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Kuzorra, o craque que, ao mesmo tempo, foi capitão do Schalke e técnico do Dortmund

O Vale do Rio Ruhr fervilha em dia de dérbi. Borussia Dortmund e Schalke 04 formam uma das rivalidades mais acirradas de toda a Alemanha, tratada como a “mãe de todos os clássicos” pela imprensa local. As provocações, com direito a diversas faixas e até a objetos fálicos, são praxe nas arquibancadas. Além disso, nos últimos anos, também ocorreram alguns casos lamentáveis de violência. Tudo para dizer quem é a potência da região mais populosa do país. Clubes de cidades operárias, que construíram suas diferenças justamente a partir das semelhanças. Mas que, durante os seus primórdios, foram irmãos.

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O clássico ganhou contornos mais hostis nas últimas décadas. Rivalidade crescente a partir do final da Segunda Guerra Mundial, quando o Dortmund começou a despontar como uma potência nacional. Antes disso, só dava Schalke. Diante da enorme disparidade de forças, com os Azuis Reais dominando o país na década de 1930, prevaleceu a boa relação. Até curiosa, pela surpreendente aproximação envolvendo Ernst Kuzorra, considerado por muitos como o maior ídolo da história do clube de Gelsenkirchen.

Nascido em Gelsenkirchen, em uma das muitas famílias de origem eslávica que migraram à região, Kuzorra surgiu na equipe principal do Schalke em 1923, quando tinha apenas 18 anos. A partir de então, o atacante protagonizou o fortalecimento do time, que passou a brigar por títulos nacionais. A primeira conquista veio em 1934, vencendo o Nürnberg de virada na decisão, por 2 a 1. Dono da braçadeira, Kuzorra deu ainda mais motivos para a idolatria, anotando o gol da vitória aos 45 do segundo tempo. E o título dos Azuis Reais foi motivo de orgulho em todo o Vale do Ruhr, inclusive em Dortmund. Na volta de Berlim, o trem que carregava os campeões passou pela cidade dos rivais. A equipe foi ovacionada pela população e ainda homenageada pela prefeitura, com o capitão assinando o “livro de ouro”.

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Limitado às competições regionais, o Dortmund pediu a ajuda de Kuzorra nesta época. Queria que o craque da seleção alemã indicasse alguém que pudesse ser o primeiro técnico aurinegro, já que ninguém ocupava formalmente o cargo até então. O nome para o atacante era óbvio: Fritz Thelen, seu irmão mais velho e ex-companheiro no Schalke. Só havia um problema. O comandante não podia assumir o time de imediato. Então, o próprio Kuzorra quebrou um galho. Durante 10 semanas do início da temporada de 1935/36, o capitão azul real também treinou os aurinegros. E não abandonou o Schalke, conciliando o trabalho nos dois clubes. Era uma atração à parte em Dortmund, atraindo vários curiosos apenas para assisti-lo comandando as atividades.

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Thelen assumiu o cargo na sequência e ajudou a impulsionar o Borussia Dortmund, que pouco antes sofrera represália do Terceiro Reich por contar com opositores de Hitler em sua direção. Tanto que, justamente em 1936, aconteceu o primeiro clássico pelo Campeonato Alemão – antes disso, eram apenas cinco duelos, em amistosos ou torneios regionais. Já Kuzorra arrebentava ainda mais com o Schalke, destilando habilidade e fome de gols. O atacante estrelou a equipe na conquista de outros cinco títulos alemães entre 1935 e 1942. Época em que os nazistas quiseram embarcar no sucesso dos Azuis Reais, tentando embarcar na popularidade e transformar o clube em representante oficial do regime dentro de campo. Mesmo o capitão se tornou alvo do jogo político. Seu físico privilegiado e o espírito vitorioso eram vistos como ideais para que se tornasse garoto-propaganda do arianismo. Algo com o qual ele não compactuou.

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Kuzorra seguiu jogando no Schalke 04 até 1950, aos 45 anos. Acumulou números de respeito com o clube, além de liderá-lo em seu período mais vitorioso. Já na seleção, atrapalhado pelas guerras, o atacante disputou apenas 12 partidas e marcou sete gols. Nunca teve o gosto de participar de uma Copa do Mundo. A importância do veterano em Gelsenkirchen, porém, lhe dá posição de destaque na história do futebol alemão. O homem que uniu os rivais do Vale do Ruhr, e que completaria 110 anos nesta sexta, se ainda estivesse vivo.

Abaixo, uma imagem que encontrei na pesquisa. Quando faleceu, Kuzorra motivo até a criação de uma cerveja:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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