Alemanha

O adeus a Joachim Streich, o “Gerd Müller da Alemanha Oriental” que debulhou recordes por clubes e seleção

Falecido aos 71 anos, Streich é o recordista em gols e aparições pela seleção alemã oriental, bem como o maior artilheiro da antiga Oberliga

Em novembro de 2021, a federação alemã eternizou cinco personagens históricos do futebol local em seu Hall da Fama. Entre os homenageados, estava um craque que nunca atuou na Bundesliga, mas encantou do outro lado do Muro de Berlim. Joachim Streich está para a Alemanha Oriental na mesma prateleira que Gerd Müller para a Alemanha Ocidental. “Achim”, como era carinhosamente chamado, encerrou sua carreira como recordista em gols e jogos pela seleção. Foi o maior goleador da antiga Oberliga, quatro vezes artilheiro do campeonato, duas vezes eleito o melhor jogador da DDR. Permanece ainda hoje celebrado como ídolo no Hansa Rostock e no Magdeburgo. E superou as fronteiras para ser lembrado até o fim da vida como um dos principais atacantes alemães de todos os tempos. Felizmente, a homenagem da federação aconteceu em vida, meses antes da despedida. No último final de semana, Streich faleceu aos 71 anos, vítima de uma doença crônica.

A comparação com Gerd Müller não costumava incomodar Streich. Pelo contrário, ele tinha o craque ocidental, seis anos mais velho, como seu grande exemplo – até por semelhanças de biótipo. Pela seleção, o centroavante disputou a Copa de 1974 e teve papel fundamental na conquista do bronze olímpico em 1972. Por clubes, não chegou a faturar a liga, mas levou três vezes a copa e acumulou condecorações individuais. Com um faro de gol impressionante e muita capacidade de definição com ambas as pernas, além de ótimo cabeceio para quem tinha apenas 1,73 m, Streich era venerado pelos torcedores alemães orientais, mesmo que alguns críticos preferissem questionar a sua falta de mobilidade. Na grande área, porém, poucos conheciam tantos atalhos e seus tentos viriam aos montes até o fim da carreira. A personalidade de Achim, além do mais, fazia com que desconsiderasse as críticas. Sujeito simples e alheio à badalação, respondia em campo com autoconfiança. Os gols falavam por ele sempre.

Joachim Streich nasceu em Wismar, cidade na costa norte da Alemanha, em 13 de abril de 1951. Filho de um motorista e de uma enfermeira, o garoto iniciou sua carreira na própria estrutura esportiva do município. Tinha seis anos quando ingressou no Aufbau Wismar, clube ligado ao setor de construção civil, que depois se fundiu como TSG Wismar. O talento do adolescente chamaria atenção e, aos 16 anos, ele já deu passos maiores. Em 1967, o centroavante assinou com o Hansa Rostock, principal equipe da região e que disputava a primeira divisão do Campeonato Alemão-Oriental. Naquele início, conciliava a carreira com os serviços como aprendiz de eletricista naval.

A fama de Streich ganhou novas proporções com o Hansa Rostock. Em 1968, o atacante se destacou na conquista do campeonato nacional entre os juvenis. Também passou a frequentar a seleção de juniores da Alemanha Oriental, com a qual foi vice-campeão europeu. Em agosto de 1969, então, ele estreou pela equipe principal do Hansa na Oberliga. Mesmo tão jovem, Achim se estabeleceu como titular. Atuando inicialmente como ponta direita, o adolescente de 18 anos deixou sua marca e se tornou artilheiro dos hanseáticos na temporada 1969/70. Era apenas o início de seu sucesso.

O Hansa Rostock costumava fazer campanhas na metade inferior da tabela naquela primeira metade dos anos 1970. Não era uma equipe com o investimento de outras potências da Alemanha Oriental. Isso não impedia que Streich se confirmasse entre os principais atacantes do país. Com o passar dos anos, o prodígio se firmou como o centroavante titular dos alviazuis. Também virou um nome frequente na lista de artilheiros da Oberliga. Registrava normalmente dois dígitos em tentos e aparecia no pódio entre os maiores goleadores do campeonato.

A realidade modesta do Hansa Rostock não impediu que Streich estourasse pela seleção principal da Alemanha Oriental. Sua estreia aconteceu ainda em dezembro de 1969, num amistoso contra o Iraque. Porém, foi a partir de 1971 que o centroavante teve continuidade como um nome importante na equipe titular. Acabaria se destacando em momentos importantes da DDR. Em 1972, Achim disputou as Olimpíadas de Munique com os alemães orientais. Seria um dos principais jogadores da competição, em campanha que rendeu a medalha de bronze para seu time – deixando os alemães ocidentais pelo caminho.

