AlemanhaBundesligaChampions League

Os 70 anos de Jupp Heynckes, artilheiro implacável e técnico vencedor de duas Champions

Jupp Heynckes está na história do futebol europeu. E não apenas pela temporada espetacular que viveu no último ano da carreira como técnico, conquistando a inédita Tríplice Coroa com o Bayern de Munique. O alemão começou a gravar seu nome no esporte muito antes, ainda na década de 1960. Para se tornar uma lenda no Borussia Mönchengladbach, no Real Madrid e, claro, no Bayern. Heynckes chega aos 70 anos neste sábado, 50 deles dedicados ao futebol. Merece o reconhecimento pelo grande jogador e pelo grande técnico que foi.

VEJA TAMBÉM: Guardiola errou e teimou no erro. Poderia ter ligado para Heynckes

A história de Heynckes começa em um dos maiores esquadrões da história da Alemanha: o Borussia Mönchengladbach. Durante a década de 1970, o atacante era um dos protagonistas do timaço, estrelado por Gunter Netzer e, depois, por Allan Simonsen. Não à toa, os Potros eram os maiores rivais do lendário Bayern de Beckenbauer, Müller, Maier e Breitner. Heynckes marcou 220 gols só pela Bundesliga, terceiro maior artilheiro da história do torneio. Conquistou quatro títulos alemães, uma Copa da Uefa e ainda foi vice da Champions em 1977. E ainda conquistou a Euro de 1972 e a Copa de 1974 como reserva no ataque da seleção alemã – não fosse a concorrência de Gerd Müller, poderia até ser titular.

Foi no próprio Gladbach que Heynckes começou a carreira de treinador, em 1979, logo após pendurar as chuteiras. Mesmo sem conquistar títulos, permaneceu por oito temporadas em sua casa. Antes de iniciar a primeira passagem pelo Bayern, substituindo o mítico Udo Lattek, para ficar quatro anos e levar duas Bundesliga. Passou também por Athletic Bilbao, Eintracht Frankfurt e Tenerife, antes permanecer apenas um ano no Real Madrid. O suficiente para conquistar a Champions e encerrar o jejum de três décadas do clube. Andarilho ao longo dos anos 2000, encerrou sua grande história com chave de ouro. Em dois anos no Bayern, duas finais de Champions, um título, além de uma Bundesliga repleta de recordes. O adeus de uma lenda.

Antes da vitória do Borussia Mönchengladbach sobre o Bayer Leverkusen (por onde Heynckes também passou), a torcida que lotou o Borussia Park cantou um “Parabéns pra você, querido Jupp”. Sensacional:

Aproveitando o aniversário de Heynckes, o ótimo canal da Bundesliga no Youtube fez um vídeo com os 10 grandes momentos do craque e do grande técnico no futebol alemão. Está em inglês, mas vale conferir. Já abaixo do player, resgato um perfil de Heynckes que escrevi em 2013, antes da final da Champions:

Jupp Heynckes, a lenda de Munique

Germany Soccer Bundesliga

Era tudo ou nada. Jupp Heynckes parecia acabado para o futebol em 2009. Bicampeão da Bundesliga, bicampeão da Copa da Alemanha e dono de uma Liga dos Campeões, o veterano não se firmava em lugar algum. Ao longo da década, havia rodado sem brilho por Benfica, Athletic Bilbao, Schalke 04 e Borussia Mönchengladbach. Neste, clube de sua cidade natal e do qual é um dos maiores ídolos, foi ameaçado de morte e deixou o cargo por medo.

Sua sorte só começou a mudar quando viu as portas abertas do Bayern Munique, o mesmo clube com o qual conquistou seus principais títulos na virada entre os anos 1980 e 1990. Uli Hoeness, que admite a demissão de Heynckes como seu maior erro, o chamou de volta. Os bávaros viviam um turbilhão após a frustrada passagem de Jürgen Klinsmann e precisavam de alguém para colocar ordem na casa nos últimos cinco jogos na Bundesliga.

Passagem curta, mas suficiente para demonstrar que o treinador ainda era capaz de comandar em alto nível. Recebeu outra oportunidade no Bayer Leverkusen e os bons resultados, bem como a relação próxima com a cúpula bávara, o levaram de volta a Munique em 2011. O melhor que poderia acontecer na reta final de sua carreira. Nem sempre reconhecido por seu trabalho, Heynckes lidera um time que já entra para a história por seu desempenho impressionante.

A popularidade atual faz jus ao que o cidadão de Mönchengladbach conquistou ao longo de seus 68 anos, 50 deles vivendo o futebol. Profissionalizado no Gladbach, foi peça-chave em um dos maiores times já vistos no futebol alemão, tetracampeão nacional e vice europeu. Terceiro maior goleador da Bundesliga, é o único jogador a ter sido artilheiro das três principais competições europeias – Copa dos Campeões, Copa da Uefa e Recopa. Talento reconhecido com os títulos na Euro de 1972 e na Copa do Mundo de 1974.

Tamanha influência no Gladbach alçou o centroavante ao posto de técnico logo após pendurar as chuteiras. Substituiu seu grande mestre, Udo Lattek, técnico mais vezes campeão da Bundesliga e primeiro a ganhar as três competições continentais. Heynckes permaneceu oito temporadas no clube, promovendo um trabalho de reconstrução. Sem títulos, mas com consistência suficiente para a idolatria.

De Mönchengladbach, partiu para as taças com o Bayern entre 1987 e 1991, para boas campanhas com o Athletic Bilbao e com o Tenerife, para o título da Liga dos Campeões com o Real Madrid. Permaneceu apenas uma temporada em Chamartín, mas foi capaz de renovar o espírito de um clube que não conquistava a Europa havia 32 anos. Montou uma equipe eficiente na defesa, pronta para liberar seu talento no ataque. Foi acusado de não saber controlar o grupo e, também pelo quarto lugar em La Liga, acabou demitido precocemente.

Germany Soccer Bundesliga

Desde aquela Champions, Heynckes precisou esperar 15 anos para reatar o elo, voltar a levantar uma taça. As condições do Bayern quando o assumiu pela terceira vez, em 2011, eram similares àquelas que vivenciou em Madri. O elenco era repleto de estrelas, mas também de estrelismos, enclausurado sob a política de terror de Louis van Gaal. O novo treinador teve que superar outra vez um cenário de crise, mas com muita qualidade à disposição para ascender.

Heynckes lidou com um elenco dividido e demorou para ter controle da situação. A primeira temporada foi tensa, ainda que os resultados em campo tenham aparecido. Já o grande salto de qualidade aconteceu nos últimos meses. O treinador montou um grupo com 22 jogadores em condições de serem titulares e, apesar dos egos, manteve todos satisfeitos. Sem precisar ser rigoroso, reconciliou o Bayern rumo às vitórias. É a figura paternal, segundo muitos de seus comandados.

Mais do que gerir muito bem o elenco, Heynckes faz seu time jogar. E muita bola. Novamente, organizou uma equipe muitíssimo segura na defesa, dedicada no trabalho sem a bola, mas livre para criar sem ela. A qualidade técnica do meio-campo é determinante para o futebol vistoso do Bayern, de muitos golaços e goleadas. Sucesso marcante posto em prática graças a seu estilo minucioso, detalhista em demasia, como relatam aqueles mais próximos.

Os últimos dias da trajetória de Heynckes no futebol têm sido gloriosos. Comandou o Bayern mais devastador da história da Bundesliga. Tem a possibilidade de levar o clube ao topo da Europa após 12 anos e, quem sabe, torná-lo o primeiro alemão a garantir a Tríplice Coroa, caso também fature a final da Copa da Alemanha. Uma carreira que já merecia respeito por tudo o que tinha conquistado. E que, graças ao desfecho fantástico, se firma ainda mais entre as maiores da história do futebol alemão.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo