta e dei assistência contra o Augsburg. Vencemos por 4 a 0, e foi o momento da virada para mim. Era uma questão mental. Mas agora eu percebo que minha conversa com Jürgen havia sido uma daquelas que eu queria ter tido com meu pai. Uma daquelas que eu não podia ter há muitos e muitos anos. Eu podia conversar com Jürgen sobre qualquer coisa. Eu podia confiar nele. Ele é um homem de família, e ele tem tanta empatia pelo que acontece na sua vida privada.

Jürgen não foi apenas uma figura paterna para mim. Como treinador, ele era como um professor “ruim”. Digo isso no melhor sentido da palavra. Deixe-me explicar. Pense em quando estava na escola. De qual professor você mais se lembra? Não é aquele que tornou a vida mais fácil para você e nunca esperou nada de você. Não, não, não. Você se lembra do professor ruim, aquele que era rígido. Aquele que o pressionava e fazia de tudo para tirar o melhor de você. Esse é o treinador que lhe tornou melhor, certo? Jürgen era assim. Ele não se contentava em permitir que você fosse um aluno nota 8, sabe? Jürgen queria alunos nota 10. Ele não queria isso para ele. Ele queria para você.

Ele me ensinou tanto. Quando cheguei ao Dortmund, eu queria tudo rapidamente: passe forte, um toque apenas. Jürgen me ensinou a me acalmar – dar dois toques se necessário. Era completamente contra minha natureza, mas eu rapidamente comecei a fazer mais gols. Quando eu dominei aquilo, ele me desafiou a acelerar novamente. Um toque. Bang. Gol. Ele me desacelerou para me acelerar depois. Parece simples, mas foi genial.

Jürgen nunca esquecia que éramos, primeiro, seres humanos. Jogadores de futebol em segundo lugar. Lembro uma vez que estávamos nos vestiários depois de um fim de semana de folga. E tem um truque clássico quando o jogador saiu para beber que é comer muito alho na manhã seguinte, para que o seu hálito não cheire a álcool. Jürgen chegou antes do treino e começou a cheirar. Parecia um cachorro caçando. Sniff, sniff. Sniff, sniff. Finalmente, ele disse: ‘Sinto cheiro… de algo… é alho?’. Claro que ele sabia o que era. E sabíamos que ele sabia. Mas ele apenas deixou a questão pairando no ar e saiu sem dizer uma palavra. Ficou silencioso por um momento, todos se olharam e começaram a dar risada.

A lição: nunca tente enganar Jürgen Klopp. O homem é esperto demais.

Claro que Jürgen não foi o único que me ajudou a melhorar. Quando fui para o Bayern, aprendi muito com treinadores como Jupp Heynckes, Pep Guardiola, Carlo Ancelotti e agora Hansi Flick. Jogar pelo Bayern em si é uma experiência educacional, na verdade, porque as exigências são tão altas, e a cultura do clube é tão profissional – você é forçado a elevar o seu padrão. Ainda assim, eu não poderia ter jogado como joguei sem a ajuda daqueles que são próximos de mim. E a mais importante de todas foi minha esposa, Anna.

Nós nos conhecemos na universidade, quando eu jogava pelo Znicz Pruszków. Ela estudou nutrição e educação física. Quando eu tinha mais ou menos 26 anos, começamos a pensar em como usar o conhecimento dela para melhorar minha dieta e minha abordagem mental ao jogo. Conversamos sobre todos os problemas. Eu novamente percebi algo que eu gostaria que fosse ensinado aos jovens jogadores: sempre que você se abrir sobre o seu problema, em vez de enterrá-lo, ele instantaneamente fica mais fácil de ser resolvido.

Aquele foi um grande, grande passo no meu desenvolvimento como jogador – e como ser humano. Quando eu olho para trás, para tudo que aconteceu na minha vida – quando passa esse filme na minha cabeça, eu percebo o quanto tive sorte. Você nunca ganha títulos sozinho. Cada troféu que tive em mãos – ou que levei para a cama comigo -, eles foram vencidos por todos meus companheiros que me ajudaram a melhorar. Eu também incluiria meus amigos de infância. Meus técnicos. Minha irmã. O padre que permitiu que eu saísse da Primeira Comunhão mais cedo. Minha mãe, que esteve ao meu lado no ponto mais baixo da minha vida.

E, claro, meu pai. Ele não viveu para me ver como jogador profissional, embora eu goste de pensar que ele está vendo todos os meus jogos de um lugar mais alto – do melhor assento do estádio. Foi ele quem colocou a bola nos meus pés e que nunca permitiu que que me esquecesse por que eu jogo futebol. Não por troféus, não por dinheiro, não por glória.

Não. Jogamos porque amamos o futebol.

Obrigado, pai.

A cena final do filme que passou minha cabeça foi com ele. Uma lembrança de antes de eu conquistar qualquer coisa. Antes de qualquer um conhecer meu nome na nossa vila. Antes de eu ter conquistado qualquer título ou feito qualquer coisa. A lembrança não fará sentido para você. Ou talvez faça.

É o começo da manhã, e meu pai está me levando de carro para uma partida em algum lugar no outro lado da Polônia, e estamos conversando sobre futebol ou sobre a escola ou sobre o nada. Estamos sentados no carro, juntos, e eu olho pela janela para as árvores que passam, ficando empolgado para mais um jogo. O que farei. Como farei os gols. Como tudo será.

Futebol. É isso. Essa é a lembrança. A melhor lembrança.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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