Streich tinha apenas 21 anos, mas não sentiu o peso de seu primeiro torneio internacional e arrebentou na fase de grupos. Marcou um gol contra Gana e dois contra a Colômbia, deixando o seu também na derrota para a Polônia. Na época, o torneio olímpico de futebol seguia o regulamento que seria adotado na Copa do Mundo, com um quadrangular semifinal, em que o melhor time disputaria a decisão e o segundo poderia jogar pelo bronze. A Alemanha Oriental caiu na chave da Alemanha Ocidental. Depois de perder para a Hungria e golear o México, com os húngaros garantidos na final, a vaga pelo bronze seria definida num duelo direto entre as duas Alemanhas.

Mesmo amadora, a equipe da Alemanha Ocidental tinha nomes conhecidos – como Uli Hoeness, Bernd Nickel e Ottmar Hitzfeld. No entanto, com o regulamento que beneficiava o status pretenso de amadorismo da Alemanha Oriental, a DDR pôde levar seu time principal – incluindo Jürgen Croy, Jürgen Pommerenke, Jürgen Sparwasser e Hans-Jürgen Kreische. A superioridade do elenco oriental prevaleceu e, num jogo em que os ocidentais buscaram o empate duas vezes, ainda assim o placar seria de 3 a 2 para a DDR. Streich marcou o segundo gol da sua equipe, em resultado que eliminou os anfitriões. Na decisão do bronze, a Alemanha Oriental empatou com a União Soviética e os dois times levaram medalhas, sem definição por pênaltis. Achim foi o artilheiro do time no torneio, com seis gols.

Com moral, Streich integrou a Alemanha Oriental nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974. E o centroavante seria um dos grandes responsáveis pela classificação inédita da DDR. Anotou quatro gols nas duas vitórias contra a Finlândia, assim como somou três gols nos triunfos contra a Albânia. Com cinco vitórias em seis partidas, os germânicos fecharam a chave um ponto à frente da Romênia e garantiram a passagem. Os orientais ganhariam a chance de disputar a fase final da Copa na vizinha ocidental. Nos amistosos preparatórios, aliás, Achim continuou marcando muitos gols. Balançaria as redes em vitórias contra União Soviética, Hungria, Tchecoslováquia, Bélgica e Argélia, bem como num empate diante da Inglaterra em Leipzig. O lindo gol anotado contra os ingleses, inclusive, renderia uma famosa frase cunhada pelo meio-campista Colin Bell: “A Alemanha Oriental tem dez operários e um travesso”. A fase do centroavante era sensacional e ele chegaria em alta ao Mundial.

Joachim Streich deixou sua marca logo na estreia da Alemanha Oriental na Copa do Mundo. A DDR venceu a Austrália por 2 a 0 e o segundo gol seria assinado pelo centroavante, num lindo chute de primeira. Achim passou em branco no empate com o Chile, sem atuar bem por causa de uma gripe, e acabou no banco durante a histórica vitória contra a Alemanha Ocidental. Para reforçar a marcação, o técnico Georg Buschner sacou o artilheiro. Uma pena que o aguardado encontro com Gerd Müller não tenha ocorrido. Streich voltou contra o Brasil, mas não evitou a derrota, e viu do banco o revés diante da Holanda. Retornou ao time quando a eliminação estava consumada, para enfrentar a Argentina na despedida do Mundial. O empate por 1 a 1 ofereceu mais um gol do atacante, de cabeça.

Depois de voltar da Copa do Mundo, Joachim Streich experimentou seu pior momento com o Hansa Rostock. Os gols do centroavante não bastaram e os hanseáticos foram rebaixados na Oberliga. Na última rodada, o craque perdeu um pênalti quando o jogo estava empatado e desperdiçou a chance de salvar sua equipe. O centroavante, contudo, não jogaria a segunda divisão. Seu desejo era seguir para o Carl Zeiss Jena, com o qual tinha um acordo verbal e inclusive um emprego garantido para sua esposa. Porém, as autoridades esportivas do regime comunista o levaram obrigatoriamente para o Magdeburgo, exatamente o campeão nacional naquela temporada de 1974/75. Os alviazuis haviam vencido ainda a Recopa Europeia em 1974 e reuniam outros destaques da seleção, como Sparwasser e Pommerenke. Achim chegava ao Elba para potencializar o timaço. Não se arrependeu: foi quando realmente atingiu seu ápice.

Apesar da interferência do governo em sua carreira contra sua vontade, Streich se via como um privilegiado dentro do sistema, como contaria à revista 11 Freunde: “Podíamos jogar em condições profissionais e também pude estudar. Estávamos bem, melhor que a média. Apesar dos bons desempenhos, os outros atletas provavelmente não tiveram uma vida tão fácil quanto a nossa, como futebolistas. O futebol era o esporte mais importante e popular na Alemanha Oriental. Nem mesmo o governo conseguiu impedir isso, porque senão certamente deixaria o futebol em segundo plano. A DDR foi significativamente mais bem-sucedida em outros esportes”.

Logo na primeira temporada pelo Magdeburgo, Streich estabeleceu uma parceria letal com Sparwasser, seu velho conhecido de seleção. E o centroavante logo começou a se sobressair ainda mais no novo clube. De 1976/77 a 1982/83, ele seria artilheiro da Oberliga em quatro oportunidades. Seu melhor ano veio em 1978/79, quando balançou as redes 23 vezes em 25 partidas. O duelo contra o Chemie Böhlen na rodada final, aliás, terminou com um recorde de Achim: foram nada menos que seis tentos na goleada por 10 a 2 dos alviazuis. Streich receberia o prêmio de melhor jogador do país naquela temporada, em troféu que também faturou em 1982/83. Na época, a revista World Soccer escreveria: “Streich é um fenômeno e o verdadeiro jogador de futebol da Europa em 1983. Por uma dúzia de anos ele se manteve firme contra os adversários mais duros, marcando gols apesar de estar sob vigilância especial”.

Os anos de Magdeburgo, embora prolíficos em gols, não permitiram que Streich conquistasse a Oberliga. Os alviazuis costumavam chegar no pódio, mas acabavam superados por Dynamo Dresden e principalmente Dynamo Berlim no topo da tabela. Restava brigar pela Copa da Alemanha Oriental. Achim levou três vezes a competição pelo Magdeburgo, com títulos em 1978, 1979 e 1983. A competição permitiria que a história grandiosa do centroavante pelo clube fosse mais reconhecida. Por tabela, também abria as portas nas competições continentais ao artilheiro.

Streich disputou 41 partidas nas competições da Uefa pelo Magdeburgo, com 17 gols anotados. A única campanha na Copa dos Campeões, em 1976/77, acabou cedo. O Magdeburgo foi eliminado pelo Malmö nos pênaltis. Achim marcou no tempo regulamentar, mas desperdiçou sua cobrança. O centroavante também disputou a Copa da Uefa em quatro oportunidades, com duas caminhadas até as quartas de final, em eliminações diante de Juventus e PSV. Já nas três aparições pela Recopa Europeia, as quartas de final também foram o limite em 1978/79, com a queda contra o Banik Ostrava.

Naquelas campanhas além das fronteiras, Streich enfrentou times da Alemanha Ocidental em duas oportunidades. Na Copa da Uefa de 1977/78, o Magdeburgo eliminou o Schalke 04 na segunda fase com vitórias por 4 a 2 e 3 a 1. Já na Copa da Uefa de 1981/82, os alviazuis seriam eliminados pelo Borussia Mönchengladbach apenas pelo gol fora. Aqueles encontros davam uma noção de como a Bundesliga também seria terreno fértil ao centroavante. “Acho que eu teria prevalecido na Bundesliga, até pelos jogos contra os times da Alemanha Ocidental”, comentaria ao Sportbuzzer. “Mas eu não tinha coragem de deixar o país e, depois de me casar e de ganhar minha primeira filha, fugir estava fora de questão para mim. Eu adorava jogar futebol na Alemanha Oriental”.

Também foi numa viagem internacional que Streich cogitou uma única vez desertar, mas desistiu da ideia, conforme relembrou à 11 Freunde: “Houve apenas uma situação em que pensei em seguir para o oeste. Em 1969, quando eu tinha apenas 18 anos, fui jogar com o Hansa Rostock em Atenas pela Taça das Cidades com Feiras. Depois de uma maratona de compras, dois colegas pensavam em ir à embaixada da Alemanha Ocidental. Entretanto, não tivemos coragem. Não sabíamos o que aconteceria se partíssemos. O que ocorreria com meus pais? Com meu irmão? Não condeno quem deixou o país. Eu conhecia a maioria desses jogadores pessoalmente. Era preciso muita coragem, tínhamos respeito por essas pessoas”.

Enquanto empilhava gols pelo Magdeburgo, Streich preservou seu lugar na seleção da Alemanha Oriental. Com uma fratura na clavícula, não chegou a disputar as Olimpíadas de 1976, quando a equipe levou o ouro, mas permaneceu nos ciclos posteriores. O problema é que a DDR não costumava se dar bem nos sorteios de grupos das Eliminatórias e as pedreiras impediam que os germânicos voltassem às fases finais das grandes competições. Equipes como Holanda, Polônia e Bélgica frustravam as tentativas dos alemães-orientais. Só não conseguiam impedir os gols de Achim, alguns deles espetaculares. Streich manteve uma média respeitável de um gol a cada dois jogos pela equipe nacional. Além disso, passou a usar a braçadeira de capitão em meados dos anos 1980.

Um momento marcante para Joachim Streich aconteceu em setembro de 1984. Somando também as aparições nas Olimpíadas (que não são contabilizadas pela Fifa), o centroavante se tornou o primeiro jogador da Alemanha Oriental a disputar 100 jogos pela seleção. A celebração aconteceu num duelo contra a Inglaterra em Wembley, em que o veterano foi homenageado com uma salva de prata entregue por Peter Shilton. Porém, aos 34 anos, o artilheiro vivia o fim de seu ciclo com a DDR. Seriam apenas mais duas partidas com a equipe nacional, despedindo-se em outubro de 1984, durante a estreia nas Eliminatórias para a Copa de 1986, contra a Iugoslávia. Segundo os números oficiais, foram 53 gols em 98 partidas pelos alemães-orientais. É o recordista do país em ambas as estatísticas.

A carreira de Streich pelo Magdeburgo também não se alongou muito. Sua última temporada como profissional aconteceu em 1984/85. A decisão de pendurar as chuteiras, todavia, não se dava por uma virtual queda de desempenho. O centroavante ainda marcou 18 gols pela Oberliga. Seriam duas partidas com quatro gols já na reta final da campanha. Emblematicamente, o último tento veio numa vitória por 6 a 3 sobre o Hansa Rostock, seu primeiro clube. Streich foi o maior goleador da história do Campeonato Alemão-Oriental, com 229 gols em 378 jogos pela competição. Também permanece ainda hoje como maior artilheiro do Magdeburgo em todos os tempos. Assinalou 223 gols em 321 aparições com os alviazuis.

“Bem, essa é a melhor coisa sobre a reunificação: meus recordes são intocáveis! (risos) Mas é muito mais importante para mim que as pessoas ainda reconheçam minhas conquistas. Quando alguém diz: ‘Ei, Achim, você não era nada ruim!’, então para mim isso é melhor do que sustentar esses recordes”, diria Streich à revista 11 Freunde, em 2011.

Joachim Streich se despediu dos gramados em 1985, mas não do futebol. Quando ainda atuava, o centroavante se formou em educação física. Assim, logo depois de encerrar sua carreira como jogador, ele já se tornou o treinador do Magdeburgo – contra a sua própria vontade, preferindo dirigir a base, mas obrigado pelos dirigentes. Não repetiria o impacto dos tempos de jogador, mas revelou talentos como Uwe Rösler e se despediu da equipe com uma terceira colocação na Oberliga 1989/90, seu melhor resultado, brigando pelo título até o fim.

Com a reunificação da Alemanha, Streich se tornou o primeiro comandante oriental num clube ocidental e assumiu o Eintracht Braunschweig na segundona, mas não durou muito. Segundo sua própria visão, “ser tecnicamente bom não era suficiente”, quando se cobrava uma postura mais midiática e ele era bem mais quieto. Teria ainda uma segunda passagem mais curta pelo banco do Magdeburgo, além de dirigir o Zwickau. A trajetória como técnico se encerrou nos anos 1990, antes que o veterano trabalhasse como vendedor em uma loja de artigos esportivos. Também seria colunista da revista Kicker.

Durante os últimos anos, Joachim Streich permaneceu bastante celebrado na Alemanha. Era uma figura costumeira nas arquibancadas do Magdeburgo, em especial, e seu aniversário de 70 anos rendeu diversas homenagens. Porém, o veterano sofria com uma síndrome mielodisplásica, doença que afeta a produção de células sanguíneas. Com isso, seu estado de saúde se tornou bastante delicado durante os últimos meses. A partida de Achim, aos 71 anos, rendeu novos tributos. E o reconhecimento não parte apenas da antiga porção oriental da Alemanha, mas de todo um país que valoriza o faro de gol do craque e a carreira de um dos maiores símbolos do futebol do outro lado do muro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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