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A Alemanha viveu uma semana ótima nas copas europeias. Como não acontecia há seis anos, o país teve 100% de classificados aos mata-matas nas duas principais competições da Uefa. Os quatro representantes da Bundesliga seguem vivos na Champions League, assim como os dois clubes na Liga Europa vão em frente. A situação estava praticamente encaminhada, com a passagem antecipada de Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen e Hoffenheim. Apenas Borussia Mönchengladbach e RB Leipzig precisavam definir seus destinos nesta rodada final, embora estivesse garantida ao menos a repescagem de ambos à Liga Europa. O Gladbach perdeu para o Real Madrid, mas se valeu do empate entre Shakhtar e Internazionale para avançar. A grande atuação seria mesmo do Leipzig. Mais uma mostra de caráter do time de Julian Nagelsmann, numa semana tão exigente.

Em apenas quatro dias, o RB Leipzig encarou duas partidas essenciais para reforçar as ambições do time nesta temporada. Primeiro, os Touros Vermelhos visitaram o Bayern de Munique na Allianz Arena, numa tentativa de reduzir a diferença em relação aos líderes da Bundesliga. E não dava para poupar energias, mesmo considerando que o duelo contra o Manchester United na Red Bull Arena valia muito à temporada do clube. Repetir as semifinais na Champions é uma missão bastante difícil, e certamente todos têm essa consciência no elenco. Porém, cair logo na fase de grupos não estava nos planos. Os alemães precisavam da revanche pelos 5 a 0 em Old Trafford – se não pelo placar, ao menos pelo gosto de eliminarem os Red Devils mais cedo na competição. Conseguiram.

A campanha do RB Leipzig na Bundesliga não é impecável, mas ressalta o potencial do time independentemente da saída de Timo Werner. Os únicos empates até o momento foram contra oponentes que costumam frequentar a metade superior da tabela, embora o Eintracht Frankfurt não venha tão bem, e derrota para o Borussia Mönchengladbach aconteceu num jogo em que a eficiência dos Potros pesou bem mais que a agressividade dos Touros Vermelhos. Há uma certa cobrança para que o Leipzig roube mais pontos dos adversários diretos, algo que atrapalhou na temporada passada e não permitiu que a equipe fosse tão competitiva na reta final. Assim, a visita ao Bayern era uma prova às próprias ambições do time de Julian Nagelsmann.

Durante a última edição da Bundesliga, o RB Leipzig mostrou que sabia como amarrar o Bayern de Munique com empates tanto em casa quanto fora. O duelo mais relevante aconteceu no segundo turno, quando Hansi Flick já havia assumido (no primeiro turno, Niko Kovac ainda era o treinador) e os bávaros estavam com os motores aquecidos ao final de temporada histórico. O empate por 0 a 0 na Allianz Arena teve grandes méritos sobretudo da defesa do Leipzig, com atuação destacada de Dayot Upamecano. Desta vez, Nagelsmann optou por encarar o Bayern de peito aberto e ir para a trocação.

Curiosamente, o empate por 3 a 3 não teve tantas finalizações. Porém, viu a intensidade das equipes e uma enorme precisão nas ações ofensivas. O Bayern ainda ficou mais com a bola, mas o Leipzig apresentou seus recursos e não se apequenou. Fez um início de partida muito bom, para sair em vantagem no placar, e também demonstrou poder de reação quando tomou a virada, recuperando ainda a dianteira antes de ceder o empate final. A maneira como os Touros Vermelhos exploraram os espaços mostrou a inteligência do time, mesmo quando a defesa bávara não estava tão adiantada. O problema foi a passividade que os visitantes também tiveram atrás, permitindo que o Bayern reagisse. Além do mais, pensando na Champions, Nagelsmann não pôde exigir o máximo de seus titulares. Tirou jogadores importantes no segundo tempo, o que limitou as chances de uma vitória em Munique.

Para o jogo contra o Manchester United, Julian Nagelsmann mudou o esquema e precisou se virar com a suspensão de Upamecano. Willi Orban, Kevin Kampl e Dani Olmo eram as novidades na equipe que soltou seus alas para tentar abrir a defesa do Manchester United. A amplitude durante o primeiro tempo foi uma das chaves à vitória dos Touros Vermelhos por 3 a 2. Contra os Red Devils totalmente desligados no início do jogo, os germânicos precisaram de 13 minutos para que a classificação fosse encaminhada. Até pela situação do jogo, o Leipzig teve que se empenhar mais na defesa, com a vantagem precoce de dois gols. Ainda assim, construiu um contra-ataque para garantir o terceiro gol e conteve os adversários principalmente com as boas defesas de Péter Gulácsi. A missão se cumpriu com êxito.

Dentro da Champions, o RB Leipzig tem méritos pela forma como assimilou as lições. A derrota na semifinal contra o Paris Saint-Germain seria respondia com a vitória por 2 a 1 na Red Bull Arena, buscando a virada e mostrando mais recursos que os adversários – apesar dos desfalques importantes do outro lado. Os alemães seriam derrotados no Parc des Princes, mas num jogo definido por um pênalti questionável e com mais agressividade dos visitantes. Contra o Istambul Basaksehir, os Touros Vermelhos resolveram rápido o duelo em casa e persistiram até o fim para arrancar o emocionante 4 a 3 na Turquia. Por fim, os 5 a 0 do United foram analisados mais como uma goleada circunstancial do que como uma coleção de defeitos do time. Nesta reencontro, até pelo placar construído de início, o Leipzig não permitiria que os Red Devils deitassem e rolassem nos contragolpes, como em Manchester. Deu certo.

