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O centenário de Toni Turek, o goleiro que tornou possível o Milagre de Berna e virou “deus do futebol” na Alemanha

O chamado “Milagre de Berna” costuma ser recontado de duas maneiras. De um lado, há a gloriosa vitória da Alemanha Ocidental em seu primeiro título mundial. A reação contra os poderosos húngaros, a virada espetacular, a tecnologia nas chuteiras que ajudou no campo enlameado: tudo isso faz parte do imaginário germânico. A epopeia do Nationalelf, porém, contrasta com a decepção dos Mágicos Magiares. E para a Hungria, a derrota não tem nada de “milagrosa”, seja pelas reclamações com a arbitragem ou pelas acusações de doping contra os oponentes. A palavra “milagre”, ainda assim, pode ter uma terceira conotação. Ela pode se centrar em um personagem específico. E não dá para ignorar o que fez Toni Turek na final da Copa de 1954. O goleiro foi um verdadeiro “milagreiro”, que inaugurou a tradição dos grandes ídolos alemães sob as traves. Lenda que nem sempre recebe a reverência merecida, apesar da atuação impressionante em Berna. Mas que, em seu país, permanece tratado como um deus.

Nascido em 18 de janeiro de 1919, Turek iniciou sua carreira em Duisburg, sua cidade natal. Deu os primeiros passos com a camisa do atual Eintracht Duisburg, em 1936. E já naquele momento, por uma peripécia do destino, o garoto teve a chance de ser observado por Sepp Herberger em um amistoso. Já atraiu a atenção do então assistente da seleção, com quem acabaria se cruzando anos depois. O início do arqueiro, de qualquer forma, era bastante duro. Não apenas por conciliar a dedicação nos gramados com o trabalho de padeiro, mas porque a Segunda Guerra Mundial estava prestes a estourar. Como outros tantos jovens alemães, ele seria obrigado a defender o Terceiro Reich em diferentes batalhas pela Europa.

O soldado Toni Turek também dava continuidade à sua carreira como goleiro. Quando não estava no front, tinha permissão para jogar nas depenadas competições locais. Em 1941, transferiu-se ao Ulm e ganhou sua primeira convocação à seleção no ano seguinte. Todavia, o amistoso de novembro de 1942 contra a Eslováquia foi o último do Nationalelf, antes de passar exatos oito anos sem atuar. O jovem arqueiro foi reserva naquela ocasião, compartilhando o banco com o já treinador principal Sepp Herberger. “A guerra roubou meus melhores anos”, dizia o camisa 1. E não foi apenas por isso que os conflitos o afetaram.

Turek participou de algumas das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial, na França, na Itália e na União Soviética. Ainda em 1941, no front russo, um estilhaço rompeu seu capacete de aço e se alojou na parte de trás de sua cabeça. O goleiro permaneceria com a “recordação” pelo resto da vida, já que a remoção seria muito perigosa. Apesar do corpo estranho em seu crânio, continuou atuando em alto nível. Já em 1944, um projétil atingiu sua mão direita. Também não foi problema para a trajetória do arqueiro. Neste momento, ele havia retornado ao Eintracht Duisburg e seguiria jogando por lá até a queda de Hitler.

Logicamente, a Segunda Guerra moldou a personalidade de Turek, mas não deixou traumas, segundo suas próprias palavras. E o futebol seria uma motivação para tocar a vida em frente, longe do terror. Naquele momento, em um país destroçado pelos conflitos, os clubes atraíam os melhores jogadores não pelos salários suntuosos, mas pela comida abundante ou por conseguirem retribuir seus serviços com um saco de carvão. Em 1946, Turek se transferiu ao Eintracht Frankfurt. E percorreu 250 quilômetros de bicicleta para assinar com o novo clube. Ficou por lá durante uma temporada, até retornar ao Ulm, onde chegou a trabalhar concomitantemente como professor de esportes em uma prisão. Já em 1950, a mudança que transformaria sua história como jogador: o goleiro de 31 anos foi contratado pelo Fortuna Düsseldorf.

A fama do arqueiro em Düsseldorf era tamanha que o Fortuna costumava ser chamado de “Os 11 de Turek”. O veterano impressionava por sua agilidade imensa sob as traves e pelo excelente posicionamento, mas também chamava atenção pela calma incongruente. Os golpes de vista eram um tanto quanto comuns e o goleiro esperava os atacantes até o último instante, uma tática peculiar que também os intimidava. A eficácia de sua forma de jogo naquela época, ainda assim, era evidente. Turek se tornou uma das primeiras grandes estrelas do futebol alemão. Os alvirrubros faziam campanhas medianas na Oberliga Oeste, a forte liga regional que integravam. Independentemente disso, o reencontro com Sepp Herberger não demorou a acontecer.

Em novembro de 1950, a Alemanha Ocidental disputou o seu primeiro amistoso desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de 115 mil torcedores lotaram as arquibancadas do Neckarstadion, em Stuttgart, ansiosos pelo retorno do Nationalelf. Turek foi o titular na vitória por 1 a 0 sobre a Suíça. E poucos jogos da seleção a partir de então não contaram com o arqueiro. Ele participaria de toda a campanha nas Eliminatórias, garantindo o seu lugar na convocação final para a Copa do Mundo de 1954. Aos 35 anos, era o jogador mais velho entre todos os 16 times que participaram daquele Mundial.

Curiosamente, Turek não era o favorito de Sepp Herberger naquele momento. O treinador pensava em convocar Fritz Herkenrath, jovem que despontava com o Rot-Weiss Essen. Entretanto, seu clube fez uma excursão pela América do Sul justamente durante as semanas da Copa e Herkenrath não pôde ser listado. Estrearia pelo Nationalelf apenas depois do Mundial, para ser o dono da meta em 1958. Sua ausência beneficiou o veterano Turek, que vestiu a camisa 1 e participou da vitória na estreia em 1954, contra a Turquia.

Apesar da goleada por 4 a 1, Sepp Herberger não aprovou a atuação de Turek contra os turcos. O treinador criticou publicamente a postura do arqueiro, preso demais à linha de seu gol, sem sair da pequena área para auxiliar seus companheiros na zaga. Contra a Hungria, no segundo jogo, o comandante mudou parte do time e testou outro goleiro, o ascendente Heinrich Kwiatkowski, que começava a se firmar como uma lenda do Borussia Dortmund. A goleada por 8 a 3 dos Mágicos Magiares não auxiliou e Turek já estava de volta para o jogo-desempate contra a Turquia, que definiu o segundo colocado da chave. A vitória por 7 a 2 classificou os alemães-ocidentais.

A afirmação de Turek na Copa de 1954, contudo, aconteceu nas quartas de final. O veterano fechou o gol contra o timaço da Iugoslávia e a vitória por 2 a 0 botou a sua seleção na fase seguinte. Então, depois dos 6 a 1 sobre a Áustria, aconteceria o reencontro com a Hungria na decisão em Berna. O pesadelo de qualquer goleiro naqueles anos, no fim das contas, representaria o passe à eternidade para o alemão-ocidental.

A tarde no Estádio Wankdorf não foi exatamente tranquila a Toni Turek. E nem havia de ser, considerando o poderio ofensivo dos Mágicos Magiares. Aos seis minutos, o goleiro não teve o que fazer quando Ferenc Puskás apareceu à sua frente para abrir o placar. Mas o pior aconteceu dois minutos depois, quando o veterano não segurou uma bola recuada e entregou o presente nos pés de Zoltán Czibor. Para seu alívio, Max Morlock e Helmut Rahn precisaram de apenas dez minutos para arrancar o empate aos germânicos. Já aos 24, Turek recuperou a confiança do jeito mais fantásticos possível. Evitou logo cedo o que poderia ter se tornado outra goleada dos húngaros.

