O mal interpretado

Jogador de futebol, quando fala, quase nunca erra, e isso não é privilégio deles. Existem advogados, médicos, arquitetos, carpinteiros, jornalistas e até desocupados que são infectados pela vaidade, pelo orgulho e por uma empáfia injustificável. Mas jogador de futebol é um caso peculiar. É quase sempre mal interpretado, vítima de um mal entendido. Mesmo quando faz declarações preconceituosas, como Rogério Ceni, que disse que não quer ir a Macapá e depois afirmou que a frase foi num “sentido figurativo”, ou Montillo, que disse que queria jogar no Corinthians e depois refugou da pressão. Ou, como falamos de Alemanha por aqui, de Breno, que disse via Twitter: “O Bayern está de sacanagem comigo”. Depois, apagou, mas não adiantava. O mal já estava feito.
O Twitter ajuda os mal interpretados. Dá para colocar a culpa nos primos, na namorada, nos amigos. Os primos, aliás, já rivalizam no noticiário com as avós que adoecem repentinamente e impedem jogadores bem intencionados (e muitas vezes mal interpretados) de ir aos treinos. Breno, honestamente, não fez isso. Disse apenas que se tratava de um mal-entendido, pediu desculpas aos companheiros, ao técnico, ao executivo-chefe Karl-Heinz Rummenigge.
Breno está num país onde todo mundo solta o verbo, e ninguém se incomoda muito. As recorrentes declarações de Michael Ballack sobre qualquer assunto – ele assume o que fala, assim como Marcos e Romário no Brasil -, ou Philipp Lahm sobre homossexualidade mostram isso. O zagueirão, no entanto, desrespeitou um princípio básico de qualquer instituição capitalista: ofendeu a instituição na qual trabalha publicamente. Os chefes, obviamente, não gostaram e o advertiram para tuitar menos.
O motivo da mensagem é simples: o Bayern Munique o colocou para jogar junto com o time B. Logo, estaria de sacanagem. De fato. Com o futebol que jogou até agora no time bávaro, Breno não merecia nem estar no time B. Aliás, se o desempenho dele for avaliado, já deveria ter saído do clube há algum tempo. Há quatro anos na Alemanha, jogou pouco – e mal -, se machucou muito, ganhou uma boa grana e é acusado de ter incendiado a casa em que vivia no em setembro. Passou 12 dias preso.
O Bayern fez várias sacanagens durante esse período. Trabalhou para tirá-lo da cadeia, forneceu advogado, tratamento psicológico, abrigo e tudo mais. Fez com que ele voltasse a treinar na equipe, manteve o pagamento dos salários. E tudo isso mesmo depois de Breno ter falhado nas oitavas de final da Liga dos Campeões contra a Internazionale e em alguns jogos da última Bundesliga – desconta-se aqui o período inicial de adaptação.
Em suma: o Bayern já assumiu o prejuízo há tempos. Pagou uma fortuna por ele quando o tirou do São Paulo e não teve muitos benefícios esportivos. Financeiramente, os bávaros sabem que não verão esse dinheiro de volta tão cedo, pois ninguém em sã consciência dará mais de € 12 milhões, ou algum valor próximo disso. No máximo, o zagueiro será emprestado a algum clube europeu do segundo escalão ou voltará para o Brasil, se a justiça alemã permitir. O Internacional, por exemplo, demonstrou interesse recentemente, e poderia ser uma boa alternativa para que Breno pudesse melhorar da depressão falando português todos os dias com quase todos no clube.
A manifestação no Twitter e a reprimenda do clube bávaro indica que a passagem de Breno por Munique chega ao fim. Não será o fim, no entanto dos jogadores mal interpretados. Eles continuarão aparecendo aqui, ali, acolá, em todos os cantos onde houver futebol, imprensa e público. E toda vez que agirem assim, com declarações que fujam dos padrões, vão dizer que “não foi bem isso o que eu quis dizer”, ou então pedir desculpas com cara de bunda em alguma coletiva.
Bundesliga de volta
Durante esse mês de pausa da Bundesliga, os clubes alemães quase todos fugiram do frio que faz por lá. O Bayern Munique, líder da competição, aproveitou para fazer uns trocadinhos em Doha, no Qatar, jogando uns amistosos, assim como o Schalke 04, terceiro colocado. O Borussia Dortmund, vice-líder, preferiu ir à Espanha. A farra, no entanto, acabou, e é hora de começar o segundo turno.
Logo de início, os bávaros já encontram chumbo grosso: enfrentam o quarto colocado Borussia Mönchengladbach nesta sexta-feira, fora de casa, e contam com o retorno de Bastian Schweinsteiger, recuperado da fratura na clavícula que o afastou do final do primeiro turno e dos dois últimos jogos da Liga dos Campeões. O Dortmund, vice-líder, encara o Hamburg, também fora de casa, no sábado.