É importante frisar que, embora o RB Leipzig tenha continuidade no projeto de Nagelsmann, a equipe se vale de novos recursos. O time mantém características importantes, como a capacidade de variar esquemas táticos, o futebol pautado na velocidade e a agressividade também sem a bola. Entretanto, as saídas de Timo Werner e até mesmo de Patrick Schick têm um impacto compreensível sobre os Touros Vermelhos. Alexander Sörloth vem sendo uma grande decepção, a ponto de Nagelsmann demonstrar sua insatisfação com o rendimento do centroavante publicamente, e Hwang Hee-chan também enfrenta dificuldades, inclusive por ter sentido sintomas mais severos da COVID-19 ao longo do último mês. O treinador, mesmo assim, encontra outras soluções.

Uma opção comum de Nagelsmann é escalar um meia como referência no ataque, por vezes dois, mesmo ainda contando com Yussuf Poulsen na função. Assim, tem peças para contribuir mais à criação e construir a quem chega de trás. Dani Olmo é um jogador importante neste sentido, até por sua qualidade nos dribles e pela capacidade na finalização. Mesmo assim, a redescoberta do Leipzig é Emil Forsberg. O sueco, essencial no impacto inicial dos Touros Vermelhos na Bundesliga, parecia entrar em declínio. Vinha perdendo espaço até por problemas físicos e não disputou nem metade das rodadas como titular na temporada passada. Agora, recupera sua importância.

Forsberg é um jogador inteligente e que sabe pegar bem na bola. Mais próximo gol, tem exibido sua veia artilheira nas últimas partidas e aparece mais na área para definir. Não à toa, acabou sendo um dos melhores da equipe contra o Bayern de Munique, com gol e assistência. Dentro das limitações encaradas pelo Leipzig no ataque, o sueco se transformou em uma excelente alternativa e parece redescobrir seu próprio lugar no clube, como uma natural liderança, até por ser um dos mais antigos do elenco. Segundo a revista Kicker, é o melhor do time na Bundesliga.

O artilheiro do RB Leipzig neste início de temporada, ainda assim, joga na lateral. Angeliño tinha provado seu valor enormemente durante a metade final da campanha passada, quando desembarcou na Alemanha. Pois o espanhol conseguiu crescer mais e, na falta de Werner, ele a principal fonte de gols dos Touros Vermelhos. A capacidade do camisa 3 impressiona. Une muito fôlego com visão de jogo e também impulsividade para definir. O time pende muitas vezes à esquerda para aproveitar as passagens do ala e, em 17 jogos, ele contabiliza sete gols e cinco assistências. É um número absurdo para um jogador da sua posição. O Manchester United bem percebeu esse perigo constante, tendo pesadelos com Angeliño durante os primeiros minutos.

E outro que merece ser exaltado é Amadou Haidara. O volante chegou com expectativas, mas precisou se recuperar de uma séria lesão e não reproduziu o futebol dos tempos de Salzburg no princípio. Nesta temporada, o malinês tem sido bem mais frequente em campo e ganha a segurança de Nagelsmann. Aparece não apenas como volante, mas também como ala pela direita, como atuou diante do Manchester United. Embora o passe seja uma das forças de Haidara, a nova posição aproveita sua propensão a avançar e partir para cima da marcação. Aos 22 anos, é um dos jogadores com maior potencial do elenco.

Outras certezas permanecem ao Leipzig, como Gulácsi e Christopher Nkunku. Sabitzer passou o início da temporada lesionado, mas parece pronto a recuperar também seu protagonismo, enquanto Upamecano tem oscilado um pouco mais, mas talento não falta. E mesmo que a intensidade da temporada gere mais problemas ao departamento médico, há boas novas. O retorno de Willi Orban já se prova vital à zaga. Enquanto isso, Tyler Adams e Justin Kluivert são duas opções que ganham moral. Adams tem sido mais utilizado no meio. Já Kluivert parece disposto a recuperar sua reputação, e os dois gols nestes dois últimos jogos devem garantir mais minutos ao ponta.

Numa temporada com jogos mais encavalados, a gestão do grupo se torna ainda mais importante. Será este o maior trabalho do Leipzig, tentando aproveitar também jogadores com o rendimento abaixo do esperado. Outro desafio é tornar a defesa menos exposta – porque, apesar da emoção dos últimos resultados, oito gols sofridos em três partidas ainda é um problema. Para felicidade da torcida, os Touros Vermelhos conseguiram marcar vezes, dando mais calma às correções. E se é cedo para cravar quais as chances de título do clube nesta temporada, as virtudes ficaram mais evidentes nos últimos dias. Especialmente as de Nagelsmann, um treinador que soube adaptar o time aos desafios e conseguiu um nível altíssimo em jogos de tamanha exigência, encontrando as fragilidades dos adversários e redescobrindo talentos em seu plantel.