No meio-campo, Mihály Lantos lançou em direção à entrada da área. Sándor Kocsis desviou de cabeça e Nándor Hidegkuti apareceu sozinho na linha da pequena área. O centroavante nem deixou a bola cair e já fuzilou de direita, com toda a sua força. Sabe-se lá como, num ato de puro instinto, Turek salvou. O camisa 1 esticou o braço esquerdo e conseguiu desviar a bola por cima do travessão. A consagração. “Turek, você é um Deus do futebol! Desculpe pela empolgação, mas o futebol nos deixa malucos!”, cravou o narrador Herbert Zimmermann, na rádio alemã. A alcunha ficou ao longo das décadas. A partir de então, o veterano passaria a ser sempre lembrado como um “deus do futebol” por seus compatriotas.

O relógio, no entanto, ainda guardava mais 66 minutos de jogo. Turek passaria por outras tantas provações. A Hungria finalizou 26 vezes naquela decisão, sendo 16 chutes no alvo. O veterano teve sua dose de sorte, como todo grande arqueiro. Viu a bola bater na trave duas vezes; em uma saída errada, contou com a ajuda de Werner Kohlmeyer para afastar em cima da linha; e quando Rahn já havia anotado o terceiro, também teve a ajuda da arbitragem ao anular aquele que seria o gol de empate, em impedimento de Puskás que os húngaros contestam até hoje. Só que a estrela do goleiro também brilhou com suas defesaças. Seriam outras tantas intervenções salvadoras em meio à saraivada dos Mágicos Magiares. A última delas, aos 44 do segundo tempo. Czibor recebeu na área e encheu o pé, mirando o canto. Pois o camisa 1 estava lá novamente para rebater o chute e assegurar a vitória por 3 a 2. O milagre que concretizou o Milagre de Berna, no primeiro título mundial da Alemanha Ocidental.

Ao final da partida, Turek saiu carregado nos braços em Wankdorf. E teria uma recepção ainda mais grandiosa em Düsseldorf, onde 100 mil pessoas saíram às ruas para celebrar o seu campeão do mundo. Na época, o goleiro ganhou um carro de presente da Audi, que possuía uma fábrica situada na cidade. Mas, curiosamente, teve o seu salário descontado pela Rheinbahn – empresa de transportes em que trabalhava, mesmo no ápice de sua carreira. De segunda a sexta, ele atuava na administração da companhia, antes de se transfigurar como herói local aos finais de semana.

Depois da Copa, Turek disputou apenas mais uma partida pela seleção. Encerrou sua trajetória com 20 jogos pelo Nationalelf, mas uma história insubstituível. Em 1956, deixou também o Fortuna, para uma breve passagem pelo Borussia Mönchengladbach. Pouco jogou com os Potros e pendurou as luvas em 1957, aos 38 anos. Retornou a Düsseldorf, ao emprego na Rheinbahn e à vida modesta de quem não havia juntado dinheiro com o futebol, mas se sentia orgulhoso pela história que escreveu. O fim da vida de Turek, porém, guarda tristes momentos. Em 1973, ele sofreu uma paralisia causada por vírus, que cessou os movimentos de suas pernas. Teve uma série de problemas de saúde nos anos seguintes, até falecer em 1984, aos 65 anos.

Turek permanece como uma figura bastante lembrada na Alemanha. É considerado um dos goleiros mais populares da história da seleção. Por exemplo, Harald Schumacher ganhou o apelido de “Toni” não apenas por seu nome do meio, Anton, mas também por reverência ao veterano. Já nos últimos anos, as principais homenagens aconteceram em Düsseldorf. O Fortuna inaugurou uma estátua do arqueiro em frente ao seu estádio e, nesta temporada, lançou uma camisa especial para celebrar o centenário do camisa 1. E nesta sexta, quando o nascimento de Turek completou exatos 100 anos, os tributos se espalharam em diferentes veículos de imprensa do país. O reconhecimento a quem tanto fez pelo Nationalelf. Àquela defesa contra Hidegkuti e ao 89° minuto em Berna.